// você está lendo...

Caraminholas

A grande enchente

Nasci em Florianópolis e fui levado logo em seguida para Tubarão. Morei lá de 53 a 63. Ao chegar de volta a Florianópolis, no comecinho de 64, para cursar o “ginásio” no Colégio Catarinense (depois, claro do “exame de admissão”), trazia boas lembranças de uma infância divertida, onde as enchentes frequentes tinham papel importante… na diversão.

Casa em Tubarão

A casa onde morei. Aquela era a janela do meu quarto. Enchente de 1954.

Aquela casinha com água no porão era onde eu morava. A janela do meu quarto está assinalada. Essas fotos foram tiradas em 2 de abril de 1954 (há 60 anos!), provavelmente pelo meu pai, porque estavam entre as coisas que ele guardava, mas pode ter sido por algum amigo ou vizinho. Claro que desta aí não lembro (era ainda um bebezinho), mas lembro de algumas outras, quando tinha entre 7 e 10 anos, que eram mais ou menos parecidas: enchia a garagem, mas não atingia o piso onde a gente morava. E um pedaço de rua na frente nunca enchia, o que permitia sair em direção ao trilho do trem e ao morro que ficava em frente.

Enchente de 1954, Tubarão

A minha casa, à esquerda. Outro ângulo da mesma enchente de 1954.

Esta outra foto, feita na mesma data, mostra os fundos da nossa casa (à esquerda) e as casas de uma espécie de vila, da família Medeiros. O seu Ageu Medeiros (farmacêutico conhecido na cidade) morava naquela casa grandona, ao lado da nossa.

Depois que saí de Tubarão, no final de 1963, fiquei muito tempo sem voltar. Passava por ali, quando ia para Porto Alegre onde morei a partir de 1973. Mas não parava. No dia 25 de março de 1974, quando cheguei no jornal Diário de Notícias de Porto Alegre, onde trabalhava como repórter, só se falava numa enorme enchente que estava ocorrendo em Tubarão. Claro que me apresentei como voluntário para ir até lá. O jornal era pequeno, desorganizado, complicado, mas consegui autorização. Imagino que o fato de não precisar de muito dinheiro para diárias (meus pais moravam em Florianópolis) e me dispor a também fotografar, ajudaram os chefes a mandar aquele “foca” para Tubarão.

Chegar a Florianópolis (de avião) foi a parte fácil. Imaginava pegar o carro do meu pai e ir até Tubarão. Mas quando cheguei à capital já se sabia que ninguém entrava na cidade. A situação era de calamidade mesmo e a cidade estava isolada. Só entravam militares ou gente com autorização.

Não lembro exatamente como cheguei a isso (provavelmente os colegas de O Estado ajudaram), nem quanto tempo levou, mas lembro da viagem para Tubarão, de carona numa rural willys alugada por um repórter da Associated Press (talvez tivesse também alguém do JB, mas não tenho certeza). Já tinha acabado de chover e, ao entrar na cidade, coberta de lodo, o cheiro forte deixou uma impressão indelével na memória. Instalei-me na sucursal de O Estado, que ficava perto da catedral, num local elevado e que não tinha sido atingido pela enchente.

Assim que pude, fui até a minha antiga casa, aquela das fotos acima (que não era mais nossa, fora vendida uns anos antes), para ver como estava. O lodo espesso e profundo cobria tudo e umas tábuas permitiam chegar até a porta, que estava aberta. Entrei e, apesar de não morar ali há dez anos, senti o choque. As marcas da água iam até o teto. As pias, do banheiro e da cozinha, estavam cheias de lodo. O maleiro, no alto do armário de alvenaria do corredor, lugar encantado onde os presentes do Natal e de outras datas eram escondidos para que eu não visse, também estava com lodo.

Marca da enchente de 74

A altura que acho que a água chegou na enchente de 74

Marcas de 74

Nos fundos da casa. As janelas do canto eram do quarto dos meus pais.

Pelas marcas que vi dentro da casa, acho que a água chegou mais ou menos nessa altura que assinalei nessas fotos acima, que são detalhes das outras fotos. Pode ser um pouco menos, mas não muito. Imagino o terror de quem estava nas casas, o pavor de ver a água subindo e carregando tudo.

Foi um trabalho penoso, escrever sobre a enchente que matou tantos e causou tantos prejuízos à cidade onde passei a infância. Lamentavelmente, não guardei os jornais com as reportagens e, a esta altura, acho difícil encontrar uma coleção daquela época.

A FOTO DESAPARECIDA

Foi também nessa ocasião que sepultei, por muito tempo, a vontade que eu tinha de ser repórter fotográfico. Fiz muitas fotos para o jornal, que ilustraram as reportagens. Mas um dia, estava perto do campo onde pousavam os helicópteros miltares (ao lado da catedral) e comecei a fotografar um helicóptero que estava chegando. Um muro não me deixava ver o local do pouso. Corri ao redor, até achar um bom lugar e pude ver o exato momento em que o helicóptero, já quase no chão, perdeu força e desabou, caindo pesadamente e virando de lado. E eu ali, clique e clique. Não houve feridos graves, nem explosão ou incêndio (apenas fumaça), mas foi um acidente sério.

E eu tinha, no meu filme, o aparelho no ar e depois no chão. Uma reportagem fotográfica completa, que certamente poderia ser vendida para todos os veículos, inclusive para o meu amigo, o gringo da Associated Press. Revelamos às pressas, na sucursal de O Estado e aí veio a grande supresa: não tinha nada. O filme estava virgem. O foca burro, inexperiente, não tinha engatado direito o filme e ele não avançou. Claro que, a partir daí, assim que retornei a Porto Alegre, aposentei a câmera e desisti de fotografar profissionalmente. Fiquei um bom tempo brabo comigo, com raiva desse incompetente. Ainda não me perdoei completamente, mas já convivemos sem grandes atritos..

Essa falha pessoal não poderia ter ocorrido num momento pior. Ver o que sobrou de Tubarão e ter que contar o que vi e o que consegui saber como se eu não fizesse parte daquele drama, foi uma experência dolorosa por si só. Anos depois eu ainda achava que teria sido melhor se eu não tivesse ido lá como repórter. Mas os jovens são assim. Não pensam muito antes de fazer. E acabam passando por coisas que deixam marcas profundas. Não tão profundas, evidentemente, quanto as marcas que aquela enchente deixou em quem estava lá quando as águas subiram. A esses, muitos dos quais eu conhecia pelo nome, só posso deixar minha solidariedade e votos de que nesses 40 anos tenham conseguido reerguer-se e superar a dor das perdas.

Discussão

Comentários estão desativados para este post.

Comments are closed.

Posts recentes

O fim de uma era
23 de maio de 2014, 17:27
Por Cesar Valente
E aí? Abandonou o blog?
6 de maio de 2014, 17:46
Por Cesar Valente
Brasília real aos 54 anos
28 de abril de 2014, 22:12
Por Cesar Valente
Beleza e crueldade
28 de abril de 2014, 22:01
Por Cesar Valente
A semana dos enigmas
17 de abril de 2014, 8:09
Por Cesar Valente

Arquivos