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Perdido no mar....

Catedral

Foto: Cesar Valente/Palhares Press

16/12/2003

O TÚNEL DA CATEDRAL

Desde pequeno ouvia falar que existia um túnel ligando a Catedral com… bom, dependendo da época e do interlocutor, podia ir até o Morro da Cruz, até o Hospital de Caridade, ou até a Alfândega. Tinha todos os ingredientes para ser só mais uma lenda urbana. Histórica, mas lenda.

Até que poucos dias atrás, sem aviso e quase sem querer, acabei conhecendo um dos mais bem guardados segredos da velha Desterro. Não sei se conseguirei contar tudo, com todos os detalhes (afinal, ainda é segredo), mas não resisto e pelo menos revelarei algumas pistas.

Gostaria que vocês compreendessem que não é pouca coisa que está em jogo e que, portanto, vou deixar algumas perguntas sem resposta. Por exemplo: o dia em que fiz a descoberta e a identidade da pessoa que me revelou o segredo. São dados confidenciais e pretendo honrar a confiança de quem me permitiu viver momentos tão emocionantes.

Na hora marcada, entrei na sacristia da Catedral. Ela (sim, isso é o máximo que me permito dizer) me esperava, sozinha. Nos cumprimentamos com poucas palavras e ela em seguida dirigiu-se àquela espécie de altar onde os padres vestem os paramentos antes de cada missa. No lado, deu uma pequena pancada num ponto preciso e uma tábua soltou-se. Abriu-a e com uma chave antiga, daquelas grandes, destravou uma fechadura. E abriu uma segunda porta. Chamou-me. Pude ver, naquele vão, uma abertura, uma espécie de corredor.

Ela pediu-me para entrar primeiro, porque era preciso fechar as portas para evitar surpresas. Perguntei como faria para enxergar no escuro e ela sorriu. Estendeu o braço e acionou um interruptor acendendo as lâmpadas do que parecia ser um túnel. Entrei e comecei a descer uma escada estreita.

Ela vinha logo atrás e parecia divertir-se com a minha curiosidade e lentidão. No final da escada, o túnel dirigia-se, eu imaginava, para o norte. Não era excessivamente estreito (permitiu que ela, a certa altura, passasse à frente, para que avançássemos com maior rapidez). Resisti o quanto pude para não fazer qualquer gesto nem dizer qualquer palavra inconveniente quando realizamos a operação de passagem. O túnel exigia que praticamente nos abraçássemos para que um passasse pelo outro.

A fileira de lâmpadas terminava alguns metros adiante. Precavida, ela trouxera uma lanterna e continuava a caminhar, segura e rápida, como se tivesse feito o trajeto muitas vezes. Não é um túnel reto e tive a impressão que estávamos subindo.

Depois de uns dez minutos de caminhada subterrânea, chegamos a outra escada, tão estreita como a primeira e tão ígreme quanto. Ela subiu com cuidado e parou, como se estivesse ouvindo alguma coisa. Estava verificando se, onde sairíamos, tinha alguém.

A mesma chave da porta interna da entrada abriu a porta interna da saída. Um mesmo gesto, misto de toque e pressão, destravou o painel externo. Ela abriu-o vagarosamente, com grande cuidado. Quando viu que a sala estava vazia, chamou-me e rapidamente fechou as duas portas.

Tínhamos saído numa outra sacristia, exatamente ao lado ou ao fundo do local onde os padres vestem suas túnicas cerimoniais. A esta altura eu não tinha idéia de que igreja seria aquela. Ela sorria, porque sabia a supresa que eu teria em pouco tempo. Fomos para a nave da igreja e comecei a achar que sabia. Mas só tive certeza quando voltamos à luz solar, na porta principal e vi, do alto das escadarias, a rua Trajano.

Tínhamos percorrido, no misterioso e secreto túnel, a distância que separa a Catedral da Igreja do Rosário. O túnel existe, afinal, não é apenas uma lenda. Mas não é tão longo quanto a imaginação popular o fez. Embora ainda não saiba (e a minha gentil guia também não sabe) o motivo que levou sabe-se quem, sabe-se lá quando, a escavar tal passagem.

Para comemorar e agradecer, mostrei à minha amiga outros caminhos secretos, mais ou menos subterrâneos, sem qualquer ligação, contudo, com igrejas, lendas ou a história da cidade. Mas essa, é claro, é outra história.

Discussão

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  1. Ahhh, então agora você publica aquelas histórias de “quando o mar vinha até aqui, e ali era tudo mato…” Sempre que alguém começa com um papo mais saudosista, lembro de você. O que não significa que não seja muito bom de ler… abraço!

    Posted by Bruna Flores | março 19, 2014, 09:07

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