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Esportivas

A impossível convivência

Ontem não se falava em outra coisa. Em toda roda de conversa o assunto era sempre o mesmo: a baixaria dos paranaenses e cariocas na “Arena” de Joinville. E sempre que dá briga em jogo de futebol (ou antes, ou depois) a conversa volta e em geral anda em círculos. Porque não leva a lugar nenhum.

Ninguém está disposto a aplicar as fórmulas que outros países utilizaram para domar ou tirar dos estádios hooligans e bárbaros desse tipo. Exige investimento e exige, sobretudo, inteligência.

Ouvi pipocar, aqui e ali, um argumento simplista: “num evento com tanta gente é a PM que tem que fazer o policiamento, eles é que têm nourráu e os equipamentos”.

Ora, isso não tem cabimento. A gente não tem policial que chega para as suas tarefas principais (garantir a nossa segurança e do nosso patrimônio) e ainda temos que emprestar esse contingente escasso para que alguém possa ganhar dinheiro sem se preocupar com todos os aspectos do espetáculo que promove? Ora, façam-me o favor!

A responsabilidade dos promotores de espetáculos pela segurança de seus clientes é integral. Seja num pequeno teatro de 200 lugares, seja numa casa de shows para dois mil ou num estádio, com 60 mil. Meteu-se a promover esse tipo de coisa, tem que ter estrutura para tal.

Eu não autorizo nenhum governo a desviar os policiais que eu preciso para patrulhar minha rua e meu bairro, e aos quais pago com meus impostos, para consertar ou evitar as cagadas dos picaretas esportivos ou dos cartolas espertalhões. Nananinanão! Virem-se!

POST SCRIPTUM

Dito isso que disse aí em cima, que expressa o que penso sobre utilização da força pública em eventos, mesmo com grande público, podemos ir um pouco mais adiante (no DIARINHO, por causa da limitação de espaço, encerrei minha arenga antes do PS).

Vamos pegar uma matéria do The Guardian, de agosto de 2011, que mostra como a polícia se prepara para os jogos de futebol no Reino Unido. Lá, onde o futebol foi inventado, as torcidas também inventaram a violência desmedida. Mas foram contidas, depois de muito trabalho e, claro, muito planejamento. O original do artigo a que me refiro pode ser lido clicando aqui.

Abaixo coloco uma tradução mezza boca, feita às pressas por mim mesmo, para que vocês tenham uma idéia de como o assunto é tratado por lá (a segurança dentro do estádio é responsabilidade do clube). Chamo a atenção para esta informação: “para cada 250 torcedores é preciso ter um agente de segurança privada”. Olhaí:

“Como a polícia se prepara com antecedência para um dia de jogo?
Um oficial da polícia de Londres, experiente na inteligência esportiva, detalha o que é necessário providenciar antes que o jogo comece

Por Jamie Jackson
The Guardian, quarta-feira 10 de agosto de 2011 18.55 BST

Quem toma as decisões?

Cada jogo exige um certificado de segurança que tem de ser aprovado pelo Grupo Consultivo de Segurança local (SAG), e, em seguida, é assinado pelo seu presidente. O SAG é composto por membros do respectivo clube de futebol, a polícia local, bombeiros, serviço de ambulância e conselho (uma espécie de câmara de vereadores).

Se uma das partes não tem condições de fornecer um serviço necessário para garantir a segurança do evento, então cabe ao presidente do Grupo Consultivo de Segurança decidir se esse evento será realizado.

Uma das razões pelas quais um jogo pode ser cancelado num fim de semana é se os serviços de emergência sentirem que estão sobrecarregados e que não poderão fornecer o pessoal, e, por extensão, garantir a segurança dos participantes. O presidente do SAG, que é, normalmente, um membro sênior do conselho local, vai decidir, com a concordância de todos os participantes. Em Wembley, por exemplo, a FA (a CBF deles) concordou que não era sensato, naquelas circunstâncias, realizar o amistoso contra a Holanda.

Como é que cada jogo avaliado em relação à segurança?

Nós classificamos todos jogos de futebol em categorias. Alguns eventos não necessitam de policiamento e nós não precisamos participar ou ter qualquer envolvimento com eles. Caso dos clubes das ligas mais baixas, onde apenas centenas ou talvez milhares de pessoas estão presentes. Aqueles são categorizados como necessitando apenas de segurança privada e são conhecidos como “sem polícia, só com a segurança do clube”.

Depois, há a categoria A, um jogo efetivamente de baixo risco, que exige um policiamento mínimo.Talvez nenhum dentro do estádio, apenas na periferia. Categoria B é de médio risco; C, que é para eventos de alto risco, e há também o C+, para o risco ainda maior, que é, obviamente, o caso de jogos como, por exemplo, Manchester United x Manchester City, ou Tottenham contra o Arsenal.

Em Londres temos um sistema de pontuação, uma matriz, em que avaliamos a quantidade de pessoas presentes no jogo, a animosidade e a história dos dois lados e os dados fornecidos pela inteligência, e ele sai quase sempre com uma recomendação.

A categoria de um jogo pode mudar dependendo da época do ano e da hora do início. Se você reduzir a categoria, então você reduz o número de policiais necessários, e isso reduz o custo.

