// você está lendo...

Jornalismo

O fotógrafo, esse desconhecido

Uma das práticas mais difíceis de alterar na nossa cultura é a falta de reconhecimento da autoria de obras de uso cotidiano, como as fotografias. Mesmo no jornalismo, onde o trabalho dos fotógrafos, há muitas décadas, é essencial, há uma certa resistência em atribuir a alguém o crédito autoral.

Claro que nem sempre é fácil saber quem é ou foi o autor. De uns anos para cá, os profissionais estão aprendendo a utilizar a metadata, conjunto de informações que ficam incorporadas ao arquivo da imagem e podem ser lidas com facilidade por quem, de boa fé, esteja procurando saber quando, onde e quem produziu aquela foto. Mas, e antes das fotos digitais, na época do negativo e das cópias em papel?

Aí o bicho pega. Esta semana fui xingado de tudo e mais um pouco por um colega, que faz um belo trabalho de recuperação da história do futebol em Santa Catarina, porque cobrei o crédito das fotos históricas que ele utiliza nas suas exposições e livros.

Ele não entendeu minha crítica, o que é normal e compreensível, mas eu acho que entendi qual é o problema dele: os fotógrafos desapareceram no tempo. Ao pesquisar a história do futebol e ouvir sobreviventes ou seus familiares, ele também encontra, adquire ou recebe fotos antigas. Que são ótimas para contar o que houve, mostrar como eram os craques, os estádios e os personagens que, de outra forma, ficariam esquecidos ou dependeriam de uma sempre incompleta descrição escrita.

É claro que a família do craque do passado, orgulhosa, ao ceder ao jornalista uma das fotos de seu acervo, não saberá informar o autor. Além disso, para muitas pessoas, a pergunta “de quem é esta foto” não faz o mesmo sentido que para alguns de nós. “A foto é do jogador tal”, respondem, identificando quem aparece na imagem. Mas não se trata disso, estamos à procura é do autor da imagem.

A dificuldade cresce na medida em que os jornais só de uns tempos para cá começaram a creditar as fotos publicadas. A lei que expressamente garante o direito autoral das fotografias é recente, de 1998. Antes era um faroeste, uma terra sem lei, onde dependendo do caráter dos dirigentes da publicação, as fotos e seus autores eram tratados com decência ou como lixo, coisa descartável.

O jornal O Estado, de gloriosa história em Florianópolis e Santa Catarina, em sua decadência, antes de fechar definitivamente, dilapidou o arquivo fotográfico. A autoria das fotos, pela falta de organização do arquivo, nem sempre estava claramente identificada. É possível que nos envelopes dos negativos constasse o nome do fotógrafo, mas nas cópias em papel nem sempre. E aí, quando alguém acaba encontrando um lote dessas cópias em papel e decide publicá-las por seu valor histórico, como poderá saber quem é o autor ou autores?

É uma situação complicada. E de difícil solução. No caso de O Estado, mesmo quando se encontra, após penosa pesquisa nos deteriorados arquivos (só na Biblioteca Estadual existem coleções abertas à consulta pública), a foto publicada, provavelmente não haverá, ali, qualquer indicação do autor. Sabe-se a data em que saiu no jornal, pode-se ler a notícia, mas não se avança nada quanto à resposta à pergunta “de quem é esta foto?”

O Estado 1976

É o Zenon na foto (à direita). Mas quem foi o fotógrafo? O jornal não informa.

Some-se a esta dificuldade um outro componente: os fotógrafos ainda vivos parece que desistiram de dar murros em ponto de faca, decepcionaram-se profundamente com o desrespeito com que sua obra foi tratada e seu acervo, que estava sob a guarda do jornal, dissipado irresponsavelmente. E querem distância desta discussão. Não querem se incomodar. Porque vêm de um tempo em que o fotógrafo pedir respeito ao seu direito de autor era palavrão. E suas reivindicações eram tratadas com pouco caso.

Bom, se o autor ao ver sua foto ampliada numa exposição, ou publicada num livro, sem ser citado, não reclama, não exige que se cumpra a lei e fica apenas mais um pouco amargurado e decepcionado, mas em silêncio, por que deveria eu meter minha colher enferrujada neste assunto? E se as entidades de classe que abrigam fotógrafos, até onde sei, não tomam qualquer providência, por que me meter?

