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Florianópolis

Amor antigo 5

Fpolis 288

Jamais a natureza

Tainha limpa

Foto: Cesar Valente/Palhares Press

20/6/2004

A TAINHA NOSSA DE CADA INVERNO

Para os florianopolitanos a tainha não é um peixe comum. Não é uma comida como as outras. É uma liturgia, uma seqüência de atos solenes, um conjunto de circunstâncias. Começa pelo frio, pelos dias azuis ventosos do outono. É o primeiro sinal. Não duvido que existam aqueles que coloquem seus primeiros casacos e agasalhos já salivando, à espera das delícias que o frio, mais dia menos dia, trará.

A expectativa dos cardumes, como toda véspera de festa, é animada. Uns sobem aos mirantes, prontos a identificar, entre marolas, ondas, espumas e gaivotas, os sinais místicos da chegada das tainhas. São sujeitos respeitados, cuja vivência à beira mar os transformou nesses arautos da boa nova. Ele, do alto, olha para o mar. Os demais, na praia, olham para ele. Nas esquinas e nos botecos contam-se histórias dos grandes lances do passado, cada um tem a sua aventura particular. Como numa sinfonia, o crescendo da espera prepara os ânimos para o grande dia.

Nas casas, as velhas receitas, geralmente transmitidas verbalmente, são repassadas à espera da chegada do ingrediente principal. Olhos atentos examinam os fornos, verificam as assadeiras, recuperam as melhores frigideiras. A grande dúvida é se as primeiras serão assadas, escaladas ou fritas em postas. Caso não se chegue logo a uma conclusão, serão feitas de todas as maneiras. De uma vez, se a família é grande ou a cada dia, para que o prazer dure mais.

Até que são dados os primeiros lances e capturadas as primeiras tainhas do ano. Não tenho certeza, mas parece que os grandes cardumes chegam depois. Os maiores arrastões geralmente não são os primeiros. Mas não importa. A festa está começando. E o movimento seguinte é a discussão do preço: “tá caro este ano, vou esperar baixar”.

À medida em que vão chegando os cardumes (leio no jornal que 32 toneladas foram capturadas num só dia), o preço estabiliza e aquelas maravilhas, com suas linhas clássicas bem proporcionadas, vão chegando às mesas. Orgulhosas e orgulhosos de seus talentos culinários, cada um apresenta sua criação da forma mais caprichada. E a tainha, com sua carne firme, mas não muito, aceita os temperos com dignidade e transforma sal e limão em especiarias. As ovas, degustadas como autêntico caviar, complementam a cerimônia. Não existe, para os florianopolitanos (pelo menos para mim e vários que conheço), nenhum outro peixe com tal nobreza e sabor. E é sempre nas casas, não nos restaurantes, que a solenidade da preparação e do consumo da tainha alcança seu ponto mais alto.

Não é uma coisa fantástica? Que outro alimento tem um ciclo como esse? Uma cidade inteira acompanhando, desde a primeira temperatura mais baixa, a chegada. Comemorando suas histórias, reproduzindo suas lendas. Depois recebendo-a em suas cozinhas, de todos os níveis, das mais equipadas às mais simples, com igual reverência. Para finalmente saboreá-la, democraticamente, com igual prazer. No momento de mastigar, sentir-lhe a textura e o gosto bom, todos nos igualamos.

Do pescador que vive num casebre e quase não consegue seu sustento ao dono da frota de barcos de pesca, somos todos iguais diante desse peixe mágico que, por alguns meses, nos conduz aos bons tempos em que éramos uma ilha com pequenos povoados, onde todos se conheciam. E onde todos ajudavam a puxar o arrastão. E todos dividiam as tainhas capturadas. E não era preciso comprar o peixe…

Os tempos são outros, nem todos dos que vivem aqui sabem exatamente do que estou falando. Mas aprenderão em pouco tempo. Porque, a cada inverno, com maior ou menor abundância, trataremos de manter e cultivar essa tradição saborosa, vigorosa e emocionante. E agora devo encerrar, com vossa licença, porque uma esplendorosa tainha escalada me aguarda. Estão servidos?

Florianópolis

Amor antigo 4

Fpolis 288

Beleza sem par...

Morro do Mocotó

Foto: Cesar Valente/Palhares Press

17/6/2004

OS NOVOS FLORIANOPOLITANOS

(Crônica publicada no caderno ANCapital, do jornal A Notícia)

Quando Florianópolis era menor e a gente conhecia muita gente, ninguém se sentia muito ameaçado com os poucos forasteiros que chegavam. Depois da grande invasão gaúcha da década de 70, muita gente ficou meio traumatizada. E achou que iria perder para estrangeiros o seu bem mais precioso: a vida pacata, na cidadezinha à beira mar.

Claro que perdeu. Perdemos todos. Aquela Florianópolis acabou. Teria acabado mesmo sem aquela invasão. Talvez a gente demorasse um pouco mais a perder a inocência se logo no começo não tivessem vindo algumas criaturas que chegavam com uma mão na frente outra atrás, certos que aqui vivia um bando de tolos e que seria fácil tirar proveito desses caipiras movidos a pirão dágua. Mas o crescimento natural da cidade, mesmo sem aqueles episódios, acabaria por trazer-nos ao que somos hoje: uma grande e bela incógnita.

Depois da leva de gente que não trouxe nada e só veio para se aproveitar e tentar tirar vantagem, criou-se um justo sentimento de indignação. A expressão mais eloqüente dessa resistência foi o movimento que o Aldírio Simões e vários manés, amigos das rodas de bar, iniciaram meio de brincadeira: o troféu Manezinho da Ilha. Forma inteligente de dizer “péra aí, eu tou aqui, cheguei antes, me respeita!”, o movimento ajudou a elevar o moral da tropa, a recuperar a auto-estima dos nativos e a superar alguns dos traumas da grande invasão. E nunca mais passou um dia sem que chegasse à cidade gente nova. Nascidos aqui e trazidos pelos mais diversos motivos. E a gente andava na rua e não via ninguém. Ninguém conhecido. Mas gente aos montes.

No final da década de 90 e início do novo século, começou a chegar outro tipo de gente. Um povo que, bem estabelecido em suas cidades, com a vida resolvida, escolhia, dentre todas as possibilidades que estavam ao alcance de suas posses (num leque que, em muitos casos, tinha também Miami, praias do nordeste, Provence), viver na Ilha de Santa Catarina. Reconheciam, aqui, uma terra que ainda guardava alguns valores importantes da vida comunitária. Respeitavam o que se conseguiu preservar. Queriam fazer parte dessa vida e dessa luta.

Esses novos florianopolitanos já podem ser encontrados em algumas associações de moradores, entrosados com seus vizinhos, vivendo suas vidas com o cuidado de não piorar a nossa. Não sei quantos de nós, nascidos aqui, que sofreram as dores do crescimento da cidade, estão percebendo que existem diferenças entre os recém-chegados. Não dá mais para gritar palavras de ordem genéricas e abrangentes: “fora paulistas, fora gaúchos, fora paranaenses!” Porque a luta, agora mais que nunca, não é mais entre os nativos e os estrangeiros.

Existem aqueles que, independentemente de etnia, cor, gênero, local de nascimento, idade ou sotaque, gostam da nossa Ilha. Querem fazer parte do grande esforço que todos teremos que fazer para manter o pouco que ainda resta e usar de forma inteligente nossos recursos, para que sejam duradouros, para que a Ilha não se descaracterize irremediavelmente. E existem aqueles — com alguns manezinhos que a gente conhece incluídos — que são capazes de vender as fortalezas centenárias pedra a pedra, para ter um lucrinho imediato. Mesmo que daqui a dois meses não sobre nada para se ver. Nenhum registro histórico para se apreciar e de onde aprender. Gananciosos. E burros. Assassinos da galinha dos ovos de ouro.

Portanto, acho que não tem mais sentido falar em rixa entre os nativos e os de fora. Porque tanto num quanto no outro lado tem gente gananciosa e estúpida. E tanto num quanto no outro lado tem gente inteligente que sabe dar valor ao que é importante.

Florianópolis

Amor antigo 3

Fpolis 288

Num pedacinho de terra,

Ponte Hercílio Luz

Foto: Cesar Valente/Palhares Press

8/11/1974

EU ME ORGULHAVA DE FLOPOLIS

[Nota do editor: Esta crônica foi publicada no jornal O Estado, de Florianópolis, há quase 40 anos. Tinha esse título aí em cima, brincando com o nome da cidade (isso de “Floripa” é coisa mais recente, de estrangeiro, que os manés nunca engoliram). Na época eu tinha uns bons 21 anos de idade e todas as certezas do mundo. Achava que estavam matando Florianópolis. Ah, a crônica é um pouco longa. Fazer o quê? Naquele tempo o pessoal achava que leitor de jornal gostava de ler...]

