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	<title>De Olho na Capital &#187; Crônicas</title>
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	<description>O blog do Cesar Valente</description>
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		<title>Faça de conta que a casa é sua</title>
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		<pubDate>Tue, 19 May 2009 19:17:32 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Cesar Valente</dc:creator>
				<category><![CDATA[Crônicas]]></category>

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		<description><![CDATA[Da série “ai que saudades que eu tenho&#8230;” Capítulo de hoje: OS VIZINHOS Hoje somos seres urbanos que vivem a poucos, pouquíssimos metros de pessoas de quem não sabemos o nome e com quem às vezes nem falamos ou cumprimentamos ao encontrar na rua. Tratamo-nos, de uma maneira geral, com o cuidado e a precaução [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<blockquote><p>Da série “ai que saudades que eu tenho&#8230;”</p></blockquote>
<p>Capítulo de hoje: <strong>OS VIZINHOS</strong></p>
<p>Hoje somos seres urbanos que vivem a poucos, pouquíssimos metros de pessoas de quem não sabemos o nome e com quem às vezes nem falamos ou cumprimentamos ao encontrar na rua. Tratamo-nos, de uma maneira geral, com o cuidado e a precaução que se deve ter diante de desconhecidos com algum nível de periculosidade.</p>
<p>Pois nessa chumichunga em que a vida das cidades se transformou, seria muito útil termos, pelo outro, a mesma consideração e deferência que tínhamos quando morávamos em algum sítio, na nossa vida pregressa rural.</p>
<p>Quem abria uma porteira e entrava sabia que devia, ao dono da casa e seus parentes, um respeitoso cumprimento e um claro pedido de licença para chegar, para se aproximar e para trocar dois dedos de prosa. Quem via um estranho se aproximando de sua casa sabia que devia ver se tinha água fresca na jarra, que era preciso acender o fogo e fazer um café. E em seguida responder com cortesia o pedido de licença e dizer, com estas ou outras palavras, que a casa é sua.</p>
<p>Um ritual como este, totalmente assentado nas melhores e mais valiosas normas da vida em sociedade, tornou-se impossível hoje. Justamente hoje, quando a cada três passos damos de cara com um cidadão ou cidadã que nunca vimos antes e com quem precisamos conviver. Justamente hoje, quando o espaço privado reduziu-se a dimensões minúsculas e estamos a todo momento expostos aos outros.</p>
<p>É muito chato escrever sobre esses grandes problemas da humanidade, porque vive dentro de cada cronista de terceira, como eu, um arrogante ditador de regras, que tudo sabe e para tudo tem conselhos e palpites. E nesses casos, a gente não consegue ver uma solução de possa ser resumida a duas linhas, um parágrafo, no encerramento de um papo qualquer. Não existem respostas simples para o que a gente precisa fazer, como a gente precisa agir, para tornar nossa vida menos pior.</p>
<p>Se eu abro a porta, o outro me rouba, se eu abro os braços o outro me esfaqueia, se eu sorrio o outro me dá um soco, se eu me escondo o outro me denuncia à Polícia como traficante, se eu ignoro tudo isso, acabo só e sem assunto e se eu presto atenção a isso, acabo paranóico. Eu e o outro temos que ocupar praticamente o mesmo espaço físico, mas não conseguimos conviver. E sempre achamos que a melhor solução é eliminar o estorvo. E o estorvo, claro, é sempre o outro.</p>
<p>Chega, que isso não é conversa pra meio de semana. Muito menos num dia assim, ensolarado, nítido, com os primeiros ares frios do outono&#8230; se pelo menos aquele vizinho desgraçado não estivesse enfumaçando, com a chaminé baixa da churrasqueira, as roupas no varal e me obrigando a manter as janelas fechadas&#8230;</p>
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		<title>A tainha nossa de cada inverno</title>
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		<pubDate>Mon, 18 May 2009 18:59:13 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Cesar Valente</dc:creator>
				<category><![CDATA[Crônicas]]></category>