Justamente porque ouço, em bares, por telefone, por e-mail, as queixas. O lamento. E percebo que se sentem impotentes e talvez até sem ter como iniciar qualquer briga, sem dispor dos negativos, de qualquer prova mais concreta da autoria. Em alguns casos, o personagem retratado já faleceu. Em outros, o fotógrafo também já nos deixou. Mas, em todos, há um profissional ou familiares e amigos do profissional, magoados com a falta de lembrança, de respeito, de preocupação com a história do material que tão bem retrata a história alheia.

E o mais interessante: ninguém, dos que se queixaram comigo, falou em ressarcimento financeiro. Querem apenas que reconheçam que aquela bela foto é dele. E informem seu nome. É claro que a lei lhes garante uma compensação, mas nem falam nisso.

O BATE-BOCA

Se eu reconheço, como disse acima, que é quase impossível identificar a autoria de algumas fotos históricas e se acho, como de fato acho, que o trabalho que o jornalista Polidoro Júnior tem feito, escavando a história centenária do futebol catarinense é importante, útil e bem feito, por que cobrar esse “detalhe”? Primeiro, pelas razões que expus acima. Depois porque, ao ver que a obra era financiada com dinheiro público (renúncia fiscal é dinheiro público), senti-me, como contribuinte e eleitor, um pouco mais autorizado a contribuir para que as eventuais falhas sejam corrigidas.

O que eu fiz de tão grave que provocou a reação irada do Polidoro Júnior, levando-o a me chamar de “antiético, babaca, invejoso, mau-caráter” entre outras coisas? Até eu que, a esta altura da vida já vi e vivi quase tudo, me espantei com o que tinha provocado. E fui rever o que fiz pra tentar identificar que ofensa tão grave tinha sido essa.

A origem foram dois tuítes publicados dia 29. O twitter tem este problema: é preciso escrever coisas muito breves, de forma sintética, e nem sempre o resultado é o ideal. E, uma vez publicado, não tem como ficar explicando que não era bem assim. Vamos lá:

Tuíte de 29/10

O primeiro tuíte

Tuíte de 29/10

Este, mais genérico, foi publicado em seguida

De fato, aquela pergunta final do primeiro tuíte (“Agora pode tudo?”) depois de ter “convocado” as entidades de classe, deu um sabor amargo à coisa. E, desconectado de qualquer outra consideração, é mesmo um gatilho plausível para o destempero do autor da exposição citada. Por isso, achei que deveria voltar ao assunto, não no twitter, mas aqui, sem limitação de espaço e de tempo, para colocar as coisas em perspectiva e expor, em mais de 140 caracteres, o que penso.

Quanto às ofensas que me foram dirigidas, o respeito que sempre tive pelo Dakir, pai do Polidoro Jr, de quem fui ouvinte por muitos anos e pela trajetória profissional do próprio Polidoro, me ajudam a minimizá-las, tratando-as como um rompante de momento, cuja dimensão não se deve superestimar.

E o que me levou a publicar um tuíte tão azedo?

Exposição na Alesc

Exposição no hall da Alesc. Fotos capturadas no Facebook do Polidoro Jr

Existe uma lei obrigando a creditar as fotos. Achei que, ao permitir uma exposição em suas instalações, a Assembléia Legislativa deveria ter o cuidado de verificar se as normas estão sendo cumpridas. Ingenuidade minha, talvez. O projeto todo foi aprovado por órgão federal e autorizado a captar recursos públicos (mais uma vez, renúncia fiscal é dinheiro público) e mesmo assim, ao que tudo indica, ninguém se preocupou com o fato de, nos painéis, parecer que as fotos são do Polidoro Júnior. Ele assina todos os painéis, abaixo da foto e de uma pequena legenda. E sem qualquer referência à origem do material. Olhando de longe, sem saber da história, o observador desatento pode mesmo pensar que se trata de uma exposição do fotógrafo Polidoro Júnior. Eu sei que não é isso, vocês sabem que não é isso, a intenção do Poli não foi essa, mas olhando para os painéis, o que a gente vê?

