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Jornalismo

A opinião e a informação

Deixa ver por onde posso começar… os colegas vão ficar meio chateados, mas não posso ficar quieto. Todo e qualquer veículo de comunicação tem direito a expressar suas opiniões. E é bom que isso seja feito da forma mais clara possível. Por isso, historicamente, os veículos usam um espaço especial para se posicionar, os editoriais.
A RIC publicou hoje um editorial sobre a questão da UFSC. Exerce seu direito e, ao caracterizar claramente como editorial, respeita seus leitores e espectadores.

Mas, no RIC Notícias de ontem e de hoje apresentou, como se fossem reportagens, verdadeiros “editoriais”, onde a opinião da rede contaminou (e, a meu ver, corrompeu) o que deveria ser “apenas” noticiário. O jornalismo escondeu-se debaixo do tapete, morto de vergonha e emergiu na tela, com a pompa e circunstância que costuma usar, a opinião editorializada.

Uma pena. Porque, se fez uma coisa certa e louvável, que é apresentar publicamente sua posição no editorial, a RIC escorregou amadoristicamente ao permitir que fossem ao ar “reportagens” opinativas.

E precisava disso? Claro que não. Uma boa reportagem sobre o que ocorreu hoje e ontem na UFSC, acabaria passando para o espectador, com informações, uma sensação semelhante àquela que quiseram impor apenas com adjetivos.

Não houve, aparentemente, preocupação com o jornalismo. Houve a preocupação em derrotar um adversário. Engajou-se, a emissora, numa tarefa que talvez, à primeira vista, pode ter parecido nobre e merecedora de seu comprometimento. Abandonou-se, com isso, o bom e valioso caminho da informação descolada da opinião.

E não estou falando isso porque pretenda defender os pixadores da reitoria ou os maconheiros. Muito menos porque seja contra o cumprimento da lei. Estou falando apenas porque me preocupo com o jornalismo e sua credibilidade.

A opinião é barata. Tal como esfínqueteres, fígados e patelas, todos temos. Sei disso porque desde 2005 produzo colunas de opinião, dou pitacos sobre mil coisas. Tenho opinião formada sobre rigorosamente tudo. E não vejo grande vantagem nisso. Vejo, ao contrário, enorme valor nos colegas que vão ao locais, perguntam, tomam chá de cadeira, ouvem desaforos, pesquisam, garimpam e ao final produzem um belo texto recheado de informações. Que não têm compromisso com a opinião do veículo, ou desta ou daquela corrente. Têm compromisso com o leitor/espectador e com a exatidão do que publicam.

Por isso, perder dessa forma a oportunidade de informar com o distanciamento possível e com a profundidade que os valiosos minutos de TV permitem, enche-me de vergonha alheia. Vergonha inclusive pelos colegas da RIC cujo profissionalismo e respeito ao jornalismo são conhecidos por muitos de nós.

Espero que tenha sido apenas um deslize editorial. Como foi aquele caderno do Bokarra no DC. E que, depois de discussões internas, cheguem à conclusão que havia outras maneiras de enfrentar o caso.

E para não acharem que se trata de bater num em favor de outro: a notícia que a RBS publicou hoje, sobre o papel da professora Sônia Maluf no confronto da terça-feira, usando apenas o que a Polícia Federal divulgou, é outro momento triste para o jornalismo. Custava ter ouvido a professora? Conversaram com ela sobre outros assuntos, sabiam como entrar em contato, mas preferiram prestar um serviço à PF, servindo apenas como porta-vozes acríticos. E obedientes.

Pra encerrar: sim, embora os conceitos ancestrais de “esquerda” e “direita” tenham sofrido alterações, diante de tudo o que foi dito (e bradado) nas tais “redes sociais” nos últimos dias ficou mais fácil notar quem é quem. E que há lados opostos. Talvez não só dois, mas com certeza opostos. E eu fico feliz em notar que, aos 60 anos, continuo onde sempre estive, com poucas e compreensíveis variações.

“Que vivan los estudiantes
Jardín de nuestra alegría
Son aves que no se asustan
De animal ni policía
Y no le asustan las balas
Ni el ladrar de la jauría
Caramba y zamba la cosa
¡Qué viva la astronomía!”

Mas, por favor, que paguem pelos danos que por acaso tenham feito à reitoria, na ocupação. Um beijo do vô e bom finde.

Discussão

Comentários estão desativados para este post.

  1. A RBS, a tempos alvo de chacota nos níveis médios de instrução, agora vira mico na era da informação livre(internet).

    Estaleiro OSX, Ponta do Coral e “BITCH” clubs são piadas fáceis em qualquer roda.

    Tomando pau do Hélio Descoxta em audiência, bate o desespero no antes monopólio de mídia da época dos marechais.

    Posted by Na Real | março 28, 2014, 23:46
  2. Professor, depois da Ufsc e dentre outras diabruras, ralado na editoria de policia de O ESTADO, quando junto ao querido Cachorrão, Angelo, Pedro Fernandes e outros tantos amigos, com um fotografo (Gilberto Onça, Sarará, Luiz Carlos, Marco e Caio César) passávamos todo santo dia em ao menos 5 dps, pf, cpp, deic… não existia celular, ainda recebíamos material das agencias por telex, o fax surgia, creio poder criticar: ainda não sei se o rapaz foi preso, pra onde foi levado, se foi lavrado um TC, fiança, se está solto, qual a acusação… ainda não li a NOTÍCIA, um mísero leadzinho em qualquer lugar. Abç de um aluno que curtiu muito participar do início do curso de Jornalismo na UFSC, cuja excelência reconhecida deve muito ao trabalho embrionário de seus “fundadores”, incluído merecidamente o Brito, nosso web polêmico da terceira idade.

    Posted by PAULAO | março 29, 2014, 05:41
  3. Realmente, aquelas reportagens longas, cheias de adjetivos, em tom grandeloquente, quase sempre feitas por um jornalista que se coloca em alta conta, acabam minando a credibilidade de todo o telejornal da RIC.
    Falta um editor com discernimento, que saiba impor limites às vaidades dos seus repórteres.

    Posted by Rudi | março 30, 2014, 10:44
  4. Valente, depois de décadas administrando a UFSC, aquela entidade sombria não digeriu a derrota (como não digere qualquer derrota) e já está em franca campanha. E para essa obscura e maléfica senhora, todos os adversários são inimigos e inimigos se combate assim, com ferro e fogo.

    Posted by Ubiratan Canela | março 31, 2014, 08:50
  5. Valente, depois de décadas administrando a UFSC, aquela entidade sombria não digeriu a derrota (como não digere qualquer derrota) e já está em franca campanha. E para essa obscura e maléfica senhora, todos os adversários são inimigos e inimigos se combate assim, com ferro, fogo, contra-informação e muita conspiração.

    Posted by Ubiratan Canela | março 31, 2014, 08:54
  6. Cesar, quanto mais leio os materiais produzidos pela sequela do inconformismo, mais admiro o José Mujica, de uma aula, no Canal Livre (30/03), de Democracia, transparência, coerência, sobretudo, esbanjando sabedoria, nossos esquerdistas precisam sentar nos bancos de sua escola.

    Posted by Marisa Rosa | abril 1, 2014, 14:21

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