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		<description><![CDATA[Para os florianopolitanos a tainha não é um peixe comum. Não é uma comida como as outras. É uma liturgia, uma seqüência de atos solenes, um conjunto de circunstâncias. Começa pelo frio, pelos dias azuis ventosos do outono. É o primeiro sinal. Não duvido que existam aqueles que coloquem seus primeiros casacos e agasalhos já [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<div id="attachment_3123" class="wp-caption aligncenter" style="width: 460px"><a href="http://www.deolhonacapital.com.br/wp-content/uploads/2009/05/deolho18-tainha.jpg"><img class="size-full wp-image-3123" title="deolho18-tainha" src="http://www.deolhonacapital.com.br/wp-content/uploads/2009/05/deolho18-tainha.jpg" alt="Prontinha pro forno..." width="450" height="222" /></a><p class="wp-caption-text">Prontinha pro forno...</p></div>
<p>Para os florianopolitanos a tainha não é um peixe comum. Não é uma comida como as outras. É uma liturgia, uma seqüência de atos solenes, um conjunto de circunstâncias. Começa pelo frio, pelos dias azuis ventosos do outono. É o primeiro sinal. Não duvido que existam aqueles que coloquem seus primeiros casacos e agasalhos já salivando, à espera das delícias que o frio, mais dia menos dia, trará.</p>
<p>A expectativa dos cardumes, como toda véspera de festa, é animada. Uns sobem aos mirantes, prontos a identificar, entre marolas, ondas, espumas e gaivotas, os sinais místicos da chegada das tainhas. São sujeitos respeitados, cuja vivência à beira mar os transformou nesses arautos da boa nova. Ele, do alto, olha para o mar. Os demais, na praia, olham para ele. Nas esquinas e nos botecos contam-se histórias dos grandes lances do passado, cada um tem a sua aventura particular. Como numa sinfonia, o crescendo da espera prepara os ânimos para o grande dia.</p>
<p>Nas casas, as velhas receitas, geralmente transmitidas verbalmente, são repassadas à espera da chegada do ingrediente principal. Olhos atentos examinam os fornos, verificam as assadeiras, recuperam as melhores frigideiras. A grande dúvida é se as primeiras serão assadas, escaladas ou fritas em postas. Caso não se chegue logo a uma conclusão, serão feitas de todas as maneiras. De uma vez, se a família é grande ou a cada dia, para que o prazer dure mais.</p>
<p>Até que são dados os primeiros lanços e capturadas as primeiras tainhas do ano. Não tenho certeza, mas parece que os grandes cardumes chegam depois. Os maiores arrastões geralmente não são os primeiros. Mas não importa. A festa está começando. E o movimento seguinte é a discussão do preço: “tá caro este ano, vou esperar baixar”.</p>
<p>À medida em que vão chegando os cardumes (há ocasiões em que 32 toneladas podem ser capturadas num só dia), o preço estabiliza e aquelas maravilhas, com suas linhas clássicas bem proporcionadas, vão chegando às mesas.</p>
<p>Orgulhosas e orgulhosos de seus talentos culinários, cada um apresenta sua criação da forma mais caprichada. E a tainha, com sua carne firme, mas não muito, aceita os temperos com dignidade e transforma sal e limão em especiarias. As ovas, degustadas como autêntico caviar, complementam a cerimônia. Não existe, para os florianopolitanos (pelo menos para mim e vários que conheço), nenhum outro peixe com tal nobreza e sabor. E é sempre nas casas, não nos restaurantes, que a solenidade da preparação e do consumo da tainha alcança seu ponto mais alto.</p>
<p>Não é uma coisa fantástica? Que outro alimento tem um ciclo como esse? Uma cidade inteira acompanhando, desde a primeira temperatura mais baixa, a chegada. Comemorando suas histórias, reproduzindo suas lendas. Depois recebendo-a em suas cozinhas, de todos os níveis, das mais equipadas às mais simples, com igual reverência. Para finalmente saboreá-la, democraticamente, com igual prazer. No momento de mastigar, sentir-lhe a textura e o gosto bom, todos nos igualamos. Do pescador que vive num casebre e quase não consegue seu sustento ao dono da frota de barcos de pesca, somos todos iguais diante desse peixe mágico que, por alguns meses, nos conduz aos bons tempos em que éramos uma ilha com pequenos povoados, onde todos se conheciam. E onde todos ajudavam a puxar o arrastão. E todos dividiam as tainhas capturadas. E não era preciso comprar o peixe&#8230;</p>
<p>Os tempos são outros, nem todos os que vivem aqui sabem exatamente do que estou falando. Mas aprenderão em pouco tempo. Porque, a cada inverno, com maior ou menor abundância, trataremos de manter e cultivar essa tradição saborosa, vigorosa e emocionante. E agora devo encerrar, com vossa licença, porque uma esplendorosa tainha escalada me aguarda. Estão servidos?</p>