Que tal se a gente não deixasse matar Florianópolis? Ou é preferível a morte? Vocês acham mesmo que sepultar Florianópolis sob montanhas de concreto (nem sempre útil e nem sempre esteticamente atraente) não é matar Florianópolis? Derrubar conjuntos de casas “velhas”, destruir ruelas características e originais, essas coisas, não é matar Florianópolis? Arrasar com a vegetação dos morros, deixando só as pedras, balançando a cada vento sul, não é suicídio? Não é muita vontade de querer entrar nos noticiários internacionais pela porta das tragédias, desabamentos, avalanchas e afins?

Aglomerar tudo naquele centro de nada, prensado entre o morro da Cruz, do Mocotó e o mar não é matar Florianópolis? Por que não tirar tudo do centro, deixar o que restou como está? Fazer cantar em outra freguesia os martelos hidráulicos, as britadeiras e os misturadores de concreto? Fazer como em Salvador (é Salvador, né?) onde o centro administrativo foi colocado lá fora da cidade. Curitiba, que jogou os carros fora do centro e – pedindo perdão aos paranaenses – eles nem têm uma cidade com a riqueza arquitetônica que nós temos, quer dizer, tínhamos.

Qual cidade do mundo que tem a Conselheiro Mafra com aqueles sobradões, aquele prédio da alfândega, aquele mercado, aquele mictório público, o Miramar (atual mirareia), qual? Nenhuma. Mas nós não damos a menor importância. Nós não tentamos fazer nada. Só soluções paliativas, panos quentes, soluções para uma ou duas semanas.

No fundo, no fundo, as pessoas estão querendo mesmo é que Florianópolis se arrebente, que vá tudo para a… e que eles não tenham prejuízo e possam continuar construindo prédios para empilhar pobres coitados que pensam, ingenuamente que aquela Florianópolis de uns tempos atrás era “atrasada”. Mas agora estão satisfeitos, as casas “velhas” estão desaparecendo, isso aí tá virando um paliteiro. Então está tudo muito bem.

Vê só o carnaval. Famoso, badalado. Mas o que espanta as pessoas, na verdade, é aquele povaréu pulando na rua. Fora escolas, sociedades, “crubes”, o povaréu que se fantasia de “chujo” e sai pelaí não querendo nem saber. Pois é, começa-se mudar a cidade e vamos apostar quanto que esse pessoal não vai mais pular do jeito que já tá começando a não pular? Tinha que respeitar todo um clima, todo um estado de espírito que a cidade proporcionava. Uma tranqüilidade famosa, uma malandragem pura e simpática. Mas estão matando Florianópolis.

Em vez de construir onde tem lugar para construir, eles constroem onde não tem lugar, soterrando a cidade de antes. E num mundo de cidades grandes, que amarrotam o sujeito, o importante não é morar em Porto Alegre, São Paulo ou Rio. Pode tirar a prova. E dizer bem cantado e chiando no s final: “sou de Florianópolis, se quéis quéis, se não quéis diz”. Daí, os caras dessas cidades aí que eu falei (às vezes até mesmo os de Curitiba), vão te olhar com olhos de respeito. Vão falar de Garopaba, Laguna, praia do Santinho, Imbituba, e lembrar a Florianópolis que lhes tocou: as ruas estreitas, “o mercado incrível”, o jeitão das pessoas. Só os muito caretas, que passam o dia e a noite de gravata e pastinha (gostando disso e se sentindo realizados só nisso) é que vão falar de Camboriú e da Florianópolis assassina, de grandes prédios, grandes obras, grandes porcarias que talvez sirvam de lápide para aqueles que se deixarem – passivamente – assassinar.

O tempo é este, de tentativas desesperadas para salvar a humanidade. O mundo se volta, tremendo e roendo as unhas, para as últimas reservas de água potável, últimas reservas de verde, últimas reservas de ar puro. A Inglaterra limpou o Tâmisa que tava pior que a nossa baía e acabou com o tal de “fog” botando filtros nas chaminés das fábricas. Os Estados Unidos tão dando uma vasculhada geral no presidente deles, afinal corrupção não deixa de ser poluição. A Noruega não quis empestar seus narizinhos com mais uma fábrica de celulose e mandou-a para as margens do Guaíba, a empestar Porto Alegre. É tudo preocupação com a sobrevivência do homem, que Florianópolis ou ignora ou não toma conhecimento. Quantas áreas verdes de recreio foram criadas nos últimos tempos? parques? jardins? reflorestamento real? (há o artificial, com árvores importadas e economicamente muito compensadoras, mas que só ajudam o bolso do reflorestador).

Que providências efetivas foram tomadas para manter Florianópolis intacta? Afastou-se o suficiente o centro administrativo? Ou se concentrou tudo num mesmo lugar, amontoado? Já sei, isso tudo faz parte de uma aposta que alguém muito importante deve ter feito: “o caro colega quer apostar como Florianópolis pára (num gigantesco engarrafamento total) antes que São Paulo?”

Florianópolis

Amor antigo 2

Fpolis 288

Perdido no mar....

Catedral

Foto: Cesar Valente/Palhares Press

16/12/2003

O TÚNEL DA CATEDRAL

Desde pequeno ouvia falar que existia um túnel ligando a Catedral com… bom, dependendo da época e do interlocutor, podia ir até o Morro da Cruz, até o Hospital de Caridade, ou até a Alfândega. Tinha todos os ingredientes para ser só mais uma lenda urbana. Histórica, mas lenda.

Até que poucos dias atrás, sem aviso e quase sem querer, acabei conhecendo um dos mais bem guardados segredos da velha Desterro. Não sei se conseguirei contar tudo, com todos os detalhes (afinal, ainda é segredo), mas não resisto e pelo menos revelarei algumas pistas.

Gostaria que vocês compreendessem que não é pouca coisa que está em jogo e que, portanto, vou deixar algumas perguntas sem resposta. Por exemplo: o dia em que fiz a descoberta e a identidade da pessoa que me revelou o segredo. São dados confidenciais e pretendo honrar a confiança de quem me permitiu viver momentos tão emocionantes.

Na hora marcada, entrei na sacristia da Catedral. Ela (sim, isso é o máximo que me permito dizer) me esperava, sozinha. Nos cumprimentamos com poucas palavras e ela em seguida dirigiu-se àquela espécie de altar onde os padres vestem os paramentos antes de cada missa. No lado, deu uma pequena pancada num ponto preciso e uma tábua soltou-se. Abriu-a e com uma chave antiga, daquelas grandes, destravou uma fechadura. E abriu uma segunda porta. Chamou-me. Pude ver, naquele vão, uma abertura, uma espécie de corredor.

Ela pediu-me para entrar primeiro, porque era preciso fechar as portas para evitar surpresas. Perguntei como faria para enxergar no escuro e ela sorriu. Estendeu o braço e acionou um interruptor acendendo as lâmpadas do que parecia ser um túnel. Entrei e comecei a descer uma escada estreita.

Ela vinha logo atrás e parecia divertir-se com a minha curiosidade e lentidão. No final da escada, o túnel dirigia-se, eu imaginava, para o norte. Não era excessivamente estreito (permitiu que ela, a certa altura, passasse à frente, para que avançássemos com maior rapidez). Resisti o quanto pude para não fazer qualquer gesto nem dizer qualquer palavra inconveniente quando realizamos a operação de passagem. O túnel exigia que praticamente nos abraçássemos para que um passasse pelo outro.

A fileira de lâmpadas terminava alguns metros adiante. Precavida, ela trouxera uma lanterna e continuava a caminhar, segura e rápida, como se tivesse feito o trajeto muitas vezes. Não é um túnel reto e tive a impressão que estávamos subindo.

Depois de uns dez minutos de caminhada subterrânea, chegamos a outra escada, tão estreita como a primeira e tão ígreme quanto. Ela subiu com cuidado e parou, como se estivesse ouvindo alguma coisa. Estava verificando se, onde sairíamos, tinha alguém.

A mesma chave da porta interna da entrada abriu a porta interna da saída. Um mesmo gesto, misto de toque e pressão, destravou o painel externo. Ela abriu-o vagarosamente, com grande cuidado. Quando viu que a sala estava vazia, chamou-me e rapidamente fechou as duas portas.

Tínhamos saído numa outra sacristia, exatamente ao lado ou ao fundo do local onde os padres vestem suas túnicas cerimoniais. A esta altura eu não tinha idéia de que igreja seria aquela. Ela sorria, porque sabia a supresa que eu teria em pouco tempo. Fomos para a nave da igreja e comecei a achar que sabia. Mas só tive certeza quando voltamos à luz solar, na porta principal e vi, do alto das escadarias, a rua Trajano.

Tínhamos percorrido, no misterioso e secreto túnel, a distância que separa a Catedral da Igreja do Rosário. O túnel existe, afinal, não é apenas uma lenda. Mas não é tão longo quanto a imaginação popular o fez. Embora ainda não saiba (e a minha gentil guia também não sabe) o motivo que levou sabe-se quem, sabe-se lá quando, a escavar tal passagem.

