// você está lendo...

Florianópolis

Amor antigo 11

Fpolis 288

Ilha da velha figueira

Forte de São José da Ponta Grossa

Foto Lúcia Valente/Palhares Press

4/1/2004

PROSA DOMINGUEIRA

Quando o primeiro bando de paulistas quebra as primeiras placas de sinalização na primeira praia e espanca quem os tenta impedir, a gente sabe que a temporada de verão em Florianópolis começou. Quando a conta do restaurante habitual, mesmo com a pedida de sempre, quase dobra de valor, a gente sabe que a temporada começou. Quando as ruas engarrafam inexplicavelmente e é preciso montar esquemas especiais para ir e vir, a gente sabe que a temporada…

Pobre Florianópolis

Cidade de veraneio que não nasceu pra isso. Tratam-na como se fosse assim uma Balneário Camboriú, que cresceu exclusivamente em função do verão e do pessoal que chega no verão. Florianópolis é apenas uma cidadezinha pacata, habitada por criadores de curiós, pescadores de tarrafa, contadores de histórias e funcionários públicos. Não está preparada para ser o objeto de cobiça de um país inteiro. Muito menos de um País do tamanho do Brasil.

A cidade está dividida entre os que esperam ansiosamente pelo verão, meses escassos de calor em que poderão tirar o pé da lama, ganhando o dinheiro que os sustentará no restante do ano e aqueles que não agüentam ver essas hordas de veranistas pra lá e pra cá, com seus carros cheios de gente e tralha, suas infinitas latas de cerveja, seu som alto, seu desrespeito pelos anfitriões.

Pobre Florianópolis

Estou também dividido, porque não sei se torço para que chova e faça frio o verão inteiro ou se quero receber os amigos, que sempre vêm, com o sol e o mar que sempre tivemos. Fosse rico, poderia fugir daqui nesta época. Ir para alguma dessas cidades que ficam vazias no verão. Para o lugar de onde sai essa gente toda que se atropela nas praias e ruas de Florianópolis.

Talvez fosse uma boa instituir a reciprocidade, tal como preoconizada pelo juiz que mandou fichar os americanos. Cada vez que um turista fizer xixi no meio da rua na Lagoa, alguém vai a Sorocaba fazer xixi na frente da casa dele. Cada vez que um vândalo arrebentar placas, jogar papel no chão e derrubar luminárias, alguém vai a Ponta Grossa ou que outra cidade seja, dar-lhe o troco. Cada vez que um carioca estacionar sobre a calçada, alguém vai ao Rio…

Mas é claro que isso não vai adiantar, porque esse pessoal que não nos respeita, também não está nem aí para a cidade deles. Falta-lhes, como a tantos, em tantos países, educação para a vida em sociedade. Muitos movem-se com o mesmo combustível que inicia as guerras: a intolerância assentada numa base sólida de ignorância.

Pobre Florianópolis

Ainda bem que a temporada este ano é mais curta: o Carnaval é em fevereiro. Só precisamos sobreviver mais uns 52 dias.

Discussão

Comentários estão desativados para este post.

Comments are closed.

Posts recentes

O fim de uma era
23 de maio de 2014, 17:27
Por Cesar Valente
E aí? Abandonou o blog?
6 de maio de 2014, 17:46
Por Cesar Valente
Brasília real aos 54 anos
28 de abril de 2014, 22:12
Por Cesar Valente
Beleza e crueldade
28 de abril de 2014, 22:01
Por Cesar Valente
A semana dos enigmas
17 de abril de 2014, 8:09
Por Cesar Valente

Arquivos