<p><strong>E AGORA A MESMA CRÔNICA, PARA VEGETARIANOS E VEGETARIANAS</strong></p>
<p><strong>Nota do tradutor:</strong> fiquei sensibilizado com o apelo de amigas vegetarianas que reclamaram, há alguns anos, quando publiquei a crônica acima pela primeira vez. Para que não se sintam excluídas, fiz uma versão da crônica da tainha especialmente para todos e todas que não gostam de comer animais, mas traçam um vegetal sem remorsos.</p>
<div id="attachment_3124" class="wp-caption aligncenter" style="width: 410px"><a href="http://www.deolhonacapital.com.br/wp-content/uploads/2009/05/deolho18-rucula.jpg"><img class="size-full wp-image-3124" title="deolho18-rucula" src="http://www.deolhonacapital.com.br/wp-content/uploads/2009/05/deolho18-rucula.jpg" alt="Prontinha..." width="400" height="300" /></a><p class="wp-caption-text">Prontinha...</p></div>
<p><strong>A RÚCULA NOSSA DE CADA INVERNO</strong></p>
<p>Para os florianopolitanos a rúcula não é um vegetal comum. Não é uma comida como as outras. É uma liturgia, uma seqüência de atos solenes, um conjunto de circunstâncias. Começa pelo frio, pelos dias azuis ventosos do outono. É o primeiro sinal. Não duvido que existam aqueles que coloquem seus primeiros casacos e agasalhos já salivando, à espera das delícias que o frio, mais dia menos dia, trará.</p>
<p>A expectativa da colheita, como toda véspera de festa, é animada. Uns sobem aos mirantes, prontos a identificar, entre alfaces, bananeiras, acelgas e pardais, os sinais místicos da chegada das rúculas. São sujeitos respeitados, cuja vivência na roça os transformou nesses arautos da boa nova. Ele, do alto, olha para a horta. Os demais, na planície, olham para ele. Nas esquinas e nos botecos contam-se histórias das grandes colheitas do passado, cada um tem a sua aventura particular. Como numa sinfonia, o crescendo da espera prepara os ânimos para o grande dia.</p>
<p>Nas casas, as velhas receitas, geralmente transmitidas verbalmente, são repassadas à espera da chegada do ingrediente principal. Olhos atentos examinam os fornos, verificam as assadeiras, recuperam as melhores frigideiras. A grande dúvida é se as primeiras serão assadas, cruas ou cozidas. Caso não se chegue logo a uma conclusão, serão feitas de todas as maneiras. De uma vez, se a família é grande ou a cada dia, para que o prazer dure mais.</p>
<p>Até que são colhidas as primeiras rúculas do ano. Não tenho certeza, mas parece que as grandes colheitas chegam depois. Os maiores sacolões geralmente não são os primeiros. Mas não importa. A festa está começando. E o movimento seguinte é a discussão do preço: &#8220;tá caro este ano, vou esperar baixar&#8221;.</p>
<p>À medida em que vão chegando nas feiras (leio no jornal que 32 toneladas foram vendidas num só dia), o preço estabiliza e aquelas maravilhas, com suas linhas clássicas bem proporcionadas, vão chegando às mesas. Orgulhosas e orgulhosos de seus talentos culinários, cada um apresenta sua criação da forma mais caprichada. E a rúcula, com sua consistência firme, mas não muito, aceita os temperos com dignidade e transforma sal e limão em especiarias. Os talos, degustados como autêntico coração de alcachofra, complementam a cerimônia. Não existe, para os florianopolitanos (pelo menos para mim e vários que conheço), nenhum outro vegetal com tal nobreza e sabor. E é sempre nas casas, não nos restaurantes, que a solenidade da preparação e do consumo da rúcula alcança seu ponto mais alto.</p>
<p>Não é uma coisa fantástica? Que outro alimento tem um ciclo como esse? Uma cidade inteira acompanhando, desde a primeira temperatura mais baixa, a chegada. Comemorando suas histórias, reproduzindo suas lendas. Depois recebendo-a em suas cozinhas, de todos os níveis, das mais equipadas às mais simples, com igual reverência. Para finalmente saboreá-la, democraticamente, com igual prazer. No momento de mastigar, sentir-lhe a textura e o gosto bom, todos nos igualamos.</p>
<p>Do lavrador que vive num casebre e quase não consegue seu sustento ao dono da frota de caminhões de feira, somos todos iguais diante desse vegetal mágico que, por alguns meses, nos conduz aos bons tempos em que éramos uma ilha com pequenos povoados, onde todos se conheciam. E onde todos ajudavam a colher a rúcula. E todos dividiam as rúculas colhidas. E não era preciso comprar o vegetal&#8230;</p>
