
Luluzinhas querem entrar pro clube do Bolinha. Foto: A.C. Mafalda/SECOM
As mulheres são maioria na população e maioria entre os eleitores. Uma pequena maioria, porque nem chegam a 60%, mas não são minoria. Mesmo assim, ocupam tão poucos cargos nos governos dominados por políticos machistas, que a deputada estadual Ângela Albino (PCdoB) resolveu dar entrada num projeto que garanta a contratação de mulheres em pelo menos 30% dos cargos de confiança no governo do estado de Santa Catarina. Ela quer combater, com a cota, a discriminação praticada na hora de preencher os cargos.

Piper Seneca III. Foto: Acervo Gregg Cornell (http://www.eaa55.org)
Um avião fantasma da Polícia Militar acabou fazendo parte do enredo daquele crime bárbaro em que um sub-tenente da PM matou com requintes de crueldade sua esposa, em Imbituba, no sul do estado.
O bandido fugiu para o Rio Grande do Sul. A investigação da Polícia Civil o localizou e aí, saindo do nada, como convém a uma aeronave fantasma, o Piper Seneca 3 da Polícia Militar foi sozinho até Santana do Livramento, para trazer o militar/suspeitíssimo.
Eu digo que o avião foi sozinho porque a Secretaria de Segurança Pública de Santa Catarina publicou uma nota onde diz que não autorizou a ida de qualquer aeronave para o RS. Na mesma nota se informa que o transporte do suspeitíssimo/militar seria feito por via terrestre.
E o comandante da PM (que teoricamente é subordinado à SSP, mas na prática são outros 500) também não autorizou o uso do avião. Logo, trata-se de um legítimo avião fantasma, que vai sozinho onde bem entende.
Santa Catarina tem um órgão encarregado de fiscalizar os serviços públicos, uma Agência Reguladora de Serviços Públicos que atende pela sigla AGESC. Trata-se, imagino, de instituição de grande responsabilidade que, por isso, deveria ser dirigida por cidadãos ínclitos, probos e de reputação ilibada. Afinal, como regular a incompetência alheia tendo telhado de vidro ou o rabo preso?
Pois bem, o diretor executivo da Agesc — desde os tempos áureos do LHS — é Francisco Cardoso de Camargo Filho, não por acaso presidente estadual (vitalício?) do PTB, mais conhecido pelo mimoso apelido de Cochi. Tão integrado está o apelido à pessoa, que até o e-mail funcional oficial do diretor executivo é cochi@agesc.sc.gov.br.
Homem muito ocupado na fiscalização dos serviços que o governo presta ao público (inclusive da polêmica — pra dizer o mínimo — SCGás), encontrou recentemente um tempinho para ir a Brasília prestigiar a posse de um dos seus ídolos, o ministro do Trabalho Manoel Dias, a quem considera “um homem de luta, ético e que orgulha Santa Catarina”.
Não foi, portanto, sem surpresa, que tomei conhecimento da condenação no processo nº 0060659-77.2011.8.24.0023, da comarca da capital. Evidentemente que os cochi-advogados tratarão de desenrolar uma catadupa de cochi-recursos, mas fica sempre um travo amargo no sentimento do contribuinte/eleitor, ao notar que o João Raimundo agasalha, justamente na Agência que deveria fiscalizar os malfeitos, um sujeito com pendências judiciais. E, o que é pior: imexível. Porque reza a lenda que, no loteamento do governo, uma vez que uma sesmaria é doada para um vice-rei, nada justifica a retomada. Nem a condenação dos homens, nem o juízo final.
Bom, já que nada temos a fazer, deixo-os com o sintético resumo que está publicado no site do Tribunal de Justiça de Santa Catarina, citando o pobre do Cochi. Que, como todo político suspeito de improbidade, acabará rindo por último, enquanto nós continuaremos a pagar-lhe o salário e todos os demais fringe benefits.
“Relação: 0200/2013 Teor do ato: Ante ao exposto, ACOLHO os pedidos formulados na petição inicial para: a) condenar o réu FRANCISCO DE CARDOSO DE CAMARGO FILHO ao pagamento de multa civil equivalente a 02 (duas vezes o valor do dano, no montante de R$ 28.734,06 (vinte e oito mil, setecentos e trinta e quatro reais e seis centavos), devidamente atualizado desde a data dos fatos em 0,5% ao mês, além da perda da função pública, suspensão dos direitos políticos por 05 (cinco) anos, proibição de contratar com o Poder Público ou receber benefícios ou incentivos fiscais ou creditícios, direta ou indiretamente, ainda que por intermédio de pessoa jurídica da qual seja sócio majoritário, também pelo prazo de 05 (cinco) anos; b) condenar o réu ALAIR ANTONIO ao pagamento de multa civil equivalente a 01 (uma) vez o valor do dano, equivalente a R$ 14.367,03 (quatorze mil, trezentos e sessenta e sete reais e três centavos), devidamente atualizado desde a data dos fatos em 0,5% ao mês, além da perda da função pública, suspensão dos direitos políticos por 05 (cinco) anos, proibição de contratar com o Poder Público ou receber benefícios ou incentivos fiscais ou creditícios, direta ou indiretamente, ainda que por intermédio de pessoa jurídica da qual seja sócio majoritário, também pelo prazo de 05 (cinco) anos; Defiro o pedido de Justiça Gratuita formulada pelo réu Alair Antônio (fls. 138 e 145-146). Motivado pelo princípio da causalidade, condeno o réu FRANCISCO DE CARDOSO DE CAMARGO FILHO nas custas processuais, observando-se o deferimento da Justiça Gratuita em favor do demandado ALAIR ANTÔNIO. Deixo de condenar, contudo, nos honorários advocatícios. P. R. I Advogados(s): Guilherme Jannis Blasi (OAB 028.700/SC)”
DOS FATOS
E o que teria Cochi feito para merecer tal desabonadora decisão? Cedo a palavra ao meritíssimo juiz da 1a Vara da Fazenda Pública, Luiz Antônio Zanini Fornerolli:
“De acordo com os fatos narrados na peça inicial, a Agência Reguladora de Serviços Públicos de Santa Catarina – AGESC contratou diretamente a empresa Margareth Maria Apolinário M.E. para aquisição de projeto de arquitetura em 3D, de mobiliário de escritório e o respectivo serviço de instalação dos móveis planejados para o local.
Para tanto, realizou o pagamento de todo montante em 3 (três) parcelas. A primeira se deu no dia 18 de março de 2009, totalizou a importância de R$ 2.480.03 e foi destinada à elaboração de projeto 3D de salas da agência. A segunda parcela foi equivalente a R$ 6.842,00 e foi depositada na conta corrente no dia 08 de junho de 2009, dizendo respeito à compra do mobiliário a ser empregado na agência estatal. Por fim, o último pagamento realizado à empresa foi realizado no dia 15 de junho de 2009, com o fim de pagar o trabalho de instalação dos móveis nas dependências da AGESC, cujo montante totalizou o quantum de R$ 5.045,00.
Todos esses pagamentos se deram em favor da empresa Margareth Maria Apolinário M.E. e foram comprovados mediante as notas fiscais de fls. 22, 25, 30.
Em momento algum houve a celebração de contrato e, como já dito, a contraprestação pelos serviços e aquisição dos móveis foi feita em três oportunidades distintas, todas ordenadas por Francisco Cardoso de Camargo Filho e Alair Antônio, ora requeridos.”
Coisa pouca, dirão os amigos. Coisa insignificante, resmungarão os grandes ladrões. Coisa irrelevante, murmurarão os colegas de colegiado, sem coragem de opinar em público. Mas, cá entre nós, mesmo que tivessem sido surrupiados poucos centavos, era de se pensar seriamente se o Cochi estaria em condições de assumir as altas responsabilidades que caberiam ou deveriam caber a um tão destacado dirigente de autarquia.
Pode a moralidade dos serviços públicos de Santa Catarina ficar sob o olhar de quem precisa explicar-se em juízo por ter patrocinado operações de tão rasteira índole? Com a palavra o João Raimundo… que, se estiver, como suspeitamos, refém do PTB, continuará fazendo de conta que não é com ele. E o Cochi se manterá como regulador da coisa pública e, para desgraça dos servidores honrados (que são a maioria) como o tipo de aliado pelo qual o governo Colombo tem apreço.

