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Florianópolis

Amor antigo 7

Fpolis 288

Jamais algum poeta

Ponte Hercílio Luz

Foto: Cesar Valente/Palhares Press

24/11/2002

ILHA DA MAGIA. MAGIA?

Na sexta encontrei Rosane Porto no bistrô do Flávio Sturdze e da Grace Dias (Monsieur Cognac, na Lagoa). Rosane é jornalista, professora na Unisul, e a nossa enviada especial ao Continente. Mora, trabalha e vive do lado de lá da ponte. Sempre que a gente se encontra ela cumpre sua função de correspondente, contando como é a vida lá. Kobrasol, São José, Palhoça, Barreiros, Biguaçu, formam um País que muitas vezes é ignorado ou esquecido por quem vive na Ilha (e, de certa forma, esta é a idéia: ilhar-se). Só que certamente já tem mais habitantes que aqui, escolas de todos os níveis, comércio e serviço de todos os tipos. E continua crescendo.

A vitalidade do Continente, parece, está muito ligada ao fenômeno do “vou para Florianópolis” que tem ocorrido com inúmeras famílias paulistas e cariocas. Não é difícil encontrar prédios residenciais totalmente ocupados por moradores que vieram há pouco tempo (menos de dez anos) para cá.

E em muitas das famílias, alguém vive na ponte aérea Hercílio Luz-Congonhas. Porque a região (ilha inclusive) não tem uma economia que consiga absorver e dar remuneração adequada a todos. Quem tem um emprego ou fonte de renda razoável fora, não pode abandonar, porque não consegue coisa semelhante aqui. Mesmo que baixe significaticamente suas expectativas e seu nível de vida.

A enorme propaganda positiva que Florianópolis tem recebido faz com que muita gente ache que vindo para cá – como se trata de um paraíso – encontrará um lugar seguro, tranqüilo, bonito, cheio de gente interessante, onde poderá viver com metade do que vive em São Paulo e certamente viver por muito mais tempo que lá. Isso é verdade só em parte.

Segurança

Como gostam de dizer as autoridades policiais locais, para justificar seus insucessos, “tá vindo gente boa, mas também tem vindo muita gente que não presta”. Ou seja, temos todos os “produtos” que as grandes cidades têm. Aqui tem assalto a mão armada dentro de ônibus, seqüestro relâmpago, tiroteios em zona de traficantes, assassinatos por motivos banais, furtos, roubo de carros, roubo a bancos e caixas eletrônicos, a lista completa. Instalaram, em algumas esquinas do centro, aquelas câmeras de vigilância, para inibir a ação dos ladrões e ampliar um pouco mais a ação da polícia. Mas é preciso estar atento da mesma forma que nas demais cidades grandes.

Beleza

A natureza foi muito generosa com Santa Catarina e por décadas o homem (e a mulher) fizeram muito esforço para devolver o presente. Cada vez que alguém construía uma casa à beira mar, não tinha a menor dúvida, puxava uma canalização de esgoto direto até a praia. Era assim na ilha e no continente. A preocupação com a “balneabilidade” é coisa mais ou menos recente. Decerto depois que algum argentino reclamou de ficar nadando ao lado dos “marinheiros” (que era como conhecíamos os troços que ficavam boiando).

A ilha tinha uma pequena rede de esgotos que atendia o centro, feita no começo do século passado, mas, até onde sei, sem estação de tratamento. Hoje a rede é maior, o continente também tem algumas áreas cobertas, com estações de tratamento. Só que ainda está longe de coletar 100% do esgoto sanitário (no estado todo, segundo a senadora recém-eleita Ideli Salvatti, “só 6,8% das residências têm esgoto tratado”). As fossas, em grande parte das residências, ainda têm suas saídas ligadas à rede de esgoto fluvial.

Das 42 praias, um número grande só serve mesmo para aparecer na lista e nas fotografias. Muitas daquelas em área de baía, com águas tranqüilas, boas para levar crianças pequenas, estão impróprias para o banho. Veja aqui os boletins da Fundação do Meio Ambiente, com as condições das praias de Santa Catarina. A foto de cima mostra uma das praias do Ribeirão da Ilha e a de baixo, um dos Ganchos, em Governador Celso Ramos. As duas, segundo o último boletim da Fatma, de 30 de outubro, estão boas para o banho.

