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Jornalismo

A saia justa do Morastoni

Nota do editor: a coluna de hoje, no Diarinho, refere-se a um programa de TV que não é transmitido em Itajaí e região. Vi, ontem, que ali pouca gente tinha sabido do bate-boca do Jornal do Meio Dia, entre o Hélio Costa e o deputado Morastoni (que é de Itajaí), com Dado Cherem (de Balneário Camboriú) ao fundo. Por isso, mesmo tendo passado quase uma semana, toco no assunto. Ainda que possa parecer coisa “velha” para vários de vocês, transcrevo abaixo, como faço todas as terças e quintas, o que saiu no jornal de hoje (no jornal usei alguns “frames” do vídeo, para ilustrar a situação. Aqui mostro o vídeo inteiro). Não tem muitas novidades para quem viu e ouviu o programa. Exceto, talvez, a minha avaliação sobre a “performance” do Hélio.

A esta altura é possível que a maioria de vocês já tenham visto o vídeo (acima) e ouvido, com todas as letras, o bate-boca entre o Hélio Costa, da RIC/Record e o deputado Volnei Morastoni, ex-prefeito de Itajaí e presidente da Comissão de Saúde da Alesc.

Na quinta-feira, todos estavam muito comovidos com a morte do menino de Lages, que esperava vaga em um leito de UTI para queimados. Como vocês sabem, a situação de SC em relação ao atendimento a queimados é vexatória. Só existem poucos leitos na UTI do Hospital Infantil, em Florianópolis e mais nada.

O Hélio começou esse segmento do Jornal do Meio Dia, de quinta, com esta frase: “Quem for queimado em Santa Catarina, morre”. Pouco depois, chamou o repórter Nader Kalil, que estava na Assembléia Legislativa, ao lado do presidente da Comissão de Saúde. O que se seguiu não foi uma entrevista normal, ou comum, mas um raro momento em que o entrevistador encosta o entrevistado na parede.

Os brasileiros não estão acostumados a isso. Mas, em muitos países, faz parte do procedimento usual dos entrevistadores deixar o entrevistado desconfortável. Ao aceitar o convite para aparecer na TV, a pesonalidade sabe que terá que ter raciocínio rápido, boas respostas, argumentar com firmeza e habilidade para sair das saias justas em que, sem dúvida, será colocada.

Mas, por aqui, o usual é um entrevistador cortês, cordato e sem muitas perguntas realmente informativas. É quase uma ação entre amigos, em que tudo acaba bem, com tapinhas nas costas e sorridentes apertos de mão.

Talvez pela falta de prática e por se tratar de uma situação atípica, o Hélio cometeu alguns deslizes e se deixou levar excessivamente pelo fígado. Mas, de uma maneira geral, não errou o tempo todo.

O principal erro, a meu ver, foi ter tratado o assunto como coisa pessoal e adotado o figurino “justiceiro da mídia”. Coisas do tipo bater na mesa e bradar “não engulo isso” são típicas do estilo Datena (ou Alborghetti, ou Ratinho de antigamente). E, no caso, absolutamente desnecessárias. Ainda que o povaréu goste desses rompantes.

Ele estava diante de um médico, presidente da Comissão de Saúde, ex-prefeito de uma cidade importante, tinha mesmo que apertá-lo, de perguntar o que fez para tentar evitar a trágica morte do menino na fila de espera. Pertence ao partido que manda no Ministério da Saúde, então é razoável que diga também o que fez para pressionar seu partido.

Mas, e aí foi outro deslize, parece que o Hélio estava mesmo brabo era com o Dado Cherem, deputado e ex-secretário de Saúde e não teve paciência (e talvez o jornal nem tivesse reservado tempo pra isso) para ouvir as explicações do Morastoni. Ao chamar Dado de “cara de pau” diante do adversário político, Hélio adicionou um complicador político-ético à entrevista. E deixou Morastoni sem saída: responder o quê? Defender o adversário?
Daí veio o golpe final (as trocas de “Saúde” por “Justiça” denunciam o nervosismo do entrevistador):

“O senhor que é do governo federal, diz que o Ministério da Justiça (sic) não deu bola, e não fez nada também como presidente da Comissão de Justiça (sic), o senhor quer que eu engula isso? Que o telespectador engula isso? Por favor, deputado!”

Morastoni ficou quieto, parecia em choque e disse apenas que “isso é uma avacalhação… isso que ele está colocando é caso de polícia”. Mas continuou diante da câmera e do microfone, até que o Hélio deu-lhe as costas e foi pegar um jornal para bater de novo no Dado.

Discussão

Comentários estão desativados para este post.

  1. Para mim, foi o melhor momento da imprensa catarinense nos últimos anos.

    Posted by Fernando S | novembro 5, 2013, 12:44
  2. Os políticos e pessoas públicas no Brasil não enfrentam 1/10 da inquisição de jornalistas americanos ou franceses.

    Posted by cego | novembro 6, 2013, 08:58
  3. Perfeito, maravilhoso, impecável, um exemplo do grito que a sociedade quer dar. O verdadeiro papel do jornalista. Abraços e parabéns, virou meu ídolo.

    Posted by Kalinka | novembro 6, 2013, 13:49
  4. Por isso que o PT não se cria em SC. Longa vida ao Hélio..

    Posted by Juca | novembro 6, 2013, 15:06
  5. Estamos precisando de mais entrevistadores como Hélio Costa. Lavou nossa alma. Palmas para o Hélio!!!

    Posted by João Carlos Mendonça Santos | novembro 6, 2013, 17:38
  6. Supimpa! E o meu xará não tem essa formação superior toda que o caro César Valente gostaria de ver nele atuando num caso destes. Mas a prática do Hélio salvou-o na inquirição feita. Que venham outras…

    Posted by Helio Lemos | novembro 7, 2013, 10:08

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