Tabletes nas SDR de São Miguel, Tubarão e Chapecó

Tabletes nas SDR de Itapiranga, Joaçaba e Grande Florianópolis
O tablete amarelo que o governo do estado está entregando para os professores tem múltiplas utilidades. Por enquanto, como podem ver nas fotos acima, que foram distribuídas pela Secretaria de Comunicação, cumprem o papel de propagandistas políticos.
O leitor mais distraído poderia pensar que se trata de propaganda da National Geographic (famosa revista e canal de TV), cujo logotipo é um retângulo amarelo. Mas não, é propaganda do governo do João Raimundo mesmo.
Pra quem se aplicar no aprendizado do seu uso, o tablete, conectado à internet (tem internet em todas as escolas?), pode ser uma ferramenta útil. Não se trata aqui, portanto, de desfazer o mimo ou achar que não deveria ser utilizado. Mas de questionar:
a) Por que as SDR obrigam os servidores públicos a posar para fotos de propaganda mostrando os presentinhos?
b) Na listinha de prioridades das mazelas da educação estadual não existem problemas graves que aguardam solução?
TECNOLOGIA MÁGICA
Pessoas pouco ilustradas, com pouco estudo e cultura rala têm uma tendência a sobrevalorizar coisas “da moda”. Não conhecem direito sua utilidade, mas copiam o que outros fazem, achando que com isso igualam-se no “desenvolvimento”.
Ocorre com esta febre por tablets o mesmo fenômeno que enche as cidades de “câmaras de monitoramento”. Gabam-se as autoridades de estarem adotando “tecnologia de ponta” e distraem-se com esses brinquedos novos.
E, no mundo real, há falta de efetivo, carreiras mal estruturadas, problemas de inadequação salarial, escolas sem manutenção preventiva ou mesmo com defeitos graves.
Não será surpresa para esta coluna se, num dia de chuva forte, a professora tiver que correr para evitar que seu tablete seja atingido por alguma das várias goteiras que brotam do telhado “recém-reformado”.
Ou mesmo, num caso mais grave, que algum aluno “sem educação” use o tablete para agredir fisicamente professores.
[Fotos: Gisele Vizzotto/SDR S. Miguel do Oeste; Viviana Borchardt/SDR Tubarão; Douglas Dorneles/SDR Chapecó; Sadi Reckziegel/SDR Itapiranga; Mayelle Hall/SDR Joaçaba e Patrícia Antunes/SDR Grande Florianópolis.]
Muitos dos que passam por aqui devem imaginar que sou apenas um colunista/blogueiro. Antes fosse. Teria mais tempo para fazer o que mais gosto: descansar.
Na vida real continuo jornalista, utilizando minha experiência de mais de 30 anos de estrada, para tentar ajudar os jornais que ainda não foram oligopolizados a arrumar suas casas.
Essa linha de trabalho me aproximou, faz tempo, do Diarinho, para quem atualmente elaboro uma reforma gráfica e um manual com a definição das funções editoriais.
E desde ontem sou editor-chefe do jornal Município Dia a Dia, de Brusque. Na prática, minha tarefa é ajudar o competente editor-executivo Elton Souza e à pequena, porém aguerrida equipe de repórteres, a alcançar algumas metas editoriais necessárias para que o jornal possa continuar a crescer e a se modernizar.
Tanto o Diarinho quanto o Município são jornais que lideram seus mercados, têm profunda identificação com o leitor e uma história de bons serviços às suas comunidades. E, principalmente, estão sempre procurando formas de fazer melhor o que melhor fazem: informar.
Prefácio
A internet é uma faca de dois gumes – ou uma alface de dois legumes – porque, ao mesmo tempo que permite a qualquer um publicar coisas que ficam ao alcance, literalmente, de todo mundo, também permite que todo mundo redistribua o que acha interessante, mesmo sem citar autoria ou origem. Como não sou escritor famoso nem aspiro ser célebre, praticamente não corro o risco de ver textos meus sendo multiplicados apocrifamente ou com nome alheio. O que ocorre, por exemplo, com Clarice Lispector, Luís Fernando Veríssimo e Arnaldo Jabor, só para citar alguns “campeões de compartilhamento”, não tem a menor chance de acontecer comigo. Mas tem uma crônica, que escrevi no longínquo 2001, que anda dando voltas ao mundo. Às vezes, como aconteceu quando a Seleções do Reader’s Digest resolveu publicá-la, não só creditam adequadamente, como ainda me remuneram.
Mas, em grande parte dos casos, simplesmente transcrevem o texto, esquecendo-se de dizer quem o escreveu. Naquela velha toada do “li, gostei e dou de graça para vocês”.
Como este ano tem muitas amigas (e até alguns amigos) fazendo 50 anos, resolvi republicar.
Inclusive para deixar registrada, mais uma vez, a autoria. Com vocês, a minha crônica campeã de “compartilhamentos” na internet.
COMO FAZER 50 ANOS SEM DRAMA
Cesar Valente