Quantos funcionários são necessários para as diferentes categorias de jogos?

Você não pode dizer um número específico. Ele realmente depende de que clube você está falando. Um jogo de categoria-B em Manchester entre duas equipes de lá ou entre as equipes de Londres na capital, pode ser totalmente diferente. Um evento categoria-A poderia exigir cerca de uma dúzia de policiais. Um categoria-B poderia exigir até 50, e um C, algo como 200 ou 300.

O que a polícia faz nos jogos e em relação aos agentes de segurança privada?

Em última análise, a segurança é responsabilidade do clube de futebol e do diretor encarregado da segurança. O comandante da polícia é responsável pelos recursos da polícia, e ele e o encarregado da segurança sentam lado a lado na sala de controle, e trabalham em conjunto para garantir a segurança geral.

Mas o diretor de segurança é responsável por qualquer coisa dentro desse evento. Isso pode significar que ele se vire para o comandante e diga: “Você poderia enviar alguns policiais para esse incidente, porque os agentes de segurança privada não estão conseguindo lidar com ele?”

Os agentes de segurança privada policiam efetivamente o interior dos estádios de futebol. A polícia apoia os agentes nisso. Se uma situação sai do policiamento normal e está para se transformar em desordem, a polícia toma a frente, mas novamente eles iriam trabalhar em estreita colaboração com o clube.

Cada clube tem protocolos, contingências para qualquer eventualidade. Eles praticam e treinam os procedimentos. Então, se há um pacote suspeito ou um alarme de bomba ou se existe a necessidade de evacuar um recinto rapidamente, cada agente de segurança privada e cada policial sabe onde eles se encaixam nesse modelo e o papel que precisam assumir.

Com as informações da inteligência e as conversas entre o clube e a polícia, decide-se se o risco de uma partida precisa ser aumentado para que, em seguida, o número de policiais e agentes em serviço aumentem.

Para alguns jogos de categoria-A em Londres, você pode ter cerca de 150 policiais de plantão, mas, na verdade, policiar o jogo só com 50. O restante vai acompanhar aqueles que saem das estações de metro, etc. Mas poderia ter 700 agentes de segurança privada. Para cada 250 torcedores, é necessário ter um agente. Esta é uma regra pétrea.

Como é que as diferentes forças policiais se coordenam?

Toda vez que há um jogo, a British Transport Police (a polícia de trânsito), a polícia visitante e a polícia local estão envolvidos. Há um relacionamento de longa data entre todas essas forças .

Todo mundo está conectado. Se a BTP não pode garantir a sua parte do acordo, isso coloca uma pressão sobre toda a cadeia. Se, digamos, a ambulância do St John e do Serviço de Ambulâncias de Londres não podem fornecer cobertura de primeiros socorros para um jogo, bem, mesmo se a polícia puder, esse jogo não pode ir adiante.”

Discussão

Comentários estão desativados para este post.

  1. Violência e futebol caminham lado a lado, sempre, o caso de Joinville só é diferente por estar sendo transmitido ao vivo pela Globo. Fora isso, todo jogo com torcidas de grandes times tem pancadaria, geralmente nas imediações do estádio, onde nenhum ônibus de torcedor visitante consegue chegar sem escolta policial. Só se espanta com o que aconteceu domingo quem não é do ramo.

    Posted by carlos | dezembro 10, 2013, 10:10
  2. Se futebol vira caso de polícia, e isso já vem acontecendo faz tempo, então são os órgãos de segurança que devem agir.Outra coisa: nos jogos do campeonato catarinense a Polícia Militar cobra uma taxa, proporcional ao número de policiais que serão utilizados.

    Posted by Mario Medaglia | dezembro 10, 2013, 10:59
  3. Além da incompetência, má vontade e falta de senso de responsabilidade, há outros fatores que tem evitado de se abrir guerra contra as organizadas. Ninguém quer comprar a briga. Muitas são associações recreativas declarada pelos vereadores como de utilidade pública (caso de duas de Floripa) ou tem até cadeira no Conselho Municipal da Juventude (caso da Fúria Marcilista).
    Dentro dos clubes a coisa é pior. Vários integrantes de organizada tem cargo nos clubes, que muitas vezes ainda banca viagens e até ingresso em busca de apoio. Um dos motivos é que essas organizadas estão cada vez com mais membros no Conselho Deliberativo e influenciam nas eleições dentro do clube.

    Posted by Adriano Assis | dezembro 10, 2013, 11:24
  4. Indo para além do futebol: Planeta Atlântida e Folianópolis sempre “desaparecem” os policiais das demais regiões da cidade, porque estão lá fazendo a segurança (interna) desses eventos.

    Posted by Fernando S | dezembro 10, 2013, 12:58
  5. Pois é, na Inglaterra é lindo. Mas lá não tem Ministério Público bagunçando a vida de tudo mundo. Virou um órgão todo poderoso e intocável. Manda e desmanda mais que governador, prefeito, deputado, vereador, comandante da PM, papa… E o pior, ninguém tem coragem de apontar o dedo para os desmandos e a incompetência reinante no MP. Ninguém votou nessa corja de promotores. Eles não podem sair mandando em tudo como seres superiores da sociedade. Extinção do Ministério Público Já.

    Posted by cego | dezembro 11, 2013, 09:39

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