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Florianópolis

Amor antigo 6

Fpolis 288

Reuniu tanta beleza

Praia do Campeche

Foto: Cesar Valente/Palhares Press

14/10/2003

A DURA VIDA DOS ILHÉUS

A Ilha de Santa Catarina é um local acolhedor e seus nativos são hospitaleiros. E esta tem sido, por séculos, a nossa ventura e a nossa desgraça. Invadidos ciclicamente por estrangeiros que em pouco tempo sentem-se em casa, temos desenvolvido, ao longo dos anos, defesas tênues e engendrado vinganças pífias, que não conseguem afastar ninguém. Ao contrário, parecem adicionar ao nosso comportamento um charme rústico.

Sempre que recebemos visitantes, costumamos fazer algumas advertências e dar informações básicas. Raramente isto adianta alguma coisa, porque logo que alguma praia, algum entardecer, alguma montanha à beira-mar lhes enche os olhos, os visitantes param de ouvir-nos. E mergulham embevecidos nessa aventura cada vez mais cobiçada, que é viver na Ilha.

Mas não custa tentar mais uma vez. Em primeiro lugar, caros recém-chegados, o nome da ilha é Ilha de Santa Catarina. Nela situam-se a cidade de Florianópolis e várias localidades. Antigamente ainda cabia fazer uma detalhada resenha histórica sobre a colonização e formação desse povoado, mas modernamente isso tem sido abreviado e sintetizado: aqui moram os manezinhos, cada vez em menor número e gaúchos, paulistas, brasileiros de outros estados e argentinos cada vez em maior número.

A colonização açoriana e o jeitão português de ser, que nos enchem de orgulho, têm servido também para que vizinhos invejosos e outros visitantes de pouca cultura façam chacotas. Riem-se do jeito com que falamos, rápido, com s chiado, com melodia própria. Riem-se das expressões que usamos. Riem-se de qualquer coisa, mas não saem daqui. Instalam-se, trazem a família e levam seu chimarrão escaldante para refrescar-se sob um sol de 40° na praia.

Tentaram chamar-nos, pejorativamente, de manés. Manezinhos. E acabamos conseguindo reverter o tom da palavra. Hoje, ser Manezinho da Ilha é título honorífico, que nem todos podem ostentar. Ser Manezinho significa mais do que conhecer a história e a tradição locais, significa ter vivido essa história e honrado essa tradição.

Para os Manezinhos que trabalham em assessorias de imprensa em Florianópolis*, os tempos têm sido duros. Os veículos parecem ter desenvolvido um código de honra: só empregam gente de fora. É um tal de trocar nome, confundir endereços, ignorar precedências e desrespeitar hábitos e costumes, que a gente nem estranha mais.

Além de informar sobre o fato, o evento ou o acontecido, temos sido “assessores especiais para a integração do repórter perdido que acabou de chegar”. E este, como os outros, não irá mais embora. Ficará, apaixonado pela Ilha, pela cidade, pelas manezices. E achando graça, no final, quando a gente fala, a sério, que um dia ainda vamos dinamitar as pontes, soltar as amarras e afastar-nos para uma distância segura do Continente.

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* A referência aos assessores se justifica: esta crônica foi publicada no jornalzinho do Encontro Nacional de Jornalistas em Assessoria de Comunicação, realizado dia 9 de outubro de 2003 em Florianópolis. O encontro, que recebeu na pia batismal o horroroso nome de 14º Enjac, foi promovido pela Fenaj e pelo Sindicato dos Jornalistas local.

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