<p>Os tempos são outros, nem todos os que vivem aqui sabem exatamente do que estou falando. Mas aprenderão em pouco tempo. Porque, a cada inverno, com maior ou menor abundância, trataremos de manter e cultivar essa tradição saborosa, vigorosa e emocionante. E agora devo encerrar, com vossa licença, porque uma esplendorosa rúcula aglio i olio me aguarda. Estão servidos?</p>
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		<title>É a mãe!</title>
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		<pubDate>Sun, 10 May 2009 07:56:06 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Cesar Valente</dc:creator>
				<category><![CDATA[Crônicas]]></category>

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		<description><![CDATA[Parabéns a todas. As que têm filhos, as que não têm filhos mas exercem a função, as que sonham em ter, as que um dia quiseram mas não puderam, ou tiveram e perderam. Das relações humanas, a que a gente tem com a mãe é uma das mais complexas. É óbvio que assim seja. E [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<div id="attachment_2929" class="wp-caption aligncenter" style="width: 460px"><a href="http://www.deolhonacapital.com.br/wp-content/uploads/2009/05/deolho10-lucia2.jpg"><img class="size-full wp-image-2929" title="deolho10-lucia2" src="http://www.deolhonacapital.com.br/wp-content/uploads/2009/05/deolho10-lucia2.jpg" alt="Lucinha com o André e o Pedro. Foto: CV" width="450" height="293" /></a><p class="wp-caption-text">Lucinha com o André e o Pedro. Foto: Cesar Valente</p></div>
<p>Parabéns a todas. As que têm filhos, as que não têm filhos mas exercem a função, as que sonham em ter, as que um dia quiseram mas não puderam, ou tiveram e perderam. Das relações humanas, a que a gente tem com a mãe é uma das mais complexas. É óbvio que assim seja. E é natural que, por mais comerciais que sejam os motivos de uma data como esta, a gente fique sem jeito de ignorá-la.</p>
<p>De vez em quando alguma mulher olha pra gente desafiadora e diz que jamais conseguiremos sentir, imaginar, viver a maternidade. Em alguns casos fazem isso orgulhosas, cheias de soberba, felizes por poderem nos colocar em nosso lugar. É, de fato, provocação à qual não temos resposta. E geralmente causada por maus tratos ancestrais. Uma espécie de troco atrasado que às vezes recebe quem não foi a causa única de tanta mágoa.</p>
<p>As mulheres, e as mães em especial, têm razão em verem nos homens criaturas incapazes de compreendê-las. Nem vou entrar na questão de que a maioria de nós foi educado para ser como somos por mulheres e mães, mas o fato é que a gente tem a tendência a achar que são simples essas criaturas complicadas.</p>
<p>A maternidade, a gestação e o parto, são fenômenos de extraordinária beleza. E os sentimentos associados a esse período (que tem começo, mas nunca termina) são igualmente interessantes e únicos. Sob qualquer ponto de vista que a gente examine o que acontece com os seres humanos ao se reproduzirem (medicina, física, química, psicologia, culinária, biologia, o que seja), temos sempre um marco, um conjunto de eventos espetaculares. Não é à toa que as mulheres se sentem o máximo, quando compreendem a extensão do que viveram ao dar a luz. Mesmo ao assumir a maternidade de quem foi parido por outrem. Ou quando recebem um abraço carregado de afeto de quem, sem ser, acabou sendo como se fosse filho.</p>
<p>A gente, os homens, somos criaturas relativamente toscas. Custamos para compreender e sentir algumas coisas. Mas, por favor, não nos neguem a capacidade de entender a maternidade. Nem nos afastem, por inúteis e desastrados, dos seus momentos mais grandiosos. Porque a gente, mesmo sendo amante, marido, namorado, amigo, nunca deixa de ser, também, uma espécie de filho. Incesto disfarçado. Afeto tutti-frutti. Uma complicação a mais, daquelas que torna a vida tão maravilhosa, complicada, triste e alegre.</p>
<p>Parabéns, companheiras. E que pelo menos hoje a gente trate vocês como deveríamos tratar todos os dias.</p>
<div id="attachment_2930" class="wp-caption aligncenter" style="width: 460px"><a href="http://www.deolhonacapital.com.br/wp-content/uploads/2009/05/deolho10-marta-lucia1.jpg"><img class="size-full wp-image-2930" title="deolho10-marta-lucia1" src="http://www.deolhonacapital.com.br/wp-content/uploads/2009/05/deolho10-marta-lucia1.jpg" alt="Lucinha com a Marta. Foto: acervo de família." width="450" height="257" /></a><p class="wp-caption-text">Lucinha com a Marta. Foto: acervo de família.</p></div>
