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Caraminholas

AFINAL, QUEM GANHOU?

Zé Dirceu e Lula

"Meu comandante!" Zé Dirceu e Lula em foto de Ricardo Stuckert/PR

Alguns e algumas trataram a sessão (ordinária) de ontem do Supremo Tribunal Federal (STF) como se fosse a final de um campeonato nacional (ou mundial) de futebol. Fomos bombardeados, no final de semana, com informações que deixavam claro o seguinte: o jogo estava empatado e ontem se daria a decisão. Se o placar fosse 5 a 4, ganhariam os bandidos, se fosse 4 a 5 ganhariam os mocinhos.

Uma bobagem, porque a decisão não muda o essencial: foram julgados e condenados amigos próximos do presidente, responsáveis pelo suporte financeiro de suas campanhas. Essa é a grande vitória, que a decisão processual de ontem não muda.

Aí comecei a pensar com meus botões, zíperes, a caspa que cai feito neve sobre meus ombros e, principalmente, minha própria cabeça. Ou a parte dela que ainda funciona.

E lembrei que tudo começou com a prática de convencer adversários a deixarem de conversa e pararem com essa bobagem de oposição. “Vem pra caixinha você também” poderia ser o jingle da manobra para eliminar a oposição que, uma vez flagrada, ganhou o apelido incorreto de “mensalão”.

Por isso republico abaixo o texto que explica o que é e para que serve essa espécie que querem ver morta e enterrada, às custas de muito dinheiro e muita cara de pau.

Oposição

O que é e para que serviria, se existisse?

Parece que o brasileiro, povo cordato que mata e rouba mas jamais discute política em público e acha os debates “uma baixaria”, não gosta muito de enfrentamentos ideológicos. A maior prova é o que aconteceu com as oposições: foram banidas, dizimadas, eliminadas do cenário político do país.

♣ Até o governo FHC, o PT e outros partidos “de esquerda”, ainda experimentavam exercer a oposição. Aí apareceu um marqueteiro que sussurrou no ouvido do Lula a seguinte verdade bíblica: “o brasileiro não vota em quem está na oposição”.

♣ Pronto, surgiu o “Lulinha paz e amor” que não batia mais em ninguém e fazia alianças com quem quer que fosse, desde que o resultado fosse mais tempo de TV e mais dinheiro em caixa. Tudo muito pragmático.

♣ Lula se elegeu e a turma voltou a fazer uma oposição faz-de-conta: estava no governo, ocupava milhares de cargos de confiança, mas continuava fazendo oposição ao governo anterior, que foi derrotado nas urnas. Volta e meia, lá vem um lulista fazendo um discurso inflamado contra o que aconteceu décadas antes.

♣ E quem perdeu a eleição e deveria fazer, legitimamente, oposição, o que fez? Nada. Quem perde a eleição tem obrigação de fiscalizar quem ganhou, de mostrar os podres, de apontar caminhos melhores, soluções mais duradouras. Tem que bater no governo. Mas, como já disse, o brasileiro não gosta disso.

♣ Ficamos, então, da seguinte forma: o pessoal do governo não se responsabiliza por nada, porque tudo o que de ruim e malfeito está aí é culpa da gestão anterior. E o pessoal que está fora do governo usa luvas de pelica e palavras adocicadas porque um dia, quem sabe, o governo resolve ampliar sua base e pode convidá-los para algum ministério ou para uma diretoria de estatal.

♣ Há também o outro fator importante da vida política brasileira: como os partidos são de brincadeirinha, não é recomendável assumir posições firmes, porque amanhã pode ser que o sujeito tenha que mudar para outro partido. E aí não é legal ter adversários, muito menos inimigos, que possam ameaçar o “espaço” ou mesmo puxar o tapete. Afinal, virar a casaca é mais que uma arte, é um esporte nacional.

PRA QUE SERVE?

♣ Onde ela existe, a oposição presta um serviço tão importante quanto os serviços prestados pelo próprio governo. Levada a sério, a oposição ajuda a governar e oxigena a democracia.

♣ Isso não se faz com “críticas construtivas”. Faz-se com seriedade e uma certa dose de compreensão de como conduzir a vida em sociedade, mas sem panos quentes, sem conchavos e sem canalhices.

♣ Aliás, a condição fundamental para existir oposição digna desse nome é existir, na oposição, gente honrada. E gente honrada, como o nome diz, tem princípios, tem posições, procura ser coerente e não se vende por dois tostões. Nem por trinta dinheiros.

♣ Aí, a crítica ao que considera mal feito do governo, não se baseia na possibilidade de levar alguma vantagem monetária, de empregar a cunhada, de arranjar uma boquinha para a mãe do Badanha ou para finalmente desencalhar a filha do sócio que não concluiu o primeiro grau e já está grávida de novo.

♣ O governante sábio prefere ter opositores inteligentes, corajosos, honestos e murrinhas, do que não ter oposição. Ou ter, fazendo de conta, um bando de imbecis gananciosos que, em privado, elogia e puxa o saco e, na imprensa ou na rua, faz jogo de cena, pra ver se acaba sendo premiado com alguma boquinha, a título de calaboca.

♣ Por isso tudo, basta dar uma olhadinha nos jornais e espiar a programação das televisões que passam sessões das câmaras, assembléias e do congresso, pra ver que não tem oposição. Oposição pra valer, ideológica, programática, firme, com o partido assumindo posições conjuntas, não tem. Uma ou outra exceção. E muito chantagista amoral posando de opositor ferrenho.

♣ O pior de tudo, é que parece que o eleitor não gosta muito de votar em quem tem uma visão mais crítica e defende suas idéias. Prefere, em geral, um fala mansa que até pode roubar, desde que, de tempos em tempos, faça um viaduto, um portal na entrada da cidade, asfalte umas ruas. E em toda campanha venha com aquele rame rame de “propostas”, como se descer o cacete em governo ladrão não fosse uma ótima proposta: faxina ética deveria ser programa de governo. Junto com esgoto sanitário.

Discussão

Comentários estão desativados para este post.

  1. É véro! Desde que Lulla assumiu, acabou-se a oposição no Brasil. Só reclama quem não recebeu sua parte do butim…

    Posted by Léo | setembro 19, 2013, 09:58
  2. Geralmente a gente fala muito dos maus políticos que são eleitos e esquecemos os políticos que não são eleitos e ocupam anos a fio,(alguns quase vitalícios)cargos comissionados. Estes geralmente são a raiz de todo o mal, usam os cargos e as instituições públicas e as corroem de dentro pra fora sem limite de mandato,sem reeleição. Gostaria de ver uma reflexão mais elaborada sobre o tema, exposta para apreciação pública que pudesse suscitar uma reflexão da sociedade a fim de ser alcançada pelas regras democráticas.

    Posted by Suzana | setembro 20, 2013, 11:34
  3. É véro! Faz tempo que não elejo ninguém. Confesso que votei 3 vezes no Lulla, até elle se eleger. Depois disso, nem meu candidato a vereador se elegeu. Mas a corja que não voto nem a pau nunca some: sempre tem boquinha…

    Posted by Léo | setembro 23, 2013, 10:49

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