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Caraminholas

Posso falar?

Criticar uma operação desastrada da polícia não significa ser a favor do crime que eles alegavam pretender combater. Achar que tem mais coisas do que apenas cinco usuários de maconha na operação da polícia federal (a tal que começou com um jeitão atipicamente atabalhoado), não significa endosso ao discurso de defesa da “autonomia ampla e irrestrita a qualquer custo” que alguns mais exaltados estão brandindo.

A quem interessa criar um fato de grande visibilidade, que deixe mal a reitora em ano eleitoral, que passe a imagem de falta de controle, de “caos”, de complacência com o crime? E que desqualifique uma das melhores universidades públicas do país, reduzindo-a a uma “república de maconheiros”?

Parece uma teoria da conspiração muito improvável? É, parece. Mas tem algumas pontas soltas:

1) por que a polícia federal se mobilizou numa operação para prender, ainda que em flagrante, apenas cinco usuários de maconha?

2) por que fez isso dentro (ou próximo) de uma lanchonete de universidade, de um jeito que não tinha como não chamar a atenção?

3) por que entraram com um carro descaracterizado numa área do bosque cujo acesso a veículos está proibido (alguém da segurança da UFSC abriu a cancela, claro), chamando ainda mais atenção?

4) por que um policial com touca ninja (e pelo que consegui ver, da polícia federal) quebrava um dos vidros do carro de vigilância da UFSC, como mostram os vídeos, antes das duas “viaturas” serem abandonadas?

5) por que as duas “viaturas” foram abandonadas diante do grupo de estudantes mais agitados depois de tanto esforço do choque, com balas de borracha e bombas, para liberar o “perímetro”? Queriam ver o que aconteceria? Agora os idiotas que caíram na armadilha como uns patinhos, perfeitamente identificáveis nos vídeos e fotos, serão processados por depredação de bem público federal.

6) o destempero verbal do Super PF parece ter sido apenas isso: respondeu com o fígado a uma nota que julgou injusta e incorreta. Mas é claro que ajudou bastante ao processo como um todo, ao desqualificar a reitora, tratando-a como pessoa mentirosa, sem caráter e conivente com o crime.

Enquanto isso, nas “redes sociais”, a malta se diverte. Acham um absurdo a autonomia universitária, acham que o único objetivo é proteger o ilícito e que a polícia tem o direito de fazer qualquer coisa, a qualquer hora, a qualquer pretexto, na sua nobre tarefa de combater o crime.

Mas, assim como estudantes não estão acima da lei nem os delinquentes devem ter privilégios, a ação que visa garantir a segurança também precisa ter controle e propósito claro. E, mais uma vez:

a) querer que criminosos sejam presos e processados não significa dar carta branca para as “forças de segurança”; e

b) querer que a polícia atue com inteligência, competência e eficiência não significa que queremos deixar criminosos livres e impunes.

Discussão

Comentários estão desativados para este post.

  1. Cesar Valente, para conhecimento:

    Prezados Colegas,
    Apenas para contribuir com a elucidações dos fatos e não ficarmos apenas com uma versão, em relação ao que está página da UFSC, abaixo, transcrevo o depoimento do Teles, e técnico-administrativo da UFSC, segurança do DESEG, que estava participando do evento no bosque:

    Não posso ser conivente com a MENTIRA!
    Estão tentando deturpar os fatos ocorridos no Bosque do Planetário da UFSC, dizendo que a Policia é que, quem teria quebrado os vidros das viaturas.
    Afirmo que isto é uma MENTIRA, pois sou testemunha ocular e tenho registrado em imagens feitas no interior da viatura, pois lá me encontrava tentando proteger a integridade fisica minha e do aluno que lá se encontrava detido.
    Nós viramos alvo das PEDRAS lançadas pelos “estudantes”, mesmo estando sem ter como sair do local, pois já haviam esvaziados os 4 pneus e ficamos sem bateria, devido a tempo prolongado de negociação (aprox. 4h), resultando no travamento das portas.
    E após ter saído do interior da viatura covardemente eles continuaram a me APEDREJAR sem eu ter esboçado nenhuma ação em relação aos “estudantes”.
    Se eu não tivesse me esquivado, poderia estar agora fazendo companhia ao cinegrafista da bandeirante, e eles alegando que não foi intencional e sim uma fatalidade.
    NÃO ADMITO MENTIRA DITA POR PESSOAS QUE LÁ NÃO SE ENCONTRAVAM, E QUE TOMAM CONCLUSÕES BASEADAS EM UMA ÚNICA VERSÃO DOS FATOS, SEM MESMO PROCURAR OUVIR TODOS OS ENVOLVIDOS.