Da série: Duas ou três coisas que as mulheres me ensinaram
Outro dia andava meio sorumbático porque não tinha saído completamente da crise da adolescência, ainda vivia a crise dos 30 anos e sentia-me em plena crise dos 40, pertinho de entrar na crise dos 50 que, segundo dizem, é a pior de todas, só superada pelas crises dos 60, dos 70 e dos 80 (os 90 não tem crise, é pura comemoração, assim como os 100, Barbosa Lima que o diga).
Pois bem, remoía eu essas idéias típicas de um allegro-deprê-maturado, quando me disseram que a Baiana ia fazer 50 anos. Ora, é impossível a Liana Milanez (a tal Baiana) fazer 50 anos. Ela tem 30 desde os 17 e nunca passou dos 32. A informação estava errada. Fui confirmar (sou repórter nas horas vagas, lembram?) e, de fato, a Baiana, que nasceu em 1949, iria mesmo fazer 50 anos.
A Liana é gaúcha. Ganhou o apelido por ter trabalhado uma época na Bahia. Conheci-a em Porto Alegre, na TV Gaúcha, em 1975. Eu, repórter iniciante de TV, com 20 anos. Ela, repórter veterana de TV, com sua cara de 20 anos. E extremamente grávida. A pessoa mais grávida que eu conheci. Fui contratado para substituí-la, na licença que ela, a qualquer momento, tiraria para parir.
Durante alguns dias ela me ensinou o serviço. As reportagens de TV eram feitas com filme. Preto e branco, na maior parte, colorido para o Fantástico e ocasiões especiais. Filme mudo na maior parte do tempo, sonoro uma vez ou outra. E sempre editado em moviola. Nos sentíamos cineastas cortando, colando, emendando e naquele momento eu só atendia o telefone se chamassem por Cesar Godard ou Antonioni Valente.
A Baiana, nessa época, fritou a barriga. Vou contar. Ela estava muito, muito, muito grávida. Barriga enorme, muito grande mesmo. Estava sozinha em casa, passando óleo de amêndoa na barrigona depois do banho, quando lembrou-se que tinha deixado alguma coisa no fogo. Saiu correndo do banheiro, pelada, e foi apagar o fogão. Esqueceu-se da barriga e aproximou-se demais. Só se deu conta quando, nesta ordem, ouviu um barulho de fritura, sentiu cheiro de fritura com óleo de amêndoa e sentiu a dor da barriga queimando.
Felizmente não aconteceu nada internamente e a Carol nasceu mais bonita que a mãe, faceira como a mãe e calma como o pai (o Nilton é mineiro). Eu coloquei, no mural da TV, um cartum (era assim que se chamava naquela época) com a Baiana de parachoque, para evitar esses problemas.
Reencontrei a Baiana em vários lugares depois, trabalhamos juntos em outras ocasiões. E foi na Gazeta Mercantil que soube que ela faria 50 anos, em 1999. Nunca tinha sido convidado para aniversário de 50 anos de nenhum outro amigo ou amiga. Os que fizeram mantiveram silêncio. Durante vários dias e mesmo na festa observei a Baiana como faria um pesquisador diante da ratazana que pode responder metade dos mistérios do universo. Tinha enorme curiosidade de saber o que acontece aos 50 anos. E a Baiana falando rápido, como sempre, correndo, como se, o tempo todo, estivesse pronta para apagar o fogo e fritar a barriga, mostrava na prática que a idade, ora a idade, é apenas um detalhe sem importância.
Talvez o segredo para fazer 50 anos como quem faz 30 ou 22 seja este: viver a vida como quem corre pelada para apagar o fogo e não deixar a carne assada queimar. Mesmo que frite a barriga. A Liana sempre viveu intensamente e ao completar 50 inteirona, ensinou muita gente a enfrentar essa idade com menos medo. Eu fui um. Mas tenho certeza que não fui o único.
Despedida da Gazeta na penúltima implosão, em 2001, ela nem estava mais lá para ficar com os cabelos chamuscados, já estava de volta a Porto Alegre, dirigindo a TV Educativa (foi presidente da Fundação Cultural Piratini). Pra variar, assim que chegou teve que organizar a cobertura do Fórum Mundial. Não deu tempo nem de respirar. Claro que sentiu-se em casa.
Lembro sempre da Baiana, mas neste ano tenho lembrado mais, porque daqui a pouco faço 50 e queria muito estar como ela. Inteirão. Cabeça a mil, como se tivesse 30 anos incompletos, corpinho enxuto, idéias generosas brotando de todos os poros e uma energia inesgotável.
Fazer 50 anos, assim como fazer 40 anos, ou mesmo 30 pode ser difícil, pode ser um drama, pode deprimir e desanimar. A menos que a gente faça como a Baiana e esqueça esse detalhe. O importante é a vida que se leva. Meus filhos têm achado esquisito (e os genros e noras mais ainda) aquele sujeito correndo pela casa, pelado, com o barrigão lambuzado de óleo. Mas entendem que eu só estou treinando para chegar aos 50 em boa forma. E se não me internarem antes, eu chego lá ótimo, com curativo na barriga e tudo.