Painís no catarinense

Painéis em exposição no Colégio Catarinense

Painel detalhe

Outro dos painéis da exposição

O que eu pretendia, ao dizer o que disse? Fazer com que o Polidoro Júnior, que vem fazendo um trabalho tão interessante sobre a história do futebol, se preocupasse um pouco em também recuperar a história dos fotógrafos que produziram o material que dá tanto brilho à exposição, ao livro e a tudo que foi e será produzido a partir dessa preciosa matéria prima. Ninguém pretende o impossível: muitas das fotos terão que conter um crédito genérico (talvez com alguma coisa sobre onde a foto foi localizada, com quem estava), pela dificuldade, que já comentei, de identificar o autor. Mas seria legal ver que houve alguma tentativa de honrar o direito moral dos fotógrafos. Talvez incluindo, nos projetos, uma pequena verba específica para identificá-los. E, nas exposições, alguma informação que permita ao espectador lembrar-se desse profissional que penou para conseguir aquele “instantâneo” e que hoje, esquecido, vê seu patrimônio ser utilizado como obra de arte anônima.

Só isso. Assim como imagino não ser intenção do Polidoro Júnior ocultar os fotógrafos, também não foi minha intenção desfazer-lhe o trabalho ou ofendê-lo, ao fazer a cobrança dos créditos nas fotos.

Um bom fim de semana a todos.

Discussão

Comentários estão desativados para este post.

  1. Nada justificava as ofensas, ainda que teu ponto de vista não tenha sido manifestado de forma suficientemente clara, sobretudo porque se tratava de um twitter. Estamos vivendo tempos difíceis, em que as opiniões, para serem externadas, deverão ser de consenso, sem tom crítico, sob pena de legitimar ofensas de quem eventualmente se sinta atingido pelas críticas. Hoje, só não tem inimigos quem não tem opinião para nada.

    Posted by Guilherme Bossle | novembro 2, 2013, 14:22
  2. Muito engraçado esse Polidoro. Faz uma exposição fotográfica com dinheiro público, com fotos que não são dele, não dá os devidos créditos nem sequer explicações sobre a origem das imagens ou agradecimentos a quem doou/emprestou e os outros é que são antiéticos. Queria que o autor de uma dessas fotos – só uma que fosse – metesse um processo por direito autoral pra ele ver como é importante valorizar o trabalho dos outros. Os fotógrafos de hoje fazem vigilância severa sobre os créditos – até porque cansaram de abusos como esses. Pena que os de antigamente não faziam isso. Se fizessem, estariam faturando uma boa grana até hoje. E como você disse surpreende que nenhuma entidade representativa ou até nossos fotógrafos profissionais na ativa tenham se manifestado sobre essa exposição. Será que temem os desaforos do Polidoro?

    Posted by José Carlos | novembro 3, 2013, 17:48
  3. Não li o texto, mas a história desse livro é bem mais complicada. Começou com Maury Borges, vocês conhecem? Setenta e muitos anos, ex-reporter esportivo, um baluarte da história do futebol regional, assunto sobre o qual já publicou mais de um livro, sempre por puro prazer. Ele tinha este outro livro pronto e, disse-me ele, procurou o Polidoro em busca de uma forma de viabilizar a impressão. Talvez, pensava, a TV pudesse se interessar. Polidoro topou. E não é que conseguiu a grana na politicagem? Mas o pobre do Seu Maury, aí, foi pra escanteio. Deram um chega pra lá nele. E muito do material que faz parte desse livro, diz o mestre Maury, é fruto das milhares de horas que ele passou na biblioteca pública, a cavucar nos jornais antigos, e no arquivo público em busca de documentos. O ex-reporter se sente enganado.

    Posted by ubiratan canela | novembro 6, 2013, 12:10

Posts recentes

O fim de uma era
23 de maio de 2014, 17:27
Por Cesar Valente
E aí? Abandonou o blog?
6 de maio de 2014, 17:46
Por Cesar Valente
Brasília real aos 54 anos
28 de abril de 2014, 22:12
Por Cesar Valente
Beleza e crueldade
28 de abril de 2014, 22:01
Por Cesar Valente
A semana dos enigmas
17 de abril de 2014, 8:09
Por Cesar Valente

Arquivos