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Na estrada

Sensação de segurança

Sensação de segurança é isso: muro baixo sem portão

O Brasil tem muita coisa boa. Mas, como em todos os demais países, também tem coisas que deveria e poderia melhorar. Uma delas é essa sensação incômoda de insegurança, que atrapalha nossa vida, complica os negócios e faz com que as casas precisem ser protegidas por muros cada vez mais altos e portões cada vez mais sofisticados.

Estou passando uns dias em Perth, na Austrália Ocidental. Apesar do nome, Perth fica muito longe de qualquer lugar. É conhecida como a cidade mais isolada do mundo. A cidade grande mais “próxima” é Adelaide, a “apenas” 2.600 km. No Brasil, essa é a distância entre Florianópolis e Salvador, BA. Por aí dá pra sentir o tamanho da Austrália. Pra terem uma idéia, o Brasil tem cerca de 8,5 milhões de km2 e a Austrália 7,6 milhões de km2.

Sul do mundo

O longo caminho entre o Brasil e a Austrália.

Naturalmente, é também longe do Brasil. Dá pra chegar lá por vários caminhos. Eu escolhi esse que está no mapa: via África do Sul, que é uma das rotas mais curtas (umas 20h de vôo, aproximadamente). Mas poderia ter ido pelo outro lado (o mundo é redondo, lembram-se?), via Santiago do Chile e Sydney. Ou por Buenos Aires, sobrevoando o polo Sul. Ou com escala em Dubai, nos Emirados Árabes.

Vim visitar meu neto mais moço, que nasceu há dois meses. E aproveito para rever a filha, o genro e o outro neto, de dois anos e meio. No bairro onde eles moram, as casas têm muros baixos, ou cerquinhas e algumas nem isso. Nas janelas, nenhuma grade. E achei uma coisa especialmente interessante: muitas casas não têm portão!

Murinho baixo sem portão

Uma das esquinas do bairro. Janelas sem grades! Foto: Palhares Press

É um bairro instalado recentemente, as casas são todas novas e muitas ainda estão sendo construídas. Para os padrões brasileiros, é tudo “muito aberto”. E a preocupação principal das pessoas não é nem roubo, nem assalto, nem invasão, nem homicídio, nem acidente de carro. Isso nem entra nas conversas do dia-a-dia.

Pra gente é muito estranho essa “despreocupação”. Estamos tão acostumados com a sensação de insegurança, que custamos a nos acostumar com essa sensação de… segurança.

Há, evidentemente, crimes. A área metropolitana de Perth tem cerca de 2 milhões de habitantes e nem todos são santos. Mas há também polícia. Que distribui aos residentes que se cadastrarem no programa de “ewatch” (vigilância por e-mail), informações sobre as ocorrências na região e os cuidados a tomar. Por esse canal a polícia também recebe informações e questionamentos. Há grupos de vigilância comunitária e outras iniciativas para prevenir e evitar que a sensação de segurança se deteriore.

A polícia tem divulgado campanhas para fazer com que as pessoas, ao deixar o carro estacionado na rua, fechem as janelas e portas. E que os motoqueiros e ciclistas prendam seus veículos com cadeado, ao estacioná-los. Avisam que esses cuidados podem evitar o roubo. Ou, pelo menos, dificultar a vida do ladrão.

Taí uma coisa em que estamos à frente: somos paranóicos desde o nascimento. Ninguém precisa nos estimular a chavear o carro. Pelo simples fato que não passa pela nossa cabeça que alguém possa deixar o carro aberto na rua, nem por dois minutos.

Bom, mas não vou me estender com essas reminiscências de um turista acidental. Só queria mesmo compartilhar minha admiração e contar como é bom poder esquecer o triciclo do neto no jardim da frente da casa (de muro baixo, sem portão) e, no dia seguinte, encontrá-lo do jeito que foi deixado. Se eu contar para o vizinho que fiquei com medo que alguém roubasse o triciclo ele, que deixa uma Mercedes C relativamente nova estacionada na frente de casa todas as noites, certamente riria desse meu temor absurdo.

sem portão

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