Molecagens sobre fotos do A.C. Mafalda/SECOM
Se eu fosse ainda mais exibido do que sou, poderia começar esta nota escrevendo a seguinte frase: “Ontem almocei com o governador de Santa Catarina, que estava acompanhado do boa praça Murilo Flores, secretário do Planejamento e babá do Pac-to. No cardápio simples, porém eclético, filés bovino e de peixe, camarões crocantes e salada”.
Mas eu sou, antes de tudo, um sujeito modesto, que não fica por aí contando vantagem. Até porque não estava sozinho. O almoço de ontem na casa do governador foi para colunistas, jornalistas e radialistas do interior (donde o convite para o DIARINHO) e teve uma boa presença de colegas até das regiões mais distantes da capital.
O PACTO, VINHA CANTANDO ALEGREMENTE…
O prato principal, naturalmente, era o Pacto por SC. O governo está preocupado em fazer com que todos nós sejamos apresentados a todos os detalhes do Pacto. Houve apresentação em power point, entregaram pastinha com muita informação e, além do discurso, o governador respondeu a várias questões, relacionadas ou não ao Pacto.
Raimundo vê esse conjunto de ações, que o papagaio de R$ 9 milhões (às vezes citado como “de mais de R$ 7 milhões”) está viabilizando, como a redenção do estado. Mas no fundo, no fundo, a gente sente que ele também está achando que é a salvação do governo dele e uma grande alavanca para a reeleição.
Ele sabe que muita gente acha que as coisas estão demorando a acontecer. E chegou a mencionar essa angústia: “não tem dor maior que a dor do fracasso”, disse ao contar que em alguns momentos ele temeu decepcionar seus eleitores. Mas agora, depois de assinar “o maior contrato da história do sul do Brasil” (o papagaio com o BNDES) e ver que muitas obras entram na fase de execução, está mais otimista e animado.
PRA QUE MESMO TODA ESSA PRESSA?
O governo espera para muito breve a aprovação, na Assembléia Legislativa de Santa Catarina, do projeto de Lei 61/13, que instala o tal Regime Diferenciado de Contratações Públicas (RDC) no Pacto por Santa Catarina.
O RDC é aquele atalho que foi engendrado para dar “velocidade” às obras do PAC da Dilma, em especial aquelas que têm relação com a Copa e a Olimpíada. Trata-se de uma alteração na lei das licitações, que tem, fora do governo, vários críticos. E, nos governos, inúmeros defensores.
Diz o governo, na justificativa do projeto: “a medida tornará mais rápido o trâmite das licitações que serão abertas para as obras previstas no Pacto. (…) “Desta maneira, com o escopo de se executar obras e serviços inadiáveis de infraestrutura, bem como, diante da grave crise que se instalou em passado recente no cenário da Segurança Pública, decorre a necessidade de um procedimento mais dinâmico, menos burocrático e de grande relevância para a realização de obras e serviços nessa área, em benefício de toda a sociedade catarinense”.
As empreiteiras devem estar batendo palmas para esse processo “menos burocrático” e cheio de pressa. A pressa, vocês sabem, tem seu preço. E o afrouxamento dos controles, também.
EM TEMPO: depois de ter enviado o texto acima para o DIARINHO, recebi um comentário do secretário de Planejamento, Murilo Flores, sobre esse regime: “A grande vantagem da utilização do RDC é que, apenas com informações básicas sobre a obra, o Estado pode fazer a licitação do projeto e da obra. Com isso, pode-se encurtar de três a quatro meses um processo de concorrência pública. O regime dará maior segurança nos processos licitatórios já que muitos serão feitos por meio de pregão eletrônico e outros presenciais”. E o secretário da Casa Civil, Nelson Serpa, afirma que “a diminuição da burocracia e a redução dos prazos não significam menos rigidez no controle sobre os processos de concorrência pública no Estado”.
Então tá. Com os quatro pés atrás aguardo que o tempo passe e que as desconfianças mostrem-se infundadas.
VAIS MEXER FINALMENTE NAS SDR?
Ao final do almoço, os colegas puderam fazer perguntas ao governador. Uma delas trouxe embutida a grande pergunta que não quer calar desde que Colombo assumiu: “e as SDR, serão mantidas?”
Raimundo não se demorou muito tempo na resposta. Disse apenas que vai tratar das SDR no ano que vem. Disse também que antes tem que fundir algumas empresas e “modernizar a estrutura do estado”.
Na hora não tive a agilidade de perguntar se ele iria mesmo mexer nas SDR em ano eleitoral. Como todos sabemos, as SDR funcionam apenas como cabide para cabos eleitorais e candidatos… Falar em extingui-las é criar milhares de inimigos.

Ouvir com atenção tudo que o anfitrião diz faz parte do jogo para quem aceita convites para almoços oficiais. Mas no fim sempre tem alguma coisa que se aproveita...
Outro dia, enquanto esperava o ônibus, escutei parte de uma conversa comprida, em que três ou quatro sujeitos discutiam o “Pacto por SC”, que tem sido propagandeado a torto e a direito, a toda hora.
[Clique aqui para entrar no mundo maravilhoso do Pacto: www.pactoporsc.sc.gov.br]
Um deles levantou uma questão muito interessante: as obras que estão sendo feitas com esse rótulo fazem parte das obrigações do governo. Os impostos são pagos e os governantes são eleitos para: manter as estradas em boas condições, manter hospitais e escolas funcionando, construir penitenciárias, dar acesso aos benefícios oferecidos pelo governo federal, etecétera e tal.
Pois agora o governo resolveu dar um nome pomposo para suas obrigações e gasta milhões em propaganda para dizer que está fazendo coisas extraordinárias, quando está fazendo apenas aquilo que tem a obrigação de fazer.
Já estava louco pra me meter na conversa (afinal, como os ônibus demoram bastante a chegar, a gente precisa se distrair), quando um outro, mais enfezadinho, trouxe um assunto correlato: “e o que são esses 7 bilhões de empréstimo? Vamos ficar devendo a vida toda! Daqui a 20 anos ainda vai ter governador pagando essa conta do Raimundo!”
Um outro corrigiu: “eu li que no total serão 9 bi”. E a conversa pegou fogo…
O eleitor é mesmo uma gente ingrata e desamorosa. Ô raça!