Para comemorar e agradecer, mostrei à minha amiga outros caminhos secretos, mais ou menos subterrâneos, sem qualquer ligação, contudo, com igrejas, lendas ou a história da cidade. Mas essa, é claro, é outra história.

Florianópolis

Amor antigo 1

A partir de agora, e enquanto durarem os estoques, republico velhas crônicas que escrevi sobre um amor antigo: Florianópolis. O pretexto é o aniversário da cidade. A vinheta abaixo identifica a série e coloco em destaque a data da publicação original. Sejam bem vindos.

Fpolis 288

Num pedacinho de terra...

26/11/2003

A ÚLTIMA DO PRATA

Nosso vizinho Mário Prata comete hoje, no Caderno 2 do Estadão, mais uma das suas crônicas a favor de Florianópolis que nos enchem a todos, manés, de susto e apreensão. Como já sabem os que acompanham este blog, na minha opinião a Ilha está lotada. Chamar mais gente é, portanto, ato irresponsável.

Pois o companheiro Mário Prata, para saudar a chegada do verão, intica com paulistanos e cariocas, falando bem até da polícia, que nas praias anda de bermuda e sandálias havaianas. Ele afirma, o insensato, que nós temos um verão tranqüilo e civilizado.

A gente sabe de tudo o que ele fala e muito pouca coisa, ou quase nada, é mentira ou exagero. Mas é tudo daquelas coisas que não se deve sair falando pela vizinhança, comentando na praça ou mesmo contando para aquela senhora muito fofoqueira.

Vai que o pessoal acredita que tudo aqui é tranqüilo e civilizado. Bandido também lê jornal. Há poucos dias um grupo entrou num prédio para assaltar apartamentos. Todos recém-chegados. Vieram em busca da tranqüilidade e dos policiais de chinelo. Um foi morto, outro preso, um terceiro escapou. A polícia recuperou os bens roubados. “Ah, então a polícia funciona? maravilha!”

Imagino um carioca, acostumado a só conversar com seus policiais para acertar a “cervejinha”, lendo o diálogo que o Mário Prata reproduz, entre uma amiga dele e o policial de sandálias. Que inveja, não? De fato, aqui dá para conversar com os policiais. Em algumas dezenas de anos, fui parado em algumas dezenas de blitzes e nunca, nem uma única vez, percebi qualquer intenção de cobrar o que fosse. Nem demora exagerada em liberar documentos, nem insinuações de problemas mais graves do que os reais.

Conheço muita gente da polícia desde os tempos da ditadura, quando, por causa de uma denúncia de um “amigo”, fui parar no Dops e lá fiz amigos. Ou quando um primo, depois da Academia de Polícia, virou oficial. Ou quando um amigo foi promovido a Capitão. Todos gente de quem eu compraria carro usado e a quem convidaria, como já convidei, para aniversários, churrascos e batizados.

Não sei agora, mas há alguns anos a formação dos policiais catarinenses era feita com muito cuidado. Já vi policiais agindo em muitas ocasiões, aqui. E vi policiais agindo em São Paulo, Brasília e Porto Alegre. Os daqui parecem ser melhor preparados para tratar com a gente. E com o pessoal que está alterado porque bebeu demais, ou que está nervoso porque bateu o carro, ou apenas fazendo alguma manifestação por salários ou protestando contra alguma coisa.

Não posso testemunhar sobre a forma como tratam os suspeitos de crimes, como lidam com a assim chamada “bandidagem”, porque faz muito tempo que não cubro polícia e não freqüento bocas, digamos, mais movimentadas. Mas acho que tratar de forma mais ou menos civilizada a população já é importante. E a população responde, acho, satisfatoriamente, com respeito e consideração.

Donde o encanto de recém-chegados com essa “tranqüilidade”. Sim, é possível andar pelo centro (desde que não seja muito tarde da noite) com os vidros abertos sem ser assaltado. Mas é possível ser assaltado nos engarrafamentos que se formam nas entradas das pontes, ainda dia claro. É possível ter uma casa boa e nunca ser assaltado, mesm o sem ter cercas eletrificadas e cães de guarda. Mas é possível ser seqüestrado, colocado no portamalas do carro e liberado (ou não), horas ou dias depois, como em qualquer grande centro.

Em algumas ocasiões a polícia age rapidamente, em outras demora, alguns casos são solucionados satisfatoriamente, outros, quem sabe a maioria, nunca, porque faltam equipamentos, gente e recursos. Ou seja, não dá para generalizar e sair afirmando que isto aqui é uma Ilha de tranqüilidade. Isso é propaganda enganosa. É mais tranqüilo do que muitos lugares, principalmente mais populosos. Mas não dá para relaxar e distrair-se.

Mas o pior, o pior mesmo da crônica do Mário foi o final. Aí ele extrapolou. Vou reproduzir o último parágrafo para que vocês mesmos julguem:

“No momento já faz 24 graus. Promete. E, com os argentinos, chegaram as cervejas geladinhas. Experimente!”

Ora, meus senhores, minhas senhoras do júri, todos sabem que em Florianópolis, no inverno, é possível encontrar cervejas bem geladas, às vezes congelando, em todos os bares e restaurantes. Mas no verão, data venia, ipso facto, quosque tandem Catilina, a coisa mais difícil de encontrar é justamente uma cerveja na temperatura certa. Pretender que, com a chegada dos argentinos (que ele saúda como se fossem andorinhas chegando, cheias de bom agouro!), os bares rompam uma tradição secular e passem a servir cerveja “geladinha”, é demais.

Até gostaria que ele tivesse razão. Mas acabo de testar, aqui num boteco próximo, e, como era de se esperar, a cerveja estava alguns graus acima do pastel, este sim, geladinho.

Ranzinzices

Sem saída

Museu da UFSC

O museu incompleto. Padrão "obra pública nacional". Foto: Agecom/UFSC

Os florianopolitanos assistiram a novela da reforma do Centro Integrado de Cultura (CIC), que depois de anos sem fim e montoeiras de dinheiro foi reinaugurado incompleto e faltando vários equipamentos importantes, como os de prevenção de incêndio.

Pois agora ocorre coisa semelhante com o Museu de Arqueologia e Etnologia da UFSC (Marque). É um prédio de quatro andares, uns 1.900 m2, que levou nada menos que dez anos (sim, uma década) para ficar pronto. Consumiu R$ 5 milhões e foi inaugurado em abril de 2012.

E o que acontece agora, pouco antes de completar dois anos da inaguração? Aquela coisa de sempre: tem espaços que não estão sendo usados porque não ficaram prontos e não tem dinheiro pra concluir. E os espaços que estão prontos, não têm equipamentos adequados de prevenção de incêndio, nem rotas de fuga desimpedidas.

Uma das “rotas de fuga” parece uma trágica gincana de mau gosto: tem nada menos que três portas chaveadas no caminho. Uma escada em caracol onde só passa uma pessoa de cada vez. E termina num cercadinho murado e gradeado, de onde ninguém sai.

Não é uma maravilha?

Política

As mulheres que mandam

Meninas superpoderosas

As três presidentes. Foto: Roberto Stuckert Filho/PR


Esta semana tomou posse como presidente do Chile a Michelle Bachelet. É o segundo mandato dela (governou antes entre 2006 e 2010). Forma, com Cristina Kirchner, presidente da Argentina e Dilma Roussef, presidente do Brasil, o trio de meninas superpoderosas que manda em praticamente toda a América do Sul. Basta ver, aí no mapinha, a extensão territorial que está sob a responsabilidade delas.

Independentemente das cores partidárias, o fato de num continente machista como o nosso e no clube do Bolinha que é a política partidária essas três mulheres terem conseguido abrir espaço, já é um grande feito.

Das três gosto mais da Bachelet, que consegue exercer a política com maior competência, a meu ver. Mas aqui não se trata de votar em nenhuma delas, mas simplesmente de homenageá-las.

Caraminholas

Pessedistas à beira de um ataque de nervos

Cesinha e Raimundo

Cesinha (foto Petra Mafalda/PMF) e Raimundo (foto James Tavares/Secom)


Plano Diretor faz água

Pois não é que a Justiça Federal resolveu também azucrinar a vida do Cesinha Jr., coitado? Um juiz mandou a prefeitura dar alguns passos que não tinham sido dados na tramitação do Plano. E estavam previstos na Constituição e no Estatuto das Cidades. A decisão da Justiça não significa, a rigor, a suspensão da vigência do Plano, mas é uma pedra no sapato.

A Justiça Federal não tem competência para suspender uma lei aprovada pela Câmara de Vereadores. Para isso seria necessário uma decisão do Tribunal de Justiça do Estado.