    Posted by Cego | março 27, 2014, 12:22
  2. Cesar! Nada mais democrático que os estudantes decidirem se a polícia pode ou não agir dentro do Campus!
    O que vc acha dos acampados terem tirado a bandeira do Brasil e terem hasteado a bandeira vermelha do Comunismo? Pode isso Arnaldo? Estou esperando ainda um belo post seu sobre a carnificina da ditadura Venezuelana, bem como agora do escândalo da petrobras!
    Abraço!

    Posted by Marcelo | março 27, 2014, 13:21
  3. Cego e Teles: sobre a questão dos vidros quebrados, não se trata de ouvir uma única versão. É possível ver, nos vídeos gravados na hora do confronto, que num determinado momento os policiais fardados quebram os vidros da viatura da UFSC. Por que fizeram isso é a pergunta. Talvez estivessem tentando pegar alguém que estava lá dentro. O fato pode ter ocorrido depois que o Teles saiu dali, mas não dá pra dizer que não aconteceu, porque ficou gravado nas imagens.

    Posted by Cesar Valente | março 27, 2014, 15:21
  4. Marcelo, falei sobre isso no tuíter: que um idiota qualquer, diante de um mastro vazio, resolva hastear qualquer coisa, até se entende. O que não se entende é que a reitora e seus pró-reitores (e até seu chatíssimo chefe de gabinete), depois de terem visto isso, não a arrancassem. Sobre a Venezuela e o escândalo da Petrobras não pretendo dar pitacos por enquanto.

    Posted by Cesar Valente | março 27, 2014, 15:24
  5. Não gosto de usar o tuiter! Mas espero o seu post, pois acho vc mto claro e estamos passando um momento muito delicado e ando muito preocupado! Estou no aguardo!

    Posted by Marcelo | março 27, 2014, 15:45
  6. Lá tem um laoratório de drogas sintéticas, era esse o segredo da operação. Ta rolando droga a dez anos direto na UFSC, só tem maconheiro e comunista.

    Posted by juca | março 28, 2014, 14:34
  7. César,

    Opiniões quanto as tuas perguntas:
    1)Como policial, te garanto isto: não se chega ao traficante com bola de cristal. A investigação tem que se iniciar em algum momento, um informante, um usuário que passa (sabendo ou por descuido) dados relevantes, etc. Além disto, é importante documentar a existência do ilícito (conceito chamado materialidade da prova). Se há uso, há alguma forma de tráfico – assim pode um juiz te conceder os mandados necessários…

    2)Como TODOS ex-estudantes da UFSC podem te contar, as proximidades do CFH são, infelizmente, local de uso de entorpecentes. Seja perto da cantina, no bosque (poucos metros atrás), estacionamento…

    3) Possivelmente não desejavam ser vistos – ou foi ali que ficou em razão do início das abordagens (saída rápida da viatura, etc.). Honestamente acho pouco relevante.

    4)O policial do Choque, como mostram algumas filmagens, tentava ajudar (eu sei…) funcionários da UFSC de dentro do carro – ilhado pelos alunos. Mas não chegou a quebrar o vidro. A touca é prache – evitar represálias – embora use o nome na tarja no peito. E dá, sim, pra ver que se trata do mesmo fato, em ambas filmagens (repara no policial e na continuidade – na saída/condução do estudante).

    5) Boa pergunta! Só quem estava no local pra responder…

    6) Acho que me sentiria como ele se a reitora mentisse publicamente (como fez) para ganhar benesses de uns poucos arruaceiros. Há o pedido da UFSC pra que houvesse investigação; há o uso fantasioso ou muito mau intencionado da autonomia da universidade (meramente administrativa, jamais para impedir uma ação policial contra delitos – basta ter a mínima noção de Direito); o discurso político tentando mudar o foco da questão, como se ela fosse a vítima perseguida pelo governo de extrema-direita e por aí vai. Ninguém é de ferro.

    Pra mim, a questão se resumiria assim: A abordagem foi legítima? A polícia tinha opção de não aplicar a lei, tão logo encontrou os baseados? Os estudantes e professores podiam impedir a prisão ou desrespeitaram o Código Penal? Qual argumento legal existente pra isto? O resto foi escalonamento e politicagem bem rasteira.

    Posted by Diego | março 29, 2014, 18:53

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