A montadora da BMW, pelo jeito, é a salvação da lavoura.
Nem bem os catarinenses se recuperaram do espantoso aumento da dívida estadual, com aquele empréstimo bilionário feito no BNDES, são submetidos a novas e fortes emoções, com a forma como o anúncio de que a BMW vai instalar uma montadora em Santa Catarina foi feito. Pelo barulho que fizeram, pelo entusiasmo com que notórios caça-dotes foram à luta, tem-se a impressão que, a partir de agora, todos os problemas do estado estão resolvidos.
Parecia anúncio das Organizações Tabajara, mas era apenas uma comemoração das organizações inastaladas na máquina pública. Sabem que o eleitor se impressiona com essas coisas. E é fácil dizer que João Raimundo trouxe a BMW. João Raimundo proporcionou mais algumas centenas de empregos. O Paulinho Bornhausen também vai querer, com toda justiça, tirar alguma casquinha dessa empada. Afinal, João Raimundo não fez todo o trabalho sozinho.
Nem vou perguntar, para não acharem que sou intrometido além da conta, como foram as negociações entre o governo e a BMW e entre os operadores do governo e os representantes da BMW especializados no relacionamento com autoridades públicas de países em desenvolvimento. E muito menos o que teria acontecido sob os lençóis nesse mundo competitivo onde a principal lei é a do tomaladacá.
Nesse campo, o que puderem anunciar publicamente será chamado de “incentivo”. Seja como renúncia fiscal, seja como serviço, tudo estará amparado pela lógica do “se a gente não desse isso, eles iriam para outro estado”.
Claro que a instalação de mais uma indústria no estado é importante. Evidentemente poderá se transformar num elemento de atração de outras indústrias, ligadas ou não ao ramo automotivo. Mas não soluciona automaticamente muitos dos problemas que o estado enfrenta. Ao contrário.
Cada nova indústria que chega revela novas deficiências de infraestrutura. E às vezes parece que o governo e suas empresas estão administrando um cobertor muito curto. Puxam pra cima daquele que está sendo lançado no momento e deixam os pés de fora de outros que já estão no estado há mais tempo e que também mereceriam atenção.
Tem regiões importantes de Santa Catarina onde a Celesc, com a maior cara de pau, já anunciou que não tem como ampliar o fornecimento de energia. A cidade que trate de ficar quieta, sem atrair novas indústrias, porque a Celesc não tem condições de atender.
Equipamentos importantes, como as pontes de concreto que são os únicos acessos à ilha de Santa Catarina, por exemplo, atravessam décadas sem manutenção adequada. Escolas estaduais, que deveriam formar uma base sólida para a mão de obra qualificada que sempre foi uma característica catarinense, estão sendo interditadas por falta de condições de uso.
E o que dizer da qualidade do ensino e da forma como os professores são tratados pelo governo? A festa, por tudo isso, deveria ser um pouco menos espalhafatosa. E mais realista.
CESINHA E DALMINHO BOTAM O PÉ NO FREIO!

A Ponta do Coral, com o morro da Cruz

Foto: Movimento pela Criação do Parque Cultural das 3 Pontas

O pequeno pontal da discórdia (detalhe da foto acima)
O prefeito de Florianópolis, Cesinha Júnior e seu fiel escudeiro para pepinos diversos, o secretário municipal do Meio Ambiente e Desenvolvimento Urbano Dalmo Vieira Filho, sacudiram a modorra da semana chuvosa ao informar o resultado do reexame da montoeira de alvarás generosamente concedidos pela turma do Dário Berger nos últimos meses da gestão anterior.
Foram examinados 150 alvarás. Apenas 27 deles estavam nos conformes e foram mantidos. Para a maioria (90), a prefeitura pede documentos complementares e informações adicionais que deveriam ter sido pedidos antes mas, pelo jeito, não foram. E aí sobraram 33 alvarás cuja suspensão foi recomendada.
A legislacão utilizada para esse exame é a mesma que já estava em vigor quando Dário e sua troupe fizeram seu “serviço”. O que demonstra que a legislação não era frouxa. Frouxos eram aqueles que, por um motivo ou por outro, não a cumpriam. Cheio de razão, Cesinha disse o seguinte, diante de um mar de microfones:
“A lei não era cumprida. A cidade não era respeitada. O empreendimento privado estava acima do interesse público em vários casos. Por isso que eu repito que a farra de fato acabou. Agora é o império da lei, também com equilíbrio. Com a análise indistinta de quem for o proponente, a prefeitura vai analisa com muito cuidado e com muito carinho pela cidade cada um dos empreendimentos propostos.”
E pra completar ainda deu uma canelada genérica que deve ter deixado os incorporadores imobiliários e outros empreendedores que estavam acostumados com os bons serviços do prefeito anterior, com os cabelos em pé:
“O que nós não podemos é fazer a destruição de nossa cidade por conta de interesse particular”.
Entre os 33 alvarás suspensos o de maior impacto é o que autorizava a construção de um mega empreendimento na Ponta do Coral. Terreno que passou de público a privado num passe de mágica, virou uma espécie de ícone da luta entre os defensores da liberdade para construir e os defensores do ambiente.
Em resumo: uma pequena peninsula (fotos lá em cima) ganharia o reforço de um aterro e na área resultante seria construído um hotel de luxo e vários equipamentos, inclusive uma “área pública” (fotos abaixo). Um empreendimento grande que mexe com muita coisa (trânsito, infraestrutura, aterro de área de marinha, etc) e com muitos interesses. A construtora Hantei afirma que está dentro da lei e quer que Cesinha & Dalminho reavaliem sua decisão ou sugiram adaptações para que o projeto seja liberado.
Depois do susto e do xororô, a turma vai acabar dançando conforme a música que a nova banda está tocando.

O projeto. Detalhe da foto abaixo.

O projeto. Foto utilizada na divulgação.

O projeto vetado, de outro ângulo

Renan, presidente do Congresso Nacional. Foto: Pedro França/Ag. Senado
ATRÁS DA CORTINA
Lembram do Renan Calheiros? Esse mesmo, aquele político alagoano que teve que renunciar a um mandato para não ser cassado e que depois, graças ao eleitor bom, generoso, complacente e meio fraco da memória, voltou ao Senado. E foi eleito presidente da Casa por representar o modo de pensar, ser e agir da maioria dos senadores. Por menos que gente goste dele, do seu jeitão e do que fez e faz, seus colegas gostam. E acham que ele é a pessoa certa no lugar certo.
Muita gente discorda, com base em processos, denúncias e uns tantos rabos que ele foi deixando ao longo de seu caminho. Tanto que criaram um auê quando ele foi sungado à presidência, substituindo outro ícone da moral e da ética política vigente, o eterno coronel maranhense José Sarney.
E o que aconteceu? Nada. Porque criaram uma cortina de fumaça. Uma distração. Um outro evento que atraiu todas as atenções: colocaram o alegre e glostorado Feliciano na Comissão dos Direitos Humanos. Pronto. Foi como se Renan Calheiros tivesse vestido o manto da invisibilidade. Ninguém mais falou nele, nem nos seus malfeitos. Agora todos só têm olhos e ouvidos para as trapalhadas Felicianas.
ATRÁS DOS VOTOS
Ainda que Feliciano e todos os demais componentes da aguerrida “bancada evangélica”, vez por outra, sejam utilizados pelos espertalhões de alto coturno em suas manobras, aqui e ali, não podem ser considerados tolos.
Eles sabem muito bem o que fazem, por que estão ali e o que pretendem com aquele seu jeito meio desengonçado de mover-se entre os espertos graduados da política coronelista brasileira.
O PT (e todos os demais partidos não religiosos) não descansaram enquanto não atraíram para o seu aconchego os milionários bispos e seu séquito de pastores. De olho no voto fiel dos pobres que acorrem aos milhares para os salões evangélicos em busca de consolo, abrigo para a alma e salvação na vida eterna.
Em pouco tempo os líderes religiosos descobriram que é muito melhor pedir votos para si mesmos do que recomendar que votem em outrem. E a cada eleição é uma enxurrada de pastores e bispos concorrendo em todas as instâncias.
Partidos “de esquerda” que deveriam, em nome de uma certa coerência histórica, manter distância respeitosa daqueles que administram “o ópio do povo”, são vistos aos beijos, abraços e em trocas despudoradas de favores por cima e por baixo dos panos, com todo e qualquer clérigo que lhes prometa apoio e apoio de seus rebanhos muito bem apascentados.
ATRÁS DA GRANA
O ministro da Pesca do governo Dilma, Marcelo Crivella (PRB, bispo licenciado da Universal e sobrinho do Papa Edir Macedo) foi muito feliz ao resumir, para um grupo de cerca de 3 mil pastores evangélicos, no último dia 22, a essência da relação deles com o governo:
“A nossa presidenta e o presidente Lula fizeram a gente crescer porque apoiaram os pobres. E o que nos sustenta são dízimos e ofertas de pessoas simples e humildes. Com a presidenta Dilma, os juros baixaram. Quem paga juros é pobre. Com menos juros, mais dízimo e mais oferta.”
Não é tocante o desprendimento, o espírito público e a forma profundamente religiosa com que o eleitor, em especial o eleitor pobre, é tratado?
As igrejas pentecostais se beneficiam da extrema liberalidade com que canais de TV e rádio são alugados e cedidos para seu proselitismo e suas promessas de milagres em troca de doações. E ocupam postos-chave nos parlamentos e no governo, numa esperta troca de favores, que pode transformar o Brasil numa espécie de Irã cristão. E aí, adeus PT e partidos “de esquerda” não religiosos.