Agora claro que os que não gostaram do novo Plano Diretor e que sentiam que seus interesses estavam prejudicados, tratarão de aproveitar a deixa pra jogar mais lenha nessa fogueira.

Caminhão bichado

Quando o sujeito está com azar, tudo acontece com ele. Vejam só o caminhão do peixe, prometido em campanha. É um programa do governo federal que o Cesinha tava faceiro para implantar (mesmo já tendo sido apresentado à cidade antes dele). Aí recebeu, no ano passado, um caminhão pra lá de rodado, que tinha trabalhado em Itajaí. E chegou a Florianópolis com problemas mecânicos e com problemas no sistema de refrigeração da peixarada.

Aí tocaram o ano passado fazendo gambiarras e remendando onde dava. Até que ficou complicado, o Ministério da Pesca não se coçou pra mandar um caminhão novo e estavam pensando em suspender o caminhão do peixe.

Mas este é ano eleitoral e se o milagre da multiplicação dos peixes está garantido, trataram de fazer o milagre de ressuscitar o caminhão velho, que estava já indo dessa pra melhor. Deve recomeçar a trabalhar em abril.

IPTU sem aumento

Antes desses rolos, teve aquele do IPTU no Supremo Tribunal Federal, lembram? O Lewandowsky permitiu o aumento e aí o Barbosa voltou de férias e vetou o aumento. Resultado, tão aí os carnês, cuja primeira parcela (ou cota única com desconto) vence hoje, por coincidência.

O espaço das dúvidas

O outro pedessista que mora em Florianópolis, o João Raimundo, também não anda passando por momentos muito tranquilos.

Ainda há pouco saiu reclamando, em público, da empreiteira que mais pegou obra nos governos LHS e Colombo. A Espaço Aberto. A desculpa oficial era que o governador cansou de tanto reclamar do cumprimento dos prazos pela empresa.

Se a gente fosse implicante até perguntaria: sim, mas ele não é o governador? Não pode tomar alguma providência um pouco mais… governamental do que simplesmente fazer discursos se queixando de um fornecedor do governo? E fica por isso mesmo?

E tem mais coisas sem resposta: qual teria sido a gota d’água? Por que uma relação de tanto tempo, tão íntima e tão colaborativa, de uma hora para outra vira uma relação de cobrança pública de atrasos? O que houve, afinal?

Bom, mas os bastidores das negociações são chamados de bastidores justamente porque ficam fora dos olhos do público.

Tríplice encrenca

A montagem das coligações partidárias para as eleições deste ano estão ocupando muito tempo do JR. E se não está, deveria. O PMDB, esse rebelde, que está às turras com a Dilma, também faz beicinho com o JR. Foi preciso que LHS e o Dr. Moreira dessem uma enquadrada geral, lá e cá, pra acalmar o povo.

O PMDB quer concorrer ao Senado, ser vice e pegar quantos cargos puder. O que sobra para o terceiro parceiro? Ora,o prazer de estar em boa companhia…

Caraminholas

Os misteriosos meandros da burocracia

A gente, aqui de fora, tem a impressão que, nos fundos sem fundo do governo do estado, tudo tramita tranquilamente. O que o secretário do Turismo, Cultura e Esporte (não necessariamente nessa ordem) quiser e o que o governador avalizar, sai e o que eles não quiserem não sai.

É mais ou menos, mas não só. Tem servidores de carreira que tentam colocar um pouco de ordem na casa. Nas semanas que antecederam o carnaval, por exemplo, rolou um estresse básico nas internas quanto à prestação de contas da graninha que o governo deu para as escolas de samba de Florianópolis.

O fato é que, escaldados com tanto favorecimento e tanta tentativa de ajudar os amigos e os amigos dos amigos, a turma tem medo.

VOU RESUMIR O CASO

No dia 20 de fevereiro o secretário da SOL (Valdir Walendowsky) mandou um memorando para um servidor do Setor de Prestação de Contas da Secretaria, para que acolha a prestação de contas das escolas de samba que fazem parte da Liga de Escolas de Samba de Florianópolis, mesmo sem terem recolhido os 5% dos valores aprovados a título de “contrapartida financeira”.

Memo do Walendowsky

Final do memorando do secretário da SOL

No dia seguinte, o servidor responde, recusando-se a atender à determinação do secretário.

O servidor se recusa a colocar seu nome e matrícula na liberação (ordenada por escrito pelo secretário), porque tem medo de que, mais adiante, numa ação judicial, acabe penalizado.

Ele afirma que não há um posicionamento uniforme da PGE quanto ao mérito. E que “a PGE é omissa quanto aos procedimentos que a SOL deveria tomar nesses casos”.

Como exemplos do que ele chama de “insegurança jurídica”, cita pareceres que julga antagônicos emitidos pela PGE.

A denúncia dessa pressão do secretário, que à primeira vista parece indevida, circulou nas caixas postais de alguns colunistas e jornalistas, com cópias de vários documentos anexados.

Já que o servidor se dizia inseguro sobre a interpretação que a Procuradoria Geral do Estado dá ao pedido de isenção dessa contribuição adicional e pensava haver uma contradição entre pareceres, fiz o que me pareceu óbvio: perguntei ao procurador geral, João dos Passos Martins Neto (que começou sua vida profissional como jornalista e só depois mudou para o Direito), que história era essa e quem tinha razão.

E ele confirmou que, de fato, ninguém precisa pagar a contrapartida financeira instituída pela Instrução Normativa 001 de 14/9/2011.

A INFORMAÇÃO DA PGE

“A Procuradoria Geral do Estado (PGE) mantém uma única posição sobre as contrapartidas em questão.

Nos únicos dois pareceres analisados o entendimento foi o mesmo: a exigência da contrapartida financeira, nesses casos, foi considerada ilegal.

Em 2013, houve um pedido da Orquestra Sinfônica de Santa Catarina (OSSCA) que buscava a isenção da contrapartida financeira. A PGE atendeu à solicitação, sem dispensar a contrapartida social na execução do projeto. (Parecer Nº 0159/13)

Recentemente, a Procuradoria manteve o mesmo posicionamento de ilegalidade da contrapartida financeira no parecer referente ao pedido da Liga das Escolas de Samba de Florianópolis. (Parecer Nº 0054/14)

Parecer da PGE

Trecho do parecer da PGE sobre o caso

Com relação à solicitação da Associação dos Funcionários da Fundação Catarinense de Cultura, em 2012, a PGE devolveu o processo sem análise do mérito (em termos jurídicos o pedido ‘não foi conhecido’).

O motivo foi que a consulta não veio acompanhada dos documentos indispensáveis ao exame da matéria. (Parecer Nº 120/12)

Importante ressaltar que a contrapartida financeira não se confunde com a contrapartida de bens e serviços.”

E NÓS COM ISSO?

Pra quem olha de fora e não conhece os detalhes do debate, acho que esse imbróglio deixa pelo menos duas lições importantes:

a) o excesso de zelo do servidor, batendo o pé diante de uma decisão sobre a qual não estava convencido é uma coisa boa. Na dúvida, tentava preservar seu nome e o dinheiro público. Mostra que nem tudo está perdido e que a vida dos que querem passar por cima (ou por baixo) da lei às vezes não é fácil;

b) por outro lado, espanta a facilidade com que são criadas fórmulas para extrair um dinheirinho a mais. Existem inúmeros desvãos onde se escondem armadilhas arrecadatórias sem muito sentido e, às vezes, como parece ser o caso aqui, até ilegais. E aí, quantos já pagaram sem bufar e quantos, sem informação sobre a possibilidade de recursos, ainda pagarão? Porque o mesmo Estado que identifica o instrumento irregular ou ilegal, não providencia, automaticamente, sua remoção. E esse entulho vai se acumulando e crescendo numa velocidade assustadora.

Governo Colombo

A ira do governador

O João Raimundo cultiva seu jeitão lageano e construiu a fama de ser um fala mansa. Cordato e sem rompantes, tem quem ache que às vezes, como maior autoridade do estado, deveria dar uns murros na mesa e falar mais alto.

Pois esta semana ele fez algo surpreendente. Claro que não deu nenhum soco, nem na mesa nem em ninguém. Mas, mesmo com sua fala mansa, disparou contra a Espaço Aberto, a construtora onipresente dos governos LHS e Colombo. Que todo mundo julgava intocável, imovível e onipotente.

Disse que a empresa estava atrasando a obra de recuperação da ponte Hercílio Luz e deu até um ultimato (padrão Raimundo, claro): vai decidir até o dia 5 de março se rompe o contrato. De fato, a Espaço Aberto tem fama de atrasar obra. Levou uns 15 anos pra concluir a sede dos Correios, em São José.

