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Jornalismo

E o jornal de domingo?

Algumas reflexões domingueiras de um velho jornalista ranzinza.

Capa de O Estado

Capa de O Estado, em 14 de abril de 1988. Lembras disso?

Em 1988, quando fui editor-chefe de O Estado, a pressão para imitar os gaúchos e “fechar” (e rodar) a edição de domingo cada vez mais cedo, já era enorme. O Diário Catarinense era, na época, um concorrente ainda correndo atrás da liderança. Com a ajuda do Flávio de Sturdze, meu sub-editor, conseguimos montar uma equipe de primeira, com vários jornalistas “tirados” do DC. Não tinhamos, portanto, grandes problemas quanto ao conteúdo oferecido aos leitores e em várias edições eles comeram poeira. Mas a questão do final de semana era um pepino para administrar. Eu insistia, claro que o jornal de domingo saísse no domingo (e até concordava em que ele começasse a circular na noite de sábado). Mas o ponto principal era que eu achava que era importante ter, no jornal de domingo, o que tivesse acontecido no sábado.

A pressão cresceu quando o DC começou a colocar o jornal de domingo à venda ainda no sábado de manhã. Poucas horas depois de ter publicado o jornal de sábado, que acabou virando uma ficção, um desperdício de tempo e dinheiro. O pessoal da distribuição (e, naturalmente, o dono do jornal), viam o DC sendo vendido nas ruas de manhã, sem concorrência. Naquela hora os vendedores de O Estado (na época a venda nas ruas era significativa) não tinham produto novo para oferecer. Parecia, para o leigo, que O Estado estava “atrasado”. Mesmo que saísse (em geral no final da tarde de sábado) com noticiário atualizado e completo.

Sem ter como resistir à decisão do dono do jornal, começamos a tentar colocar na rua, junto com o concorrente, um jornal que a gente sabia que era frio (tanto quanto o deles ainda é), mas que atendia a essa pressão insana e sem lógica. Na prática, na sexta-feira, num troço assemelhado ao trabalho escravo, conhecido pela alcunha de “pescoção”, são feitas duas edições e meia (sábado, domingo e boa parte da segunda-feira). Um “plantão” no sábado tem chances quase nulas de alterar a edição de domingo. Trabalha mais para nutrir a edição de segunda-feira.

Por isso, um evento como o de ontem à tarde, na SC 401, não tinha nenhuma chance de ser publicado no jornal de “hoje”. O jornal de “hoje” já estava impresso na manhã de sábado. É (mais) uma dessas coisas criadas sabe-se lá por quem, para economizar uns trocados, que acabou se calcificando, virou pedra e agora ninguém consegue mexer.

Menos mal que agora a pressão é para manter equipes suficientes para atender a demanda de informação online. Que está “na rua” 24h. Mesmo nos sábados e domingos. O “pescoção”, que já parecia sem sentido em 1988, fica cada vez mais surrealista.

UPDATE DA TARDE DE DOMINGO

Lá no Facebook o Valdir da Silva O Catarina deixou um comentário bem interessante, com algumas informações sobre a origem dessa antecipação dos jornais de domingo:

Valdir Da Silva Ocatarina: Um pouco da história das edições de domingo sair aos sábados. Essa cultura é, por incrível que pareça do antigo Correio do Povo, da Caldas Júnior, nos anos 70. O Correio jornal tradicional com uma tiragem imensa aos domingos, com base num número alto de assinantes e um forte classificados aos domingos que já saia sábado a tarde, para atender os anunciantes e usuários desses anúncios que já iam para Rua da Praia, onde era impresso o Correio. Como cada vez aumentava mais os anúncios classificados do jornal, mais cadernos eram feitos, pela limitação de páginas que a impressora tinha. Dessa forma mais cadernos impressos, precisavam antecipar rodagem dos mesmos para encartes, aí começou outra cultura, como sabia os horários das rodagens dos cadernos, cada segmento, móveis, imóveis, carros, motos e no fim de empregos iam para a porta da Caldas Júnior os interessados nos seus respectivos negócios, logo, logo fazendo por parte dos funcionários das rotativas o cambio negro dos cadernos classificados. Aí começa a Zero Hora, quereno ganhar espaço dos jornais da Caldas. Começou a antecipar a rodagem do jornal de domingo para sábado e disputar esse mercado direto na porta do concorrente, na rua da Praia. Depois conto mais”.

BÔNUS

Um videozinho que fiz pra convidar o pessoal para o primeiro reencontro de ex-funcionários de O Estado, em 2011.

Dinossauros de O Estado (2011) from Cesar Valente on Vimeo.

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