Pardal? Que nada, é gaivota mesmo. Foto enviada pelo Luiz Henrique
Florianópolis está para ganhar um montão de pardais (câmeras de controle de velocidade nas vias urbanas). Mais ou menos nos mesmos lugares onde um dia já funcionaram. Há algum tempo deu um problema jurídico, tiveram que tirar e agora estão voltando, com câmeras mais modernas e o mesmo apetite de sempre. Já estão quase todos instalados, só falta ativar.
E aí, claro, ressurge uma velha discussão sobre a tal “indústria da multa”. Com gente brandindo argumentos de todo tipo, inclusive um, que eu acho meio torto, de que só deveria ter “radar” onde costumeiramente tem acidente.
Usam esse raciocínio dos acidentes pra reclamar dos “radares” na beira mar e acabam justificando, por exemplo, aquela campana quase diária dos policiais rodoviários na “curva da morte” da SC 401, que pelo jeito não será reformada nunca.
Vários dos debatedores públicos desse assunto dão a impressão que serão injustamente multados todas as vezes que passarem pelos pardais (mesmo na velocidade permitida). E debatem-se contra o fato das multas serem aplicadas por uma empresa terceirizada, “apenas pra encher os bolsos da prefeitura”.
EXCESSO DE AGRESSIVIDADE
Pra começo de conversa, é preciso estabelecer alguns limites não só para a velocidade com que se anda nas vias urbanas, mas também para a forma como os motoristas se comportam.
Claro que, num mundo ideal, o controle de velocidade seria precedido e acompanhado de uma série de estudos e providências. Instalar um “radar” não deveria ser uma coisa isolada e a prática mostra que isso não resolve muita coisa e ainda, em muitos casos, acaba fazendo com que a opinião pública fique contra. O que parece ser o caso de Florianópolis.
Portanto, nada será feito para tentar conscientizar os motoristas da capital quanto à forma agressiva com que conduzem, nada será feito para impedir que “colem” na traseira dos veículos, que “costurem”, que dirijam alcoolizados ou drogados, que respeitem voluntariamente os limites de velocidade.
Assim como os limites de velocidade são definidos, em muitos casos, sem qualquer estudo mais sério. E a sinalização é colocada também sem qualquer critério, gerando confusão e insegurança. Nesse vácuo de atitudes sensatas e nesse vazio de planejamento florescem os pardais, como uma forma cômoda de mostrar que há preocupação com segurança.
Se o limite de velocidade naquela via foi estabelecido com critério (e, infelizmente, nem sempre o é), a maioria poderá manter-se no limite (e fugir das multas) sem grande dificuldade. Mesmo assim, um certo percentual dos motoristas vai acabar ultrapassando o limite e sendo multado. E aí, tratará de apontar todos os defeitos, reais e imaginários, do sistema.

Pardais prontos pra entrar em ação. Ilustração do André Valente
SEM EDUCAÇÃO
O controle de velocidade existe em todo o mundo civilizado. Na Suécia tem rodovias com “radares” a cada 4,5 km. E o choro também é universal. Alguns esstados e municípios, em vários países, são acusados de manter seus limites bem abaixo da velocidade de segurança, apenas para faturar mais com as multas.
O Brasil, provavelmente um dos líderes mundiais na instalação de lombadas, não faz nenhum esforço sério para educar seus motoristas (coisa que deveria ser feita desde a escola primária). Diante da impossibilidade de mudar os maus hábitos dos motoristas, instalam lombadas. Ou pardais.
E os pés de chumbo reclamam, como pobres vítimas do arbítrio, mas não fazem nada para tornar o trânsito menos perigoso e estressante. Não querem saber de reduzir a velocidade espontaneamente. Só tiram o pé do acelerador se sabem que levarão uma multa pesada. Ou que a lombada danificará o carro. E só param quando abraçam um poste, enfiam a cara num muro ou mergulham debaixo de um caminhão.
Achei muito interessante este texto do jornalista Patrick Cruz e por isso tomo a liberdade de traze-lo para cá. A discussão que ele provoca chama atenção para os métodos do governador lageano de fala mansa que um dia (provavelmente sem convicção, por pura conveniência eleitoral de momento) chamou as SDR de cabides de emprego.
E assim como LHS tratava Joinville e o Dr. Moreira tratou Criciúma, Raimundo trata Lages. Parece ser uma prática mais ou menos consolidada na política catarinense (brasileira?): a “base eleitoral” é uma extensão da sua casa, um quintal ou um curral onde tudo pode.