O espanto com a Espaço Aberto é só do governador. A gente (principalmente quem lê esta coluna), tá cansado de se espantar com ela. Vejam só: o texto a seguir foi publicado aqui no dia 8 de junho de 2009:

Isto é que é Espaço Aberto

Se tem uma construtora que terá que ser estudada em todas as faculdades de engenharia e administração do estado, é a tal de Espaço Aberto. A cada nova obra, uma surpresa. Parece que não há qualquer limite para o espaço que essa operosa empresa pode ocupar.

Reforma do vão central da ponte Hercílio Luz? Um trabalho de extrema especialização, grandes riscos e que exige tecnologia e experiência? Não tem problema, a Espaço Aberto está lá, como participante do consórcio. Que tipo de experiência levará para o trabalho em grupo? Bom, acredito que o conhecimento que tem das autoridades estaduais e de como as coisas andam na burocracia estadual. Porque experiência técnica nesse tipo de trabalho, até onde se sabe, não tem mesmo.

Muro de contenção da encosta da SC 401, ali perto do Centro Administrativo, onde houve aquela queda de barreira que interrompeu a via e matou um caminhoneiro? Não tem problema, a Espaço Aberto está lá. Sem licitação, como é costume nessas obras de emergência (!!!), sem experiência neste tipo de construção rodoviária, mas firme e forte. Custará mais de dez milhões, valor questionado por alguns engenheiros como excessivo, mas não tem importância, o espaço está aberto para negociações (e com essa graninha, sempre dá pra subcontratar).

Quem poderia pegar no pé das autoridades que contratam a Espaço Aberto pra quase tudo? Quem sabe o Tribunal de Contas do Estado, né? Que nada. Ou vocês não sabem quem é que está construindo o novo e espetacular palácio de Cristal, 17 vistosos andares de moderna funcionalidade que o TCE está erigindo na praça dos dois poderes catarinenses? Claro, a Espaço Aberto, em consórcio com outra construtora (decerto porque, com tanta obra, a Espaço Aberto sempre precise de alguma ajuda).

Não é uma performance espetacular? As demais construtoras catarinenses devem estar se sentindo como empresinhas amadoras, incapazes de fazer frente ao poderio da Espaço Aberto. Maravilha.”

A assessoria do governador diz que desde 2012 ele tem cobrado todas as semanas o cumprimento dos prazos nas obras tocadas pelo Espaço Aberto. E que agora encheu o saco. Cansou. Por isso resolveu jogar sua insatisfação com o “parceiro” no ventilador.

Cartinha do Emanuel

Barbárie

Por Emanuel Medeiros Vieira

A violência relacionada ao futebol, no fundo, está relacionada à violência maior da sociedade brasileira.
Um homem espera o ônibus para voltar para casa, após o jogo, vestindo a camisa do seu time e é massacrado por torcedores de outra agremiação.

(No mesmo dia, 23 de fevereiro, um domingo, num shopping de Brasília, um rapaz é barbaramente espancado por um motivo banal. Está em coma e, se sobreviver, ficará com sequelas irreversíveis.)

O que está havendo?

Alguma catarse carnavalesca fará que meditemos sobre tais problemas?

Nunca fomos uma “sociedade cordial”. Foram séculos de escravidão, de exploração, e a ideia geral é de dizer: “é assim mesmo”.

Chegamos à barbárie sem conseguirmos alcançar a civilização.

Como observou alguém, nunca se matou com tanta facilidade em assaltos. Nunca se apertou o gatilho com tanta facilidade. “A vida nas cidades e, cada vez mais, no interior é de uma violência inacreditável. O trânsito é uma violência contra a mente humana. O transporte público violenta dia após dia. Acumularam-se violências em todas as áreas de vida.” Postos de gasolina são assaltos todos os dias. E tantas outras barbáries cotidianas.

Todos sabem que a explosão no consumo de drogas exacerbou a violência da criminalidade.

Escreveu Luiz Gonzaga Belluzo: “O descumprimento do dever de punir pelo ente público termina por solapar a solidariedade que cimenta a vida civilizada, lançando a sociedade no desamparo e na violência sem quartel.”

E de buscar soluções para um país que seja menos desigual – pelo menos isso.

(Relendo texto, percebo que repeti várias vezes a palavra “violência”. Mas não há outro jeito de falar.)

Volto ao começo do texto:

“Um homem espera, sozinho, o ônibus que o levaria para casa. Dois carros param diante dele. Os homens que descem o massacram furiosamente com barras de ferro. Até reduzi-lo a um monturo de sangue e carne sem vida. Entram nos carros e vão embora. (…) Estamos, no Brasil, em agravamento da brutalidade que não cabe mais nos largos limites do classificado como violência urbana. (…) Um homem espera um ônibus que o levará para casa. Onde nunca mais chegará. E onde o esperavam um filho de meses e a mulher.” (Jânio de Freitas)

(Brasília, fevereiro de 2014)

Moribundices

A SOL é pop e o Knaesel é réu!

Nota no Acontecendo Aqui

A RBS foi a principal divulgadora do grande show de 2008.

A “Ação Popular n° 023.09.028816-8″ que se arrasta nos escaninhos da Justiça catarinense dá uma boa pista sobre a facilidade e a sem-cerimônia com que os amigos do dinheiro público conseguem movimentar milhões, sem estresse.

A ação questiona a forma como o governo do estado, mais precisamente a Secretaria do Esporte, Cultura e Turismo (não necessariamente nessa ordem), que ainda atende pela sigla de SOL (durante um tempo, no governo Luiz XV, ela foi chamada de Secretaria de Organização do Lazer, depois mudou de nome e a sigla continuou), deu R$ 1,2 milhão para uma entidade de existência confusa, cuja responsável desapareceu misteriosamente.

Trata-se da graninha (sim, para a turma da SOL um milhão é graninha) utilizada para realizar o “Joinville Mundo Pop” em 2008. É um enredo confuso, porque a confusão é a melhor forma de desanimar quem pretenda entender o que tem de errado nessa operação. Parece que tem um pessoal meio avesso à clareza e à transparência.

Mas vamos lá, tentar entender. Neste primeiro bloco prestem atenção no nome da entidade e em suas variações:

1
O Instituto da Cultura, Educação, Esporte e Turismo, presidido por Sueli Henriqueta Brandão, pede ao governador e ao secretário Gilmar Knaesel, “aporte financeiro para viabilização do projeto “JOINVILLE MUNDO POP”, no valor total de R$ 1.200.000,00 (Hum milhão e duzentos mil reais)”.

2
Na documentação juntada ao Plano de Trabalho, formalidade que faz parte do processo de pedido de recursos, foi apresentado, como estatuto da instituição solicitante, o estatuto do Instituto Feira do Livro.

3
Na mesma documentação, está também a ata de eleição da diretoria de um Instituto da Educação e do Livro.

4
Tem mais: para instruir o processo de concessão da verba a título de patrocínio, anexaram um atestado de funcionamento, expedido pela Câmara de Vereadores de Joinville em nome do Instituto da Educação e do Livro.

5
A esta altura é importante relembrar que a entidade que pediu o patrocínio foi um tal de Instituto da Cultura, Educação, Esporte e Turismo. E a documentação comprobatória da existência regular desse instituto cita outras entidades.

6
O CNPJ do Instituto solicitante é 07.229.473/0001-04. E, ora vejam só, exatamente igual ao do Instituto da Educação e do Livro.

7
A certidão negativa de débitos estaduais foi fornecida em nome do Instituto Feira do Livro. E a declaração do BESC, de que “o Instituto possui conta corrente” está em nome do Instituto da Educação e do Livro. Em nome deste também está a certidão negativa da Fazenda de Joinville.

8
Encontra-se ainda no processo a Lei 5462/2006, que reconhece de utilidade pública o Instituto… Feira do Livro.

Claro que essas inconsistências não foram suficientes para que o pedido fosse negado. Afinal, era apenas R$ 1,2 milhão. E a dona Sueli Henriqueta Brandão é a presidente de todas essas fachadas.

Antes de continuar, um fato curioso que se revelou no andamento do processso: Dona Sueli não existe!

Ou, se existe, esconde-se muito bem. Ainda melhor que o Djalma Berger, que ficou famoso por driblar oficiais de Justiça e evitar citações. A dona Sueli não foi encontrada para ser citada. Aí, o Juiz a citou por Edital. Mesmo assim, não apareceu. Foi nomeado então um tutor para defendê-la. O primeiro nomeado caiu fora e o segundo está fazendo o que pode para mostrar que não há qualquer irregularidade na concessão de R$ 1,2 milhão para a mulher invisível de Joinville.

[Abre parênteses: claro que a dona Sueli, que não atende os oficiais de Justiça e nem respondeu à citação por Edital, tem uma página no Facebook. Invisível para a Justiça, mas acessível a quem precise dos serviços do seu Instituto. Fecha parênteses]

Mas vamos adiante que a história ainda não terminou. Por que tantos nomes? Ora, a finalidade prevista nos estatutos dos tais Instituto Feira do Livro e Instituto da Educação e do Livro (“popularizar o livro”) não incluía música popular, shows de rock ou coisas do tipo.

