// você está lendo...

Caraminholas

Nem tanto à terra, nem tanto ao mar

Desde o feriado, quando em pleno Dia da República a Polícia Federal cumpriu mandados de prisão de figurões do governo petista, que se estabeleceu uma discussão quase futebolística sobre isso. Há claramente dois lados: o que defende apaixonadamente que tudo não passou de uma “farsa midiática” e que as condenações foram armadas por um poder judiciário caquético e tendencioso, com nítida inspiração política, num ato que lembra em tudo e por tudo, um golpe de Estado. E há o lado daqueles que gostam de chutar cachorro amarrado, que sapateia sobre túmulos de desafetos, que aplaude entusiasticamente as prisões e só lamenta não serem todas perpétuas em regime fechado, a pão e água.

Por isso achei apropriado usar um velho provérbio português, também usual no Brasil, que indica o melhor caminho: a escadinha que nos leva a subir no muro do meio termo. E de lá, do alto, podemos observar com mais clareza o que acontece na planície, onde esses dois lados travam uma batalha sangrenta e impiedosa.

Como ocorre sempre às terças e quintas, neste espaço, respondo perguntas, discuto questões e dou informações que ninguém, além de eu próprio, perguntou, questionou ou solicitou. Assim, é na caradura que lhes apresento o que penso sobre as condenações do mensalão do PT.

Desde agosto de 2005, quando comecei esta coluneta “De Olho na Capital”, que acompanho os desdobramentos daquele caso que ficou conhecido com o nome genérico de “mensalão”. Teve denúncias na imprensa, teve CPI, teve investigação policial, teve uma longa espera e finalmente teve julgamento e condenação. E, na sexta, as primeiras prisões. Foi um processo lento. Como costuma ser a Justiça no Brasil.

E foi, claro, um processo cheio de imperfeições e problemas. Como costuma ser tudo que é feito por seres humanos. Mas não se pode negar que algo houve. E algo grave. Tanto que, quando o escândalo estourou, o presidente da República convocou rede nacional de TV para pedir desculpas. Por isso, quem acompanhou desde o começo, não se espantou com as condenações.

Talvez tenhamos nos espantado com o fato de tantos figurões da República terem virado réus. E do processo não ter terminado em pizza completa. Mas era preciso tomar alguma providência, uma vez que ilícitos e malfeitos tornaram-se públicos.

Desde o começo me intriga o fato de que a defesa dos petistas é aquela lenga-lenga de “os outros também fazem desse jeito”. E vivem gritando que o mensalão foi invenção de um tucano, que ainda não foi processado e condenado. Como se o fato de outros terem cometido crimes, reduzisse a gravidade dos seus próprios crimes. Ou os absolvesse.

Estou entre aqueles que acreditam firmemente que todos são farinha do mesmo saco. Que a corrupção não foi inventada pelo Zé Dirceu (embora Delúbio tenha dado uma boa contribuição para seu aperfeiçoamento) e também que não acabou com a condenação dos petistas.

É evidente que o Brasil precisa ainda comer muito peixe e pastar bastante, antes de podermos nos orgulhar de alguma coisa relacionada com o combate à corrupção. Tem muita gente fora da cadeia. Tem muita gente que talvez tenha roubado mais. Tem muita gente que mereceria passar algumas décadas a pão e água e ter seus bens e de seus parentes apreendidos.

Mas, enquanto isso não acontece, não tem por que achar que deveríamos deixar os petistas que foram pegos com a boca na botija livres, leves e soltos. Deram azar, talvez. Mas mais vale um pássaro na mão, do que dez voando, já dizia minha avó.

E o STF? Demonizam o Barbosa de um lado e o santificam de outro. Ali também é preciso olhar com calma. É apenas um tribunal, constituído por humanos escolhidos por outros humanos. Quando a decisão nos desagrada, dizemos que errou. Quando nos favorece, acertou.

================

TIO CESAR ENSINA A NADAR NO MAR DE LAMA
(Publicado originalmente em 16/8/2005)

A arte de explicar o inexplicável

Escadaria do Escher

M.C. Escher, em 1953, já desenhava os argumentos do Delúbio

O Delúbio vai depor amanhã (17/8/2005) às 11h30min na CPI. Ele é um técnico altamente capacitado e sabe, como poucos, passar uma impressão de ser humano pouco inteligente quando necessário.

Não é verdade que as explicações dele e da turma dele sejam confusas (tá certo que o esquema que eles montaram está mais para trapalhões do que para James Bond, mas também não se pode querer tudo), ou sejam mentirosas.

Eles contam uma verdade alternativa, por intermédio de uma narrativa organizada de forma heterodoxa que aparentemente não leva a lugar nenhum de tal forma que sempre que a gente acha que eles estão indo, na verdade estão voltando e vice-versa (a ilustração acima mostra isso claramente).

Portanto, quando qualquer de vocês tiver que se explicar sobre qualquer coisa mais complicada (chegada tarde, batom na cueca ou land rover na garagem), use a mesma técnica: “o que eu fiz é feito sistematicamente por todo mundo”. Isso lança uma ampla suspeição e inibe os acusadores (“o que será que ele sabe a meu respeito?”), fazendo com que o pessoal fique mais cauteloso.

Depois, é só tomar uns comprimidos de Desmemoriol, para poder dizer, com toda a sinceridade, que não se lembra até do nome da sua mamãe. Esse remédio tem um efeito colateral positivo: enrola a língua. Assim, a conversa fica naturalmente pastosa, confusa e apropriadamente embaralhada, bem daquele jeito Delúbio de ser.

Discussão

Comentários estão desativados para este post.

  1. Pra quem tem alguma dúvida sobre o domínio do fato que causou a condenação do Dirceu, recomendo assistir o filme Entreatos, disponível no youtube, que narra a campanha vitoriosa do Lula em 2003. Parece-me que o filme nunca foi levado aos cinemas.

    Posted by carlos | novembro 19, 2013, 08:23

Posts recentes

O fim de uma era
23 de maio de 2014, 17:27
Por Cesar Valente
E aí? Abandonou o blog?
6 de maio de 2014, 17:46
Por Cesar Valente
Brasília real aos 54 anos
28 de abril de 2014, 22:12
Por Cesar Valente
Beleza e crueldade
28 de abril de 2014, 22:01
Por Cesar Valente
A semana dos enigmas
17 de abril de 2014, 8:09
Por Cesar Valente

Arquivos