O tio do Gabriel. Foto: Antônio Carlos Mafalda/SECOM
CAPITANIA HEREDITÁRIA
Por Patrick Cruz
Colegas,
A lógica toda está mais do que clara: o secretário Jurandi Agustini deixa a SDR de Lages e ganha como prêmio de consolação uma função qualquer numa secretaria tanto faz (no caso, a da Saúde, mas isso não tem a menor importância). A SDR é assumida por Gabriel Ribeiro, sobrinho do governador, filho de Décio Ribeiro, outro ex-prefeito de Lages, e aparentemente um nome que se quer ungir para concorrer a uma vaga na Assembleia Legislativa (e que será, é claro, um cabo eleitoral fidelíssimo na campanha do governador à reeleição).
Como eu disse, está muito claro. O que está igualmente claro — mas que até aqui não foi dito com todas as letras, ao menos no caso dessa sucessão — é:
1. Estamos conversados que as SDRs são um instrumento para atuação política do governante da ocasião, certo? Sendo assim, não deveria o cabo eleitoral em questão ser remunerado pelo PSD, partido do governador, e não pelos contribuintes catarinenses?
2. Gabriel Ribeiro é jovem, talvez até seja um bom sujeito, simpático, bom filho, bom amigo (jamais travei palavra com ele para ter alguma referência), mas dizer que ele representa “sangue novo” na política é o mesmo que chamar de novas as taipas da Coxilha Rica: sendo sobrinho de quem é, e filho de quem é, e parente de tanta gente que é algo na terra do governador há décadas, tudo o que ele não é é renovação;
3. Aliás, que credencial tem o jovem Gabriel Ribeiro — além do já notório parentesco — para ser nomeado secretário de estado? “É por já conhecer a estrutura do governo” talvez seja a única resposta que me darão. Ora, se ele só conhece o governo por dentro porque foi levado para lá por nada além que o bom parentesco, quer dizer que só terá chance de “conhecer bem a estrutura do governo” quem tiver costas quentes? Não era a isso que se dava o nome de nepotismo?
4. Passar o bastão do poder assim, quase como em uma sucessão monárquica, deixa transparecer o seguinte: há quem acredite que a popularidade em sua terra natal dá ao cacique poderes de governá-la como a uma capitania hereditária;
5. Aliás, por falar em nepotismo, alguém sabe aí onde anda o Ministério Público?
6. E por falar em nepotismo e cabide de emprego e secretarias de estado usadas como trampolins na carreira de sobrinhos semidesconhecidos, alguém aí sabe se ainda existe alguma oposição em terras garibaldinas?
Lembremos: a crítica não é declaração de voto. A crítica é a essência da democracia. Sem ela, até os cordeirinhos viram déspotas.
Abraços.

Molecagem sobre foto do Jeferson Baldo/GVG
Começam a ficar claros os critérios com que a dupla Gean&Moreira pretende dirigir a Fatma. Ao exonerar servidores de carreira de vários cargos em comissão para abrir espaço para candidatos a vereador derrotados e amiguinhos do peito, Gean&Moreira mostram que o meio ambiente não tem a menor importância: a “construção do partido” é prioritária. Ainda mais em Florianópolis, onde o eleitor, esse ingrato, deu uma banana pro PMDB.
Antes de continuar: por que incluo o Dr. Moreira na direção da Fatma, cuja presidência deveria ser exercida apenas pelo candidato derrotado Gean Loureiro? Ora, porque quando surgiram as reações contra a nomeação do ex-vereador, o Dr. Moreira veio a público avalizar a indicação e praticamente se colocou como defensor dativo do pupilo. Então podemos afirmar que o Dr. Moreira escolheu embarcar na mesma canoa do Dr. Gean e que, portanto, o que acontecer de bom e de ruim na Fatma terá as impressões digitais dos dois.
Posentão: no último dia 15 a dupla fez uma limpa em algumas gerências e diretorias da Fatma que eram ocupadas por servidores de carreira. Pra quê? Pra dar emprego para dois ex-candidatos a vereador do PMDB de Florianópolis e um assessor do deputado Gean.
O novo gerente de Planejamento e Avaliação é Maycon Cassimiro Oliveira, professor do ensino médio que na administração Dário Berger tinha sido Diretor de Serviços Públicos da prefeitura de Florianópolis. Seus 2.368 votos não o elegeram.
Como diretor de Administração entrou o advogado João Gabriel de Rezende Correa Pimenta. Teve 1.406 votos, que foram insuficientes para colocá-lo na Câmara, mas parece que bastaram para abrir-lhe as portas da Fatma.
E o diretor de Proteção dos Ecossistemas é Alexandre Simioni, assessor do Gean Loureiro na Câmara dos Deputados. Natural de São José do Cedro, no extremo oeste, conseguiu que seu assessorado liberasse junto ao Ministério da Agricultura grana para que o município comprasse um caminhão basculante. Tal proximidade com o presidente da Fatma e com as lides da clientela qualifica-o suficientemente para gerir a proteção dos ecossistemas.
A Fatma antes da dupla Gean&Moreira era um órgão técnico de abrangência estadual. Agora, pelo jeito, virou um órgão político local cujo objetivo é dar, ao derrotado Gean Loureiro, condições de ampliar seu patrimônio eleitoral na capital do estado. E o ambiente que se cuide.
Sábado (!!!) foi feriado em Florianópolis. Comemorava-se o aniversário da cidade, que tem lá seus 287 anos. Há uma certa controvérsia sobre a data exata, mas isso é conversa para outra hora. Agora, o que me cabe, como florianopolitano por nascimento e opção, é dar-lhe, caríssima capital do meu coração, amantíssima Ilha dos ocasos raros, dulcíssima Desterro cuja magia ingênua e envolvente penetra na pele a cada rajada de vento sul, os parabéns. Ainda que com pequeno atraso.
Temos na lembrança aquela cidadezinha pequena e parada, onde nos conhecíamos a todos pelos nomes, pelos apelidos e sabíamos de todos a vida quase inteira. Temos ainda a teimosia de achar que a vida de então era melhor. Nem nos lembramos mais da Elfa, companhia de eletricidade intermitente, que apagava à noite e tremelicava de dia. Esquecemos do pavimento de madeira da velha ponte, liso como sabão em dias de chuva. E apagamos da memória a difícil viagem para qualquer lugar além do Estreito.
Viver de saudade, nos ensina a própria vida, só traz incômodo e desconforto. Mas esquecer o passado nos torna imbecis. A dosagem certa, sabedoria difícil de obter, permite alcançar um estado de graça que nos enche de felicidade sempre que, nos dias luminosos de outono, a Ilha se mostra sedutora e bela como deveria ter sido a Terra inteira, logo depois da criação.
Aqui neste pequeno espaço queria materializar minha homenagem em três imagens:

Manezada de 2003. Foto Paula Arendt Laier
Primeiro, a turma de Manezinhos da Ilha de 2003, Aldírio Simões à frente. Brincando, brincando, cresceu a auto-estima, recuperamos amor próprio, passamos a acreditar que não era preciso render-se, sem luta, ao invasor. Com a morte dele encerra-se uma fase de afirmação de alguns dos nossos valores.