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		<title>Essas mulheres&#8230;</title>
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		<pubDate>Sun, 08 Mar 2009 22:11:55 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Cesar Valente</dc:creator>
				<category><![CDATA[Crônicas]]></category>

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		<description><![CDATA[Não estava planejando fazer nada do tipo “comemorativo” neste dia da mulher. Mas aí lembrei (talvez tarde demais) que as mulheres detestam essas datas, mas odeiam quando a gente esquece ou não diz nada. Corri à gaveta, retirei um textinho antigo, embrulhei-o em papel de presente e o estou entregando às leitoras do blog, com [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Não estava planejando fazer nada do tipo “comemorativo” neste dia da mulher. Mas aí lembrei (talvez tarde demais) que as mulheres detestam essas datas, mas odeiam quando a gente esquece ou não diz nada.</p>
<p>Corri à gaveta, retirei um textinho antigo, embrulhei-o em papel de presente e o estou entregando às leitoras do blog, com aquele “não repara, é só uma lembrancinha” balbuciado entre dentes. Espero que gostem. Embora não tenha sido escrito hoje, foi feito em homenagem às mulheres. É de coração.<br />
<strong><br />
O DRAGÃO E A FORMIGA</strong><br />
<em>Esta croniquinha foi escrita em junho de 2003, a partir desta frase da GiNiKi (uma blogueira minha amiga, de Belo Horizonte): <strong>“O dragão solta fogo e me sinto uma formiga chamuscada. Que fazer? Blogar? Beber até cair?”</strong></em></p>
<p>A formiga chegou em casa que era um caco. Um caquinho. Bateu a porta, jogou a bolsa longe, aliviou-se desabotoando o sutiã e tirando-o pela manga mesmo. Desapertou o cinto, chutou cada sapato numa direção e jogou-se no sofá, cobrindo os olhos com as duas mãos.</p>
<p>Vontade de gritar sufocada na garganta para não dar assunto para os vizinhos metidos. Restaram os suspiros. Os lamentos da alma. E uma vontade de chorar que não se resolvia: não derramava as lágrimas represadas nem desimpedia a garganta. Um nó. Que se danem os nós!</p>
<p>Tinha sido mais um dia daqueles. A formiga anda muito mal instalada. Para ir de casa para o trabalho, depois do trabalho para o restaurante, de volta para o trabalho e finalmente pra casa, tinha que atravessar léguas e léguas de descampado, justamente onde brincam os dragões.</p>
<p>Brincadeira de dragão, vocês sabem, é bem estúpida. Quando ficam alegres, em vez de rir como todo mundo, soltam labaredas. Quando ficam brabos ou chateados, em vez de xingar como qualquer pessoa, soltam labaredas. E quando estão tristes e acabrunhados, em vez de chorar como criaturas normais, eles soltam labaredas. Parece que comem napalm e arrotam lascas do inferno. Saco.</p>
<p>Pois bem, a formiga, trabalhadeira, bonitinha, caprichosa, bem vestidinha, sem luxo mas com enorme bom gosto, tinha que tomar muito cuidado para não ser atingida pelo fogo dos amigos dragões que nunca prestavam atenção nela nem em suas amigas. Eram capazes de pisar em cima e nem perceber que tinham amassado alguém. O jeito é correr, calcular os movimentos, um estresse. Uma canseira. E o medo, então?</p>
<p>Não tem como chegar em casa sem parecer uma pilha de nervos. Sempre pensava em largar dessa vida, mudar, arranjar outra coisa pra fazer, trabalhar em outro lugar. Porque ali, do jeito que estava ficando perigoso não tinha futuro. Mas cadê coragem? E as formigas, por mais mimosas e inteligentes, não sabem viver sozinhas. A turma sempre anda junta. Desde que o mundo é mundo.</p>
<p>No banho, quente e demoraaaado, começou a se acalmar. Dali a pouco, passando um hidratante nas pernas peludas, já estava começando a respirar normalmente. E finalmente dormiu quase em paz. Sonhou que vivia num lugar sem dragões. Mas depois do café da manhã, ao colocar o pé para fora de casa, já estava atenta, antenas eretas, caminhando rápido e com cuidado. Exatamente como ontem. E ela ficava cansada mais cedo porque já sabia como estaria ao voltar pra casa. É dura a vida de uma formiga numa terra de dragões.</p>
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