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Florianópolis

Amor antigo 1

A partir de agora, e enquanto durarem os estoques, republico velhas crônicas que escrevi sobre um amor antigo: Florianópolis. O pretexto é o aniversário da cidade. A vinheta abaixo identifica a série e coloco em destaque a data da publicação original. Sejam bem vindos.

Fpolis 288

Num pedacinho de terra...

26/11/2003

A ÚLTIMA DO PRATA

Nosso vizinho Mário Prata comete hoje, no Caderno 2 do Estadão, mais uma das suas crônicas a favor de Florianópolis que nos enchem a todos, manés, de susto e apreensão. Como já sabem os que acompanham este blog, na minha opinião a Ilha está lotada. Chamar mais gente é, portanto, ato irresponsável.

Pois o companheiro Mário Prata, para saudar a chegada do verão, intica com paulistanos e cariocas, falando bem até da polícia, que nas praias anda de bermuda e sandálias havaianas. Ele afirma, o insensato, que nós temos um verão tranqüilo e civilizado.

A gente sabe de tudo o que ele fala e muito pouca coisa, ou quase nada, é mentira ou exagero. Mas é tudo daquelas coisas que não se deve sair falando pela vizinhança, comentando na praça ou mesmo contando para aquela senhora muito fofoqueira.

Vai que o pessoal acredita que tudo aqui é tranqüilo e civilizado. Bandido também lê jornal. Há poucos dias um grupo entrou num prédio para assaltar apartamentos. Todos recém-chegados. Vieram em busca da tranqüilidade e dos policiais de chinelo. Um foi morto, outro preso, um terceiro escapou. A polícia recuperou os bens roubados. “Ah, então a polícia funciona? maravilha!”

Imagino um carioca, acostumado a só conversar com seus policiais para acertar a “cervejinha”, lendo o diálogo que o Mário Prata reproduz, entre uma amiga dele e o policial de sandálias. Que inveja, não? De fato, aqui dá para conversar com os policiais. Em algumas dezenas de anos, fui parado em algumas dezenas de blitzes e nunca, nem uma única vez, percebi qualquer intenção de cobrar o que fosse. Nem demora exagerada em liberar documentos, nem insinuações de problemas mais graves do que os reais.

Conheço muita gente da polícia desde os tempos da ditadura, quando, por causa de uma denúncia de um “amigo”, fui parar no Dops e lá fiz amigos. Ou quando um primo, depois da Academia de Polícia, virou oficial. Ou quando um amigo foi promovido a Capitão. Todos gente de quem eu compraria carro usado e a quem convidaria, como já convidei, para aniversários, churrascos e batizados.

Não sei agora, mas há alguns anos a formação dos policiais catarinenses era feita com muito cuidado. Já vi policiais agindo em muitas ocasiões, aqui. E vi policiais agindo em São Paulo, Brasília e Porto Alegre. Os daqui parecem ser melhor preparados para tratar com a gente. E com o pessoal que está alterado porque bebeu demais, ou que está nervoso porque bateu o carro, ou apenas fazendo alguma manifestação por salários ou protestando contra alguma coisa.

Não posso testemunhar sobre a forma como tratam os suspeitos de crimes, como lidam com a assim chamada “bandidagem”, porque faz muito tempo que não cubro polícia e não freqüento bocas, digamos, mais movimentadas. Mas acho que tratar de forma mais ou menos civilizada a população já é importante. E a população responde, acho, satisfatoriamente, com respeito e consideração.

Donde o encanto de recém-chegados com essa “tranqüilidade”. Sim, é possível andar pelo centro (desde que não seja muito tarde da noite) com os vidros abertos sem ser assaltado. Mas é possível ser assaltado nos engarrafamentos que se formam nas entradas das pontes, ainda dia claro. É possível ter uma casa boa e nunca ser assaltado, mesm o sem ter cercas eletrificadas e cães de guarda. Mas é possível ser seqüestrado, colocado no portamalas do carro e liberado (ou não), horas ou dias depois, como em qualquer grande centro.

Em algumas ocasiões a polícia age rapidamente, em outras demora, alguns casos são solucionados satisfatoriamente, outros, quem sabe a maioria, nunca, porque faltam equipamentos, gente e recursos. Ou seja, não dá para generalizar e sair afirmando que isto aqui é uma Ilha de tranqüilidade. Isso é propaganda enganosa. É mais tranqüilo do que muitos lugares, principalmente mais populosos. Mas não dá para relaxar e distrair-se.

Mas o pior, o pior mesmo da crônica do Mário foi o final. Aí ele extrapolou. Vou reproduzir o último parágrafo para que vocês mesmos julguem:

“No momento já faz 24 graus. Promete. E, com os argentinos, chegaram as cervejas geladinhas. Experimente!”

Ora, meus senhores, minhas senhoras do júri, todos sabem que em Florianópolis, no inverno, é possível encontrar cervejas bem geladas, às vezes congelando, em todos os bares e restaurantes. Mas no verão, data venia, ipso facto, quosque tandem Catilina, a coisa mais difícil de encontrar é justamente uma cerveja na temperatura certa. Pretender que, com a chegada dos argentinos (que ele saúda como se fossem andorinhas chegando, cheias de bom agouro!), os bares rompam uma tradição secular e passem a servir cerveja “geladinha”, é demais.

Até gostaria que ele tivesse razão. Mas acabo de testar, aqui num boteco próximo, e, como era de se esperar, a cerveja estava alguns graus acima do pastel, este sim, geladinho.

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