Figueira da praça. Foto Palhares Press
Depois, o Jardim Oliveira Belo, na Praça XV, recanto de belas árvores, oásis a nos lembrar o valor da sombra, a importância da calma e lembrete do que perdemos ao trocar árvores por cimento e asfalto.

A inconfundível silhueta. Foto Palhares Press
E finalmente o cartão postal por excelência. A ponte Hercílio Luz. Monumento inútil. Esqueleto sem vida. Sem outra função senão a de posar para fotografias até que os olhais terminem de enferrujar e tudo desabe. Ou até que alguma alma criativa e lúcida a substitua por outra, nova, igualmente imponente, talvez ainda mais bonita e principalmente viva e útil, para uma pobre cidade cujos habitantes já começam a perder muito do seu tempo precioso, parados aguardando a vez de ir e vir.
NOTA OFICIAL
A Capitania dos Portos de Santa Catarina recomenda que o tráfego de embarcações sob a Ponte Colombo Sales seja realizado utilizando o espaço adjacente ao vão central, em direção ao continente, tendo em vista a possibilidade iminente da queda de placas de concreto que compõem a estrutura da passarela da referida ponte, com peso aproximado de 450 Kg, no trecho compreendido entre o vão central e o que segue no sentido Ilha de Santa Catarina.
Em face ao acima exposto, visando a salvaguarda da vida humana no mar e a segurança da navegação, a área do vão central e do lateral em direção à Ilha não deverá ser utilizada para a navegação.
Atenciosamente,
JOARES PEREIRA DE MELLO
Capitão-de-Fragata ( RM1-T)
Chefe do Depto de Segurança do Trafego Aquaviário
COMENTÁRIO MEU
Vão simplesmente retirar as placas (“na segunda-feira, se não chover”) e ninguém será responsabilizado pelo descaso, pela falta de cuidado, pelo desrespeito, pelo desleixo, pela omissão, pela incúria, pela incompetência, por colocar vidas em risco, por abandonar patrimônio público, ou, pelo menos, pela falta de vergonha na cara?
Tal como em outros eventos semelhantes ninguém será exonerado, ninguém levará um pé na bunda, ninguém será recriminado em público, consolidando um padrão constrangedor de conluio, cumplicidade e compadrio na administração estadual?
Nem sei por que perco meu tempo. O melhor comentário para isso (afinal, a passarela de pedestres está sem condições de uso há décadas) é “sem comentários”.

Ada Lili, a imexível, e Raimundo, o pai do Pacto, renovando promessas
[Montagem com fotos de Denise Lacerda/SJC e Bárbara Cardoso/SPG]
É impossível ver e ouvir toda essa propaganda que o governo anda fazendo do tal Pacto por Santa Catarina sem achar que estão falando de algum pato.
Lógico que, desde julho de 2012, quando João Raimundo deu esse nome ao pacote de bondades que pretendia fazer, sabemos quem paga o pato. Digo, o Pacto. Como o dinheiro é resultado de empréstimos (do BNDES, do BID e de outras fontes), será pago por nós. Evidentemente. Em suaves prestações ao longo de vários anos.
A palavra “pacto”, ensinam os dicionários, vem do latim “pactum” e quer dizer ajuste, convenção, acordo, tratado. E com o complemento “por Santa Catarina” dá a entender que alguém fez algum acordo “por Santa Catarina”.
Mas estou desviando-me do principal. O nome não tem importância. Nenhuma importância. É apenas um rótulo criado com finalidade publicitária, para que o eleitor, mesmo o mais estúpido, consiga pronunciar.
Aquela melosa mensagem publicitária que diz que o Pacto “vai mudar a sua vida” também não tem importância. Aquilo é só propaganda. Muito interessante terem usado personagens com a fala mansa que lembra a do Raimundo. Mas não passa de uma propaganda de TV.
O que é importante (para mim, pelo menos), é ver como será a execução das promessas. O que o passado recente nos ensina é que essas reformas e ampliações (como as prometidas para algumas penitenciárias) são tão mal feitas que se desmancham em pouco tempo. Empreiteiros confiantes na impunidade usam material de terceira, mão de obra de quinta, acabamento de última e cobram preço de primeira classe.
E também é importante que o contribuinte/eleitor não se deixe engambelar. No caso das rodovias estaduais, por exemplo, fizeram um carnaval danado e, quando a gente foi olhar, era só uma meia dúzia de trechos que iriam ganhar melhorias. Não que não merecessem a garibada, mas a festa foi exagerada.
Por falar nisso, nunca é demais lembrar que a campanha eleitoral de 2014 já começou.

A comitiva brasileira “franciscana” também só usou 17 veículos em Roma
Molecagem sobre foto do Roberto Stuckert Filho/PR
A eleição de um novo papa, com sua extensa cobertura e generosos espaços na mídia levanta várias discussões. Uma delas é sobre o caráter conservador da igreja católica em temas como homossexualismo, aborto e planejamento familiar.
Mas a igreja católica não está só. Algumas das seitas evangélicas que têm atraído mais fiéis nos últimos tempos chegam a ser ainda mais intolerantes. E mais organizadas na ocupação de espaços estratégicos: quem se preocupa com o avanço do conservadorismo de origem religiosa deve tirar um pouco os olhos do Vaticano e voltar-se para o Congresso Nacional brasileiro. Ali, os 68 deputados da Frente Parlamentar Evangélica trabalham diuturnamente para ocupar postos que lhes permitam barrar as iniciativas que representem algum progresso.
E num Estado separado oficialmente das religiões, essa intromissão é preocupante porque leva o pensamento fundamentalista para áreas que mexem com a vida de todos, mesmo dos não religiosos.
O jornal O Estado de São Paulo fez um levantamento do espaço que os evangélicos já ocuparam nas principais Comissões da Câmara dos Deputados. Para quem defende a separação entre Igreja e Estado, o quadro é assustador. Para ler a íntegra, clique aqui.
Veja um resumo nas tabelas abaixo:

A cuidadosa montagem de uma base de controle
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