Qual a solução? Providenciar uma assembléia geral extraordinária no dia 27 de agosto de 2008 para mudar o nome da entidade e incluir no estatuto a ampliação de seu objeto. Resolvido o problema, no dia 29 de agosto de 2008 deram entrada formal no pedido. Prazo pra registrar a mudança? Esqueça. Pedir negativas e outros documentos para a nova instituição? Não dava tempo. E a mudança do nome no CNPJ só foi pedida em 26 de setembro.

Enquanto isso, o pedido de patrocínio correu sem qualquer entrave, sob as vistas sempre atentas do secretário Gilmar Knaesel que, na ação popular, é chamado de réu, tadinho.

No dia 2 de setembro de 2008 o “Joinville Mundo Pop” foi oficialmente aprovado pelo governador Luiz Henrique da Silveira. Parece claro que Knaesel e LHS, seu chefe, resolveram, por algum motivo, dar R$ 1,2 milhão para a mulher invisível, Sueli Henriqueta Brandão. Sem ligar para o fato de que o contrato de patrocínio, feito com o Instituto da Cultura, Educação, Esporte e Turismo, baseou-se em documentação de outros dois institutos.

Afinal, ninguém mais se importa com esses preciosismo legalistas e essas minudências formais que só astravancam o livre fluxo de dinheiro público.

Mas não terminou: com a aprovação da graninha, inciaram-se outros capítulos igualmente emocionantes.

O dinheiro foi liberado em parcelas. Que deveriam ser pagas após a prestação de contas da etapa anterior. Primeiro presta contas, depois recebe o dinheiro. Certo? Errado!

Uma parcela foi paga dia 16/10 e a prestação de contas que a deveria anteceder, apareceu só no dia 28/10. Outra foi paga dia 9/12/2008. E a prestação de contas? Em março de 2009. Beeem depois, portanto.

A parcela final, de R$ 279 mil, foi depositada em 15/7/2009, sem que qualquer prestação de contas referente a ela tenha sido apresentada.

Tem ainda, no processo, um ti-ti-ti paralelo, que são as contradições entre os depoimentos do Gilmar Knaesel e da Agência One WG (do Wilfredo Gomes). A agência afirmou que nada tinha a ver com o “Joinville Mundo Pop” e pediu pra ser excluída do processo. E o Knaesel defendeu a participação da One WG e até deu detalhes da contratação. Mas isso é história para outra oportunidade.

O QUE FOI O JOINVILLE MUNDO POP?

Neste vídeo, do Jornal do Almoço da RBS de Joinville, a gente vê que o governador LHS estava apostando no evento. A certa altura, ouve-se uma dupla de sertanejos universitários informar que doou seu cachê para ajudar as vítimas das chuvas. Na ação popular, a forma de comprovar o que foi feito com as doações recebidas pelo evento (quem levava um quilo de alimento tinha desconto na entrada) também é questionada, porque faltam, segundo os autores da ação (políticos do PP que, na época, estavam na oposição), demonstrações claras de como os donativos foram distribuídos.

Tem bastante pano pra manga.

Mão na botija

Laranjal na Sol intriga o TCE

Os Fundos sem fundo do governo catarinense (que vêm desde o reinado de Luís XV) são uma fonte inesgotável de inspiração e problemas. O susto mais recente é uma auditoria do Tribunal de Contas do estado (TCE) sobre os fundos da Secretaria do Esporte, Turismo e Cultura (não necessariamente nessa ordem). A investigação foi feita em 2012 e o processo estará pronto para ser examinado no plenário daquela casa de Contas assim que o auditor substituto de Conselheiro, Gerson Santos Sicca, que o recebeu há pouco, concluir seu voto.

A auditoria remexe com cadáveres que vários secretários que passaram por lá gostariam de manter enterrados.
Os gestores, nos períodos examinados, eram Gilmar Knaesel, Guilberto Chaplin Savedra, Valdir Walendowsky, César Souza Júnior e José Natal Pereira.

E qual é o problema com os Fundos desta vez? Segundo as palavras textuais do processo (RLA 12/00414486):

“Aprovação de projeto cujo proponente é pessoa jurídica sem fins lucrativos, mas o autor e executor do projeto é pessoa jurídica com finalidade lucrativa.”

Site do TCE

Consulta de processo no site do TCE

Entenderam? Darei um exemplo prático, que consta do mesmo processo: a Câmara Catarinense do Livro, entidade sem fins lucrativos, propôs, junto à SOL (sigla escalafobética da Secretaria da Cultura, Esporte e Turismo) a realização de um evento intitulado “Donna Fashion 2010 e Feira do Livro”. E levou, do governo bonzinho e louco para incentivar a cultura, a bagatela de R$ 300 mil. Só que o realizador do evento foi o Grupo RBS (Zero Hora e Diário Catarinense), que é empresa privada, com fins lucrativos.

Aí sabe como é que os auditores do TCE chamam essas entidades que emprestam a fachada para que a RBS leve uma graninha dos fundos? Isso mesmo: “laranjas”.

Que feio, o Florianópolis Convention e Visitors Bureau e a Câmara do Livro aparecerem num relatório oficial com esse apelido cítrico…

Os auditores baseiam-se, para pegar no pé dos secretários que permitiram a mamata, no art. 2º, § 2º, da Lei nº 13.336/05, que instituiu o Funcultural, o Funturismo e o Fundesporte no âmbito do SEITEC (Sistema Estadual de Incentivo ao Turismo, Esporte e Cultura). E no Decreto nº 1.291/2008, que a regulamentou.

O decreto estabelece claramente quem pode receber os recursos (só pessoas jurídicas sem fins lucrativos ou pessoa física que atenda a alguns requisitos). E, a certa altura (art. 42 item XIX) lembra que é proibido ao proponente “repassar os recursos financeiros recebidos pelo Fundo a outras entidades de direito público ou privado”.

Donde o espanto dos auditores, quando encontraram, nos processos auditados junto à “SOL”, projetos cuja realização integral é do Grupo RBS (tabelinha abaixo). E não dos proponentes “laranjas”.

Além disso, em todos os projetos houve também pagamento de “mídia” (compra de espaço publicitário para divulgação) exclusivamente à RBS, completando um quadro que preocupou os técnicos do TCE:

“Assim, diante do conjunto probatório existente nos processos de concessão e prestação de contas, dos projetos acima arrolados, constata-se que houve descumprimento das normas legais, com inversão das regras impostas, por parte da Secretaria, dos proponentes e Grupo RBS, visando atender interesses não contemplados legalmente.”

Uma das propostas do relatório é que o TCE represente ao Ministério Público Estadual, “para a apuração de possíveis ilícitos não administrativos”. Há quem imagine que o MPSC encontrará ali “favorecimento ilegal com a conivência passiva da SOL”. Outra é um puxão de orelhas no governo, para que cumpra a lei e pare de brincar com o dinheiro público dessa forma acintosa.

Tbela TCE

Fonte: RLA 12/00414486 TCE-SC

E AGORA?

Bom, ainda falta correr um certo volume de água sob a ponte. Porque, como todo manezinho que se preza sabe, uma coisa é uma coisa, outra coisa é outra coisa.

Uma coisa é o que os auditores encontraram nas suas investigações. Outra coisa é o que o cinturão de blindagem que o governo diz (em off) manter no TCE vai conseguir junto ao relator, pra transformar tsunami em marolinha.

No processo que vai a plenário constam, além do relatório dos técnicos (que contém, entre outras coisas, isso que eu comentei hoje), o parecer do Ministério Público junto ao Tribunal de Contas (que, apesar do nome, nada tem a ver com o Ministério Público propriamente dito) e o parecer e voto do relator, a favor ou contra as conclusões dos técnicos. E aí, no pleno, ainda tem os votos dos demais conselheiros, todos ou quase todos alçados àquela posição por méritos políticos. O que nem sempre é uma coisa ruim.

Portanto, pode dar em nada. Ou pode virar num bafafá de ano eleitoral. Ou incomodar muita gente. Não foi por acaso, nem sem pensar no futuro, que o deputado Joares Ponticelli (do PP, ex-presidente da Alesc) pediu ao TCE – e levou, não faz muito tempo – uma cópia integral desse processo.

[Um agradecimento especial à boa alma que garimpou o relatório e generosamente compartilhou comigo]

ADENDO DA TARDE DE QUINTA

Acabo de saber que o parecer do Ministério Público junto ao Tribunal de Contas, exarado em 5 de dezembro de 2013, é favorável ao relatório dos auditores. Na imagem abaixo, o parágrafo final do parecer.

Parecer do MPTC

A trama se adensa e a expectativa aumenta...

Governo Colombo

E agora, Raimundo?