Subsistência

Morar em Florianópolis, de fato, não é pior que morar em Porto Alegre, Curitiba, Rio ou São Paulo. Mas trabalhar e ganhar a vida aqui é muito mais complicado. Primeiro porque é uma cidade cuja economia tradicionalmente girava em torno do funcionalismo público. Durante muitos anos, ser a sede do governo foi a única fonte significativa de renda da cidade. Isso tem mudado, para pior: os governos estão encolhendo, os salários de seus funcionários estão reduzindo (tecnicamente “não aumentando”) e as privatizações estão cumprindo sua parte nesse processo.

A região não tem um parque industrial forte. E o turismo, atividade que poderia dar algum suporte econômico e emprego, tem na realidade três ou quatro meses (dependendo das chuvas e de quando cai o Carnaval) de atividade a plena carga e o resto do ano quase pára. Estamos bem mais ao sul que a Bahia e o Ceará. Aqui as águas do mar são renovadas por correntes que vêm da Patagônia. A gente costuma dizer que em maio e novembro só quem entra na água são os paulistas e os gaúchos (os argentinos, quando vinham, apareciam só no verão mesmo). Isto amplia um pouco a temporada. Mas não resolve, porque nos demais meses só surfista com roupa de neoprene de tripla espessura consegue encarar as ondas.

Mesmo na temporada, a coisa não é fácil. Os navios de cruzeiro, que poderiam fazer escalas aqui, despejando cerca de mil turistas de cada vez, para dar uns passeios e comprar alguns recuerdos, têm dificuldades porque as autoridades locais não conseguem se acertar sobre a construção de um atracadouro, ou de uma estação alfandegada de recepção, essas coisas.

Largar tudo em São Paulo e mudar-se para Florianópolis é ato de desespero que beira o suicídio ou a falência, não necessariamente nesta ordem. Por isso os vôos de Congonhas na sexta e do Hercílio Luz na segunda estão permamentemente lotados. Mesmo os ônibus (que levam cerca de 11 horas) estão lotados. Gente que instalou a família em Florianópolis mas continua trabalhando em São Paulo.

Hospitalidade

Conta a lenda que o povo é bom, gentil e hospitaleiro. É verdade, mas também em parte. Os pescadores e a gente mais simples, de fato, é muito generosa, no seu jeitão açoriano de ser. Falam rápido, não é fácil entender o dialeto local, e são desconfiados no princípio, como a maior parte da gente simples de todos os lugares do País onde existe gente simples. Muitos deles ascenderam economicamente e continuam do mesmo jeito. Boas praças, bons amigos, bons caráteres. Mas tem uma “raça” de classe média que é extremamente invejosa e raivosa. Morei em São Paulo por seis anos, até o final do ano passado e meu carro ainda tem placa de São Paulo. Pois não é que já fui xingado na rua por ser “paulista”? Parece que há um sentimento de frustração cuja manifestação externa mais comum é hostilizar quem, tendo nascido fora daqui, “ousa” dar-se bem ou apenas viver “na nossa cidade”.

Fiz todas essas reflexões, aqui, a partir dos comentários da Rosane Porto sobre o crescimento do Continente. E elas acabaram, no entusiasmo desta manhã de domingo, inundada pelo sol incomparável da primavera florianopolitana, temperada pela brisa do mar, transformando-se quase num libelo: parem de vir pra cá. Mas eu, que vivo indo pra lá (já morei e trabalhei em Porto Alegre, São Paulo e Brasília), não gostaria de desanimar ninguém que queira vir. Talvez, quem sabe, apenas aconselhar a que pense bem.

Discussão

Comentários estão desativados para este post.

  1. Ave César;
    É sempre bom ouvir a opnião de um filho da terra!
    Abçs
    Marcello Bion

    Posted by Bion | março 21, 2014, 08:57

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