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Bloguices

E aí? Abandonou o blog?

Comecei a lidar com blogs mais ou menos na mesma época que a Cora. Fiz o primeiro blog durante a greve da Gazeta Mercantil, em 2001, para manter a turma informada e comentar a catástrofe que se abatia sobre o outrora mais importante jornal de economia e finanças da América Latina. Em 2002 passei a fazer um que poderia ser chamado de “blog pessoal”, o Carta Aberta. Por isso, me identifiquei tanto com esse texto da colega de profissão e de bloguices, a Cora Rónai. E por isso trouxe-o pra cá. Para o caso de alguém aparecer querendo saber se eu abandonei o blog.

CV

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E os blogs pessoais, hein?

(Publicado em O Globo, Sociedade, 18.4.2014)

Por Cora Rónai

– Você abandonou o blog! — cobrou um leitor das antigas.

– Não é bem isso, — desconversei. — Só mudei de ritmo, deixei de fazer atualizações diárias, ponho menos fotos…

– Justamente: você abandonou o blog.

Não se pode discutir contra evidências: eu abandonei o blog, embora me custe reconhecê-lo e, ainda mais, confessá-lo. O “internetc.”, que nasceu em 2001, e que eu não conseguia explicar para ninguém naqueles tempos em que as pessoas já sabiam o que era um site, mas ainda não compreendiam o conceito do blog pessoal, é hoje apenas um repositório das colunas que escrevo para o jornal, uma forma simples de manter à mão textos dos quais eventualmente venha a precisar. Os mesmos textos existem no OneDrive e no Dropbox, mas, bem ou mal, ainda há resquícios de caixas de diálogos no blog, onde um que outro leitor deixa o seu recado.

o O o

Fazer um blog em 2001 exigia certa determinação. Eu escrevia para onze pessoas, em dias de muita repercussão dezenove. Nenhum dos meus amigos entendia o que eu queria com aquilo, já que eu assinava coluna no Globo e editava todo um caderno de tecnologia. Para que é que alguém com tantos leitores se dava ao trabalho de escrever para meia dúzia de gatos pingados?

Nem eu sabia muito bem.

O que me entusiasmava era a ideia da comunicação instantânea, mas como às vezes ninguém aparecia no blog, ficava no ar uma pergunta bastante pertinente: comunicação com quem, cara pálida?

Na melhor das hipóteses, com os outros autores de blogs. A comunidade era pequena, todos nos conhecíamos, e era de bom tom fazermos visitas uns aos outros. Até hoje tenho ótimos amigos desses tempos pioneiros.

Depois do fatídico 11 de setembro, que revelou ao mundo a existência dos blogs, veio uma época de ouro, em que muitas pessoas — mesmo algumas que nem tinham blog! — apareciam regularmente, liam, davam palpite, trocavam ideias entre si nas caixas de comentários.

Essas caixas eram todo um outro capítulo, porque não faziam parte integrante dos aplicativos. Eram bacalhaus escritos e mantidos por voluntários, que contribuíam para a “causa” pela mesma razão pela qual nós, blogueiros, escrevíamos: o prazer da experiência. Às caíam, às vezes nem entravam no ar, às vezes davam defeitos esquisitíssimos. Ninguém reclamava; fazia parte. Mas era graças a elas que a comunidade vicejava.

O “internetc.” tinha leitores tão simpáticos que passou a ser chamado de “blogtequim” nas internas; era um ponto de encontro e de boa conversa, onde valia qualquer coisa, menos gente agressiva e mal educada. Uma das regras básicas da casa, porém, é que as discussões tinham que ser pertinentes ao assunto em pauta, para não virarem uma completa bagunça. A exceção eram as fotos de gato, em cujos comentários o tema era livre. Nessas áreas é que, por vezes, rolavam os melhores papos, que iam de discussões filosóficas a reclamações sobre calçadas esburacadas, passando por indicações de profissionais especializados e receitas de bolo.

Nessa época, o cérebro dos blogueiros da ativa funcionava de modo curioso: em primeiro plano, realizava as funções habituais de qualquer ser humano; mas, por trás, só pensava no que daria ou não daria um bom post. Uma flor amarela! Um guarda multando um carro! Um assalto! Uma briga na esquina! Uma viagem! Um livro! Um filme! Uma topada! Um sorvete de caramelo! Tudo era virado, revirado e eventualmente aproveitado. Ou não.

o O o

Com o tempo, os blogs pessoais migraram, num movimento quase imperceptível, para o Facebook. Um dia um post que normalmente iria para o blog acabava no FB; no outro dia, mais um ou dois. Assim, antes que nos déssemos conta, o que antes chamávamos de blogosfera passou a ser rede social. O Facebook tem a vantagem de reunir, sob o mesmo teto, por assim dizer, todos os blogueiros que, nos velhos tempos, estavam espalhados pelos seus diversos blogs. Ninguém precisa mais sair à cata dos blogs alheios para ler o que andam pensando os amigos; basta ir para a página principal. Valeu a troca?

Discussão

Comentários estão desativados para este post.

  1. Cesar, falei sobre isso esses dias… Veja aqui: http://christofoletti.com/2014/05/04/vida-e-morte-dos-blogs-de-comunicacao/

    Pretendo completar nove anos do meu blog agora no dia 20… heheheh… abs

    Posted by Rogerio Christofoletti | maio 6, 2014, 18:18
  2. Todo blog tem dois lados. O do editor e o dos leitores.
    Às vezes o editor dá uma relaxada, mas leitores estão lá, diariamente, clicando no link dos favoritos para ver se há novidades.
    Mantém o hábito por um tempo até começarem a se questionar sobre o que estaria havendo: o editor cansou? está desiludido com tudo e todos? viajou? quando será que volta?
    Se o silêncio prossegue por muito tempo o leitor passa a não visitar mais o blog. Desapontado. Vai lá de vez em quando.
    Quem questionou Cora o fez em tom de desapontamento.
    O blogueiro é responsável por quem cativa. (Exupéry já o dizia).

    Posted by Mauricio | maio 6, 2014, 18:47
  3. Sou um velho mamute. Continuo espiando os blogs, cuja plataforma se não é tão ‘veloz’, é mais ampla em suas referências (links variados, sugestões, músicas e livros, índices de acesso a outros blogs, canais e programas). Tá tudo ali, à disposição e sem a aura e cara de BBB.

    Posted by PAULAO | maio 7, 2014, 09:44

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