Raimundo, Dr. Moreira e o delegado

O "delegado problema" e seus chefes. Fotos: Neiva Daltrozo/Secom e Facebook.

Caraminholas

O império dos sem noção!

DEBI & LÓIDE

...

Para os efeitos deste nosso estudo nada científico, “sem noção” é todo aquele idiota que não mede consequencias, não antecipa o efeito de seus atos e, portanto, não tem a menor noção do que pode resultar daquilo que ele faz ou deixa de fazer.

O “sem noção”, como todo néscio, faz o que faz por fazer: porque acha bonito, porque precisa mostrar para seus coleguinhas que ele ou ela é o/a tal. Não pensa antes de fazer, dizer ou aprontar. E aí, faz “sucesso” porque todo mundo gosta de ver um sem noção fazer besteira atrás de besteira.

Até aquele momento, que nem sempre ocorre com a frenquencia que gostaríamos, em que o sem noção se ferra. Entra cheirado na contramão da 101, por exemplo. Ou queima o filme mostrando, no facebook (ou seja, em praça pública), toda a sua “sem noçãozice” e acaba irritando os empregadores e prejudicado na carreira. Quando sobrevive, normalmente fica “muito surpreso” com o fato de ser punido por algo que tinha feito tão… sem noção.

“RIDÍCULO, EU? TÁS É TOLO!”

Existem “sem noção” em todos os lugares, classes sociais e profissões. Mas parece que, de uns tempos para cá, essa falta de senso tem se espalhado com maior rapidez. Gente que até parece ser dotada de inteligência, por algum motivo que talvez nem Freud consiga explicar, adota um estilo de vida completamente sem noção.

Olhem ao redor. Agora, com a exposição fácil e sem custo que as tais “redes sociais” permitem, muito “sem noção” navega nos mares da completa ridicularia, certo que está abafando. É próprio do sem noção não perceber a diferença entre os que riem dele e botam pilha pra ver até onde o pateta vai e os que, estultos como ele, o idolatram.

Um exemplo recente de sem noção: os dois estúpidos que levaram um rojão para o protesto. Qualquer pessoa sabe que aquele tipo de rojão é feito para, grudado numa vareta, ser soltado pra cima, para explodir lá no alto. Colocar um rojão aceso no chão é a prova mais evidente de parvoíce e falta de noção.

O rojão poderia ter feito a volta e estourado em cima do grupo que o acendeu. Poderia ter ido em cima de outros grupos, poderia até ter atingido os policiais lá adiante. Mas acabou esbarrando num cinegrafista. E o matou.

Com o rosto coberto (e tatuagens à mostra), os idiotas acreditavam que, além dos elogios que receberiam da “turma”, pelo estrago que fizeram, nada mais aconteceria. Sou capaz de apostar que eles não tinham noção do que viria a seguir. Sabiam, claro, que poderiam matar alguém, mas não imaginavam o que aconteceria a eles próprios.

Cartinha do Emanuel

Menino

Para Cida e Arnoldo

Por Emanuel Medeiros Vieira

“E por amor de ti, em guerra o tempo enfrento.
Quanto ele em ti suprime, é quanto te acrescento.”
(Shakespeare)

Aqui não estás (mas “sinto” a tua presença imanente).
Não vi o primeiro dente, os cabelos aparecendo
mas estás aqui, no lado esquerdo do peito
teu sorriso inunda a casa
sempre restará a memória,
e parece tão pouco
não esqueço do teu sorriso,
menino,
da tua imensa ternura
apenas um ser – e sempre um ser
Apenas?
Colho uma pitanga no meio destes verdes – percebo que esse amor
vai à eternidade, e no exato momento desta escrita, alguns
pássaros estão cantando.
É cedo.
Ou é muito tarde – sempre

Amo-te menino – nada deterá esse amor.
Nele não existe oblívio – estaremos juntos: para sempre.

(Brasília, fevereiro de 2014)

Fala leitor

Reflexões sobre a morte do cinegrafista

O Paulo Vendelino Kons, Conselheiro Tutelar de Brusque, SC, deixou um extenso comentário no post “Morreu o cinegrafista. E daí?” Como nem todos os leitores abrem a caixa de comentários, trago pra cá o que ele escreveu. Conheço as idéias do Paulinho Kons há alguns anos e acho que vale a pena a leitura.

“Prezado Cesar – Paz e Bem,

A manifestação do ministro-chefe da Secretaria Geral da Presidência da República Gilberto Carvalho (chefe do gabinete pessoal do presidente Luiz Inácio Lula da Silva em seus dois mandatos) sobre a morte do repórter cinematográfico Santiago Andrade, da TV Bandeirantes, que teve sua morte cerebral decretada ontem (10 II), é análoga ao meliante que furta a bolsa de uma senhora octogenária e sai gritando “pega ladrão”.

Investigação da Polícia Civil do Distrito Federal apontou servidores lotados na Presidência da República, subordinados ao ministro Carvalho, como líderes da manifestação e da queima de grande quantidade de pneus que bloqueou, na manhã do dia 14 de junho de 2013, as seis faixas da via N1, no Eixo Monumental de Brasília.

Quem comprou os pneus, contratou o caminhão para transportá-los e pessoas para incendiá-los, segundo a Polícia Civil: Mayra Cotta Cardozo de Souza, assessora especial da Secretaria Executiva da Presidência da República, João Vitor Rodrigues Loureiro, assessor da Subchefia para Assuntos Jurídicos da Presidência da República, Gabriel dos Santos Elias, até maio/2013 assessor da Subchefia de Assuntos Parlamentares e Danniel Gobbi Braga da Silva, assessor internacional da Secretaria Geral da Presidência, com salário de R$ 11,3 mil.

O assassinato de Santiago Andrade por black bloc não constitui-se num evento imponderável, mas consequência direta e objetiva da semeadura do ódio entre as classes sociais. A professora titular de Filosofia da Universidade de São Paulo (USP) Marilena Chauí, uma das mais prestigiadas pensadoras do Partido dos Trabalhadores (PT), foi muita reveladora na palestra proferida no lançamento do livro ”10 anos de governos pós-neoliberais no Brasil: Lula e Dilma”, em 13 de maio de 2013, na sala Adoniran Barbosa do Centro Cultural São Paulo, antecedendo o pronunciamento de Luiz Inácio Lula da Silva: “E porque é que eu defendo esse ponto de vista? Não é só por razões teóricas e políticas. É PORQUE EU ODEIO A CLASSE MÉDIA. A classe média é o atraso de vida. a classe média é a estupidez. É o que tem de reacionário, conservador, ignorante, petulante, arrogante… terrorista. A classe média é a uma abominação política, porque ela é fascista. Ela é uma abominação ética porque ela é violenta, e ela é uma abominação cognitiva porque ela é ignorante”.

Ao tratar pessoas como “classes” é mais fácil odiá-las. É por isso que o nazismo e o comunismo puderam existir, é por isso que a violência brasileira, sob uma roupagem retórica de “reparação” ou “causa social” imprecisa, está matando.

A prática do ministro Gilberto Carvalho e o ‘ensinamento’ da professora Marilena Chauí não estariam a indicar que interessa aos detentores do poder político no Brasil forçar o esvaziamento das legítimas manifestações contra os aumentos nas tarifas de transporte público, falta de mobilidade, gastos públicos em grandes eventos esportivos internacionais, a má qualidade dos serviços públicos (com ênfase na Saúde), a indignação com a corrupção política (Mensalão e outros casos), os gastos de quatro bilhões de reais anuais (R$4.000.000.000,00) das autarquias, estatais e da administração direta do governo federal na gestão Dilma Rousseff com publicidade e propaganda, entre outros, através da infiltração de criminosos em eventos que marcam a indignação ética da gente brasileira, como vem se verificando?”

Fraternalmente,

Paulo Vendelino Kons
Conselheiro Tutelar

Governo Colombo

Pro clubinho do vice filho não tem seca!

Dr. Moreira e Raimundo

O vice Dr. Moreira (e) e um ex-amigo. Molecagem sobre foto do James Tavares/Secom.

O Santa (também conhecido como Jornal de Santa Catarina, ou a sucursal blumenauense do jornal dos gaúchos) publicou ontem que um caminhão de combate a incêndios do Corpo de Bombeiros de Blumenau foi molhar duas vezes a pista de automodelismo (carrinhos de brinquedo, com controle remoto) em Gaspar, no último domingo.

(Clique aqui pra ler a notícia do Santa)

Lá se realizava um campeonato da Associação Catarinense de Automodelismo Offroad, que é presidida pelo Eduardo Pinho Moreira Filho. O vice filho também era o organizador do evento. Com a seca, a pista não estava na consistência correta. E um caminhão-pipa particular certamente iria cobrar alguma coisa para fazer o serviço. Melhor chamar os bombeiros.

