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Caraminholas

O estranho sumiço dos bondes

Aviso aos leitores: quando comecei a escrever a coluna desta terça, ainda estava profundamente irritado com os deputados que “perdoaram” o colega ladrão, condenado em última instância e já preso, mantendo-lhe o mandato e criando a patética figura do deputado/presidário, única no mundo. Se fosse falar sobre isso e outras coisas que me irritam na política nacional e estadual esta semana, faria uma crônica repleta de palavrões, xingando da presidente ao vereador. Aí, resolvi poupar os leitores. Recolho-me em contrição, contando até 100, enquanto a raiva passa. E converso com vocês sobre… bondes. Que tal?

Bonde em Lisboa

Os velhinhos sobem morros onde os novinhos não chegam

Milão

Fotos: Palhares Press. Bondes antigos restaurados trabalham normalmente.

Milão 2

Um dos bondes modernos de Milão

San Francisco

Bondes de todas as idades. E de várias cidades do mundo.

Marselha

Uma convivência geralmente tranquila entre o do trilho e o dos pneus

Estas são algumas das cidades onde, mundo afora, existem bondes circulando pelo centro. Várias delas, como Lisboa, Milão e San Francisco, por exemplo, ainda se dão ao luxo de colocar, em uso normal, bondes antigos restaurados. Que não fazem feio e cumprem perfeitamente sua função de ajudar na tal de “mobilidade urbana”. San Fancisco (nos EUA), tem um programa de “intercâmbio”: é possível encontrar lá bondes de outras cidades, com os letreiros na língua original. Capisce?

Roma

Eles por cima e o primo (o metrô), por baixo da terra

Quem nasceu a partir da década de 70, nunca viu, nas cidades brasileiras, um bonde. Eles circularam, por muito tempo, em boa parte das capitais. O primeiro bonde elétrico chegou em 1892, no Rio de Janeiro. Até que, coincidindo com o início da produção de ônibus e automóveis no país, começaram a ser aposentados, pelos mais diversos motivos. A decadência dos veículos e a deterioração do serviço, às vezes, parecia proposital, planejada.

Foi na década de 60 que ocorreram os bondicídios mais numerosos. Entre as últimas cidades a retirar os bondes das ruas estão o Rio de Janeiro, São Paulo e Santos.

Ao todo, cerca de 100 cidades, de vários tamanhos, tiveram serviço de bondes movidos a eletricidade em algum período do século passado. Algumas delas: Rio de Janeiro; Salvador; Manaus; Santos; São Paulo; Belo Horizonte; Niterói; Juiz de Fora; Belém; Porto Alegre; Natal; Vitória; Petrópolis; Campinas; Fortaleza; Curitiba; Recife; Maceió; João Pessoa; Pelotas; São Luís e Aracaju.

Seguiu-se o sucateamento e a desativação das linhas férreas de passageiros, que uniram (e povoaram) várias regiões, por muitas décadas. Sem os bondes e sem trens de passageiros, a “limpeza” estava completa: o Brasil fora entregue aos caminhões, automóveis e ônibus. Todos movidos pelo petróleo.

Como resultado dessa “modernização”, o Brasil não avançou um milímetro na “mobilidade urbana”. E não é sem espanto que os viajantes encontram, em países “de primeiro mundo”, circulando entre os automóveis, nas ruas dos centro de várias cidades, os bondes que os governantes “modernos” consideraram atrasados demais para o “país do futuro”.

Não é daí que vem a expressão “perder o bonde da História”, mas ela serve perfeitamente para definir um país que, literalmente, saiu dos trilhos. E não está conseguindo voltar.

Discussão

Comentários estão desativados para este post.

  1. Estou retornando de uma curtíssima viagem à Europa, para onde fui menos por turismo e mais para visitar meu filho, que mora em Karlsruhe, na Alemanha.
    Karlsruhe é uma cidade de 300.000 habitantes e está de cabeça para baixo, desfigurada, em virtude das obras de infraestrutura do metrô. Isto mesmo, uma cidade com 300.000 almas terá metrô subterrâneo para facilitar o transporte urbano. Descobri o seguinte: o metrô de Karlsruhe estava previsto para implantação em 2030. Entretanto, num curto espaço de tempo houve dois atropelamentos de idosos por bondes (Strassenbahn) da cidade e o Conselho Municipal se reuniu em busca de soluções. E chegou-se à conclusão de que o melhor seria antecipar a implantação do metrô para 2016. E as obras iniciaram e certamente serão concluídas no prazo.
    Fico pensando nas cidades semelhantes do Brasil e no seu trânsito caótico. Em situação exatamente como esta, nada seria feito. Dois idosos atropelados em uma cidade do Brasil, em cotejo com o número global de acidentes de trânsito, é uma insignificância. Aqui não se dá o devido valor à vida.
    Mas se, por exemplo, houvesse atropelamentos de umas dez pessoas numa mesma região? Otimista, vejo o prefeito preocupado, reunido com seu staff, em busca de solução. E já antecipo qual seria: a implantação de lombadas físicas e/ou eletrônicas. Assim é a nossa criatividade. Assim é que pretendemos melhorar as condições de tráfego urbano no Brasil. Inutilmente, pois se lombadas resolvessem os problemas o Brasil seria o país de trânsito mais tranquilo do mundo…
    Aliás, caminhei, e bastante, por duas cidades austríacas (Viena e Salzburgo) e por uma alemã (Karlsruhe). Não vi uma única lombada física nem eletrônica. Os alemães riem dessas coisas. Mas eles não têm senso de humor e os “ichpertos” somos nós.

    Posted by Ilton | setembro 3, 2013, 12:21
  2. Caro Sr Cesar Valente. Querias
    chorar pelo caso do Donadon por
    quê? Acaso não confias na justiça?
    Incrédulo pecador. Veja o caso do
    golpe do banco Nacional. Prenderam
    hoje, alguns responsáveis pelo descalabro.Justiça é isso Cesar.
    É um corisco.Foram só 23 anos para
    desencadear a fúria da pesada mão da justiça. Agora enquanto escrevo, devem já estar sendo soltos, pois
    ninguem é de ferro.

    Posted by Teco | setembro 3, 2013, 15:46
  3. Mas imagina só se iam botar bonde aqui. O coro dos descontentes e engenheiros de obra pronta não iam deixar, as licenças ambientais não iam sair, iam fazer umas quarenta reuniões pra não sair do lugar, etc…

    Posted by Eduardo Alves | setembro 4, 2013, 09:32
  4. Só mudaram de nome: agora falam do tal “metrô de superfície”, que nada mais é do que uma versão mais cara do bonde. Claro, não vão fazê-lo, é só joguete para consumir a grana toda em projetos e mais projetos.

    Posted by Fernando S | setembro 4, 2013, 13:47
  5. Pois é, esta foi mais uma obra dos governos militares. O fim do transporte público eficiente e a chegada maciça dos automóveis americanos. Lembro bem, ainda criança, quando na década de 60 cobriram os trilhos de Porto Alegre com asfalto. Era a chegada do “progresso”.
    Me recordo também que viajava de Porto Alegre a Ijuí, para visitar meus avós, de trem “Minuano”, vagões no melhor estilo europeu, com restaurante e comodidade, mesmo em bancos de madeira. Em nome do progresso o Brasil regrediu. Lamentável!

    Posted by Paulo Arenhart | setembro 4, 2013, 14:19
  6. A mobilidade urbana na São Paulo de 2,5 milhões de ha no início dos anos 50 já era um problemão. Vejam:http://www.youtube.com/embed/WAi7vBaGioo

    Posted by Max | setembro 6, 2013, 23:44

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