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Caraminholas

Sexta-feira santa. Santa?

Os cinqüentões decerto lembram do tempo em que, na sexta-feira santa, o rádio tocava música clássica (genericamente chamada de “música sacra”). Em casa, a gurizada precisava falar baixo, nada de cantoria e muito menos de xingamentos. Afinal, era um dia de luto.

Como contam as Escrituras, “já era mais ou menos meio-dia, e uma escuridão cobriu a terra até às três da tarde, pois o sol parou de brilhar”. A coisa era séria e grave, pro dia ter virado noite. Nas igrejas, as imagens estão cobertas com panos roxos. Mesmo bares e restaurantes que se gabavam de funcionar o ano todo, todos os dias, na sexta-feira santa fechavam.

Era o feriado mais “pesado” dentre todos. Até a comida era diferente. Sem carne, sem exagero. Clima de velório mesmo.

Depois, a coisa foi mudando, afrouxando, e a sexta-feira santa virou um feriado comum. Com todas aquelas ousadias profanas dos demais dias. Música alta de todo tipo. Brigas, palavrões, comércio, agitação e os pecados de sempre.

Parece que ninguém mais liga para o fato de terem crucificado Jesus. Muito menos para o dia em que é lembrada a tortura e morte dolorosa daquele que mandava que nos quiséssemos bem.

João, o evangelista, conta, a propósito do que Ele dizia, o seguinte:

“Quem possuir bens deste mundo, e vir seu irmão sofrer necessidade, mas lhe fechar o seu coração, como pode estar nele o amor de Deus? Meus filhinhos, não amemos com palavras nem com a língua, mas por atos e em verdade”.
(I Jo 3, 17-18)

E tem aquela, famosa, do que Ele teria deixado como mandamento:

“Se alguém disser: – Amo a Deus – mas odeia a seu irmão, é mentiroso. Porque aquele que não ama seu irmão, a quem vê, é incapaz de amar a Deus, a quem não vê. Temos de Deus esse mandamento: o que amar a Deus ame também o seu irmão”.
(I Jo 4, 20-21)

É… de fato, imersos nisto em que transformamos o mundo, não faz sentido reverenciar o dia em que Jesus foi morto pela primeira vez. Assim como também perderam o sentido o sábado de aleluia e a Páscoa.

Nossos ódios diários matam o amor e seus profetas todos os dias. E é claro que não iríamos permitir que ressuscitassem ao terceiro dia. Coelhos saem de todas as tocas, toneladas de chocolate entopem todos os sentidos, fortunas são depositadas nas caixas registradoras dos templos de consumo para que a tal ressurreição, se ocorrer, nem seja notada.

Em todo caso, cá no meu canto, remoendo as lembranças distantes, do tempo em que o mar vinha até aqui e ali pra cima era tudo mato, acho que amanhã vou fazer pelo menos um minuto de silêncio. Nem tanto pelo Jesus esse de quem tantos falam tanto e tão poucos entendem a mensagem, mas principalmente por nós todos.

A gente está conseguindo, com espetacular competência, matar a esperança. Os bens preciosos da cultura, do entendimento, da cordialidade e da boa convivência estão escasseando assustadoramente. Deixaremos, para nossos filhos, um mundo pior do que aquele que encontramos. Triste, né?

Discussão

Comentários estão desativados para este post.

  1. Ave César;
    Teus comentários estão cobertos de razão! Concordo com tido em gênero, número e grau!
    Boa páscoa amigo;

    Abç;

    Marcello
    :)

    Posted by Bion | abril 19, 2014, 09:43

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