Ah, um brutamontes (segurança do vice filho?) queria tomar a máquina do fotógrafo do Santa e entrou no carro da reportagem para ameaçar os jornalistas e mandar apagar as imagens dos bombeiros molhando a pista. Intimidação e censura, Dr. Moreira? Que feio!

EM TEMPO

Reclamações e comentários devem ser enviados diretamente para o Centro Administrativo, rodovia SC 401, Saco Grande, Florianópolis, SC. A/C Dr. Moreira, c/c João Raimundo. Afinal, o Raimundo é chefe dos bombeiros e o Dr. Moreira é pai do Moreirinha.

(Obrigado pela dica, Carlos Tonet)

A RESPOSTA DO VICE FILHO

O Moreira citado na reportagem do Santa e quem alfinetei acima fez a gentileza de deixar, aqui na caixa de comentários, suas explicações. Trago pra cá, pra facilitar a leitura.

“Boa tarde sr Cesar.

Sou o Eduardo Moreira Filho, a quem se referes neste artigo. Gostaria de corrigir alguns erros em sua postagem.

Não sou o presidente da Acaoff, Associação Catarinense de Automodelismo Offroad, sou apenas um dos associados e ajudo na organização dos eventos por ela realizados.

Devido ao calor excessivo e à falta de chuva nas últimas semanas, tivemos problemas com a pista e o excesso de poeira, ficando difícil até para respirar. Sempre contratamos uma empresa com caminhão pipa para prestar este serviço, só que a empresa não pôde realizar o serviço neste último fim de semana pois o caminhão pipa estava quebrado (empresa caibi).

Tinhamos cerca de 30 pilotos vindos de SC, PR e RS e de última hora, para não cancelarmos a etapa, decidimos pedir ajuda aos bombeiros. Só foi possível a ajuda dos bombeiros porque no clube onde era realizada a etapa tem um grande lago onde a água seria, e foi, reposta aos bombeiros, condição esta que fez com que os bombeiros aceitassem nos ajudar. Em nenhum momento usamos o nome do meu pai. Nem fui eu que entrei em contato com os bombeiros. E a pessoa que fez o contato usou o nome da Acaoff no pedido de apoio.

Organizamos o 2º maior estadual da categoria, atras apenas de SP, e na região de Gaspar é uma modalidade muito tradicional, por se encontrar lá o maior clube de modelismo da América do Sul.

Não ando e nunca andei com segurança e quem me conhece sabe que nunca provocaria algum tipo de confusão. Pelo contrário, um dos participantes foi perguntar ao fotógrafo do Santa (não tinha reporter) sobre o porque das fotos e o fotógrafo disse que não interessava e que não devia satisfação a ninguem. Foi quando este participante se colocou entre o fotógrafo e o seu carro e disse que exigia explicação.. Ao ver a cena pedimos para que ele se afastasse e deixasse o fotógrafo ir embora. Depois de um tempo uma reporter do Santa entrou em contato por telefone e demos as explicações sobre o acontecido.

Enfim, sou totalmente contra qualquer tipo de censura ou violência e também sou contra esse tipo de artigo politiqueiro com a clara intenção de atingir meu pai. Com afirmações falsas e insinuações descabidas.

Praticamos o automodelismo como hobby e diversão e só conseguimos realizar esta etapa graças ao apoio dos bombeiros. A agua usada foi reposta e acredito não termos prejudicado ninguém.

Grato pela atenção.”

MEU COMENTÁRIO

O texto do Moreira Filho confirma, em linhas gerais, o que o Santa publicou. E esclarece um ponto importante, que na reportagem não estava claro: houve mesmo alguém que tentou impedir o trabalho dos jornalistas, só que não era segurança do filho do vice. Que, pelo que nos informa, até intercedeu para resolver o problema. Quanto à “clara intenção de atingir meu pai”, é o preço de ser filho de um vice-governador, ex-governador e presidente de partido. Ainda mais tendo o mesmo nome. Figuras públicas e seus parentes estão sempre sob holofotes. E além do mais, nessa seca braba, qualquer pessoa que chamasse os bombeiros para molhar pista de automodelismo ou outro modelismo qualquer, cairia na boca do povo. E pelo que tenho lido sobre a falta d’água em Blumenau, parece que há mesmo uma escassez de carros pipa na região. Só espero que a generosa atitude dos bombeiros não crie, na comunidade a que servem, falsas expectativas sobre os serviços que podem prestar.

Caraminholas

Morreu o cinegrafista. E daí?

post-it 3

...

post-it 2

...

post-it 1

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Todo mundo gosta de ver o que está acontecendo. Tirante um ou outro caso de aproveitamento de imagens de celulares e câmara amadoras, os melhores flagrantes são captadas por profissionais, que às vezes estão bem próximos dos acontecimentos. E acabam levando as sobras, quando a coisa esquenta.

Foi o que ocorreu com o Santiago Andrade, cinegrafista da TV Band que morreu ontem. Dois “manifestantes” mascarados acenderam um rojão perto de onde estava o Santiago, que filmava a tropa de choque da PM. O rojão, desses de festa junina, explodiu bem na cabeça do pobre do Santiago.

Agora dizem que os caras queriam acertar os policiais. Mas, cá entre nós, eles querem mesmo é quebrar tudo e provocar o maior dano possível. Azar de quem está no caminho. Às vezes a polícia também age assim, sem olhar direito o que está fazendo. É o problema de quem usa, como ferramenta, a violência.
A destruição acaba sendo um fim em si mesmo e o que ocorre quando usam esse instrumendo de ódio, não tem muita importância. O importante é mostrar o prejuízo causado.

E depois de tanto tempo de campanha contra a “grande imprensa”, em que os idiotas menos dotados de inteligência confundem os profissionais com as empresas que os contratam e acabam achando, no seu delírio, que tudo é invenção de jornalistas malintencionados, não duvido que muitos achem irrelevante a morte do cinegrafista.

Até jogadores de futebol, quando enfrentam um período de más notícias e escassos resultados, acham que a forma de melhorar tudo é parar de falar com jornalistas. Claro! A velha história de matar o mensageiro. Se não tem quem dê a notícia, cessam as más notícias. Mesmo que continuem acontecendo os malfeitos, a roubalheira, a patifaria: se não tiver quem incomode os poderosos mostrando imagens, escrevendo coisas, a vida dessa gente, que já é muito boa, fica maravilhosa.

Caraminholas

Transparência x Corrupção

Pequenas corrupções1

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Pequenas corrupções2

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Pequenas corrupções3

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Pouca gente sabe da existência da Controladoria Geral da União (CGU). Mesmo alguns daqueles que vivem falando contra os corruptos e a corrupção e xingam todos os dias o governo, ignoram o que faz essa repartição, dirigida pelo veterano Jorge Hage. Esses quadrinhos que ilustram esta página, com lembretes sobre as pequenas corrupções que nos tentam a todos, foram produzidos pela CGU e expostos na sua página do Facebook (fb.com/cguonline). No twitter o endereço é @cguonline. E o site onde estão as informações sobre o que a CGU faz e tem feito, é www.cgu.gov.br.

Além da preocupação com o uso do dinheiro público e com a ingrata tarefa de tentar criar uma consciência nacional anti-corrupção, a CGU também lida com outra situação grave e difícil: a transparência.

Um dos melhores remédios para inúmeros problemas de saúde pública, é abrir as janelas para deixar o ar circular e o sol entrar. A transparência, nas repartições públicas, cumpre papel semelhante: espantar as ratazanas e baratas que gostam de escurinho, adoram locais fechados, impenetráveis, úmidos e propícios a uma boa negociata debaixo dos panos. De preferência com dinheiro público.

Fazer os políticos e demais servidores públicos abandonarem as antigas práticas, de quando o público não tinha direito de saber o que ocorria nos gabinetes acarpetados do poder, é um trabalho hercúleo.

A CGU recomenda, ensina, exige, pede, impõe quando e onde pode, mas mesmo assim a resistência é grande. São desde servidores de alto salário que temem por sua segurança ao terem seus vencimentos divulgados, a administradores públicos arrogantes que acreditam mesmo que o público não tem direito de saber o que eles fazem.

Deixar entrar a luz e o ar puro é a única forma de evitar que os corruptos e os potenciais corruptos sintam alguma dificuldade para levar adiante seus planos e sintam que não podem exercer seus podres poderes impunemente. Mas ainda há um longo caminho a percorrer, porque falta uma consciência nacional anti-corrupção. O mesmo sujeito que fala do “político ladrão”, ultrapassa pelo acostamento, engana no troco e sonega o quanto pode o pagamento de impostos.

E ainda falta, nas autoridades de vários escalões, coragem para impor uma nova política de transparência e de combate à corrupção. Temem advertir e punir quem, apegado às sombras e ao passado, sonega informações ao público e insiste em manter aquele velho tapete sobre tudo.

Jorge Hage

Jorge Hage, ministro-chefe da CGU. Foto: DL Photo/CGU

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