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Cartinha do Emanuel

Cidade muda não muda

BAHIA: MANIFESTAÇÕES
(E Reflexões Gerais)

“Cidade muda não muda”
(De um cartaz que uma moça segurava numa manifestação no Rio de Janeiro)

Por Emanuel Medeiros Vieira

Em memória do moço – brasileiro como nós – de 18 anos que morreu nas manifestações realizadas em Ribeirão Preto (São Paulo), em 20 de junho de 2013, atropelado por um motorista que jogou seu carro na multidão
(Há outros feridos)

É uma mágoa e revolta acumuladas?

Sim.

É um efeito cumulativo – já o disseram.

Eu vim das manifestações de 68 – após o AI-5 –, e havia uma ditadura brava e uma repressão brutal.

Muita agressão, muita violência, muito cassetete, muito cachorro em cima da gente, muito cavalo, muito gás, muita bomba.

O que fazíamos, era andar com bolinhas de gude para derrubar os cavalos da repressão.

E pedíamos: evitem as provocações – havia agentes do DOPS infiltrados. Não cometam qualquer ato de vandalismo, não façam qualquer provocação.

As bolinhas de gude eram a nossa defesa. E quando os cavalos caíam, os soldados corriam vinham, furibundos atrás da gente.

Podíamos correr. Estávamos na casa dos 20 anos.

E agora?

“Da Copa, eu abro mão, quero dinheiro para saúde e educação”.
Era o canto de ordem de uma das manifestações no Rio, depois da partida entre Itália e México.

Há uma forte repulsa contra os novos “coronéis da vida republicana”, como classificou alguém

Contra a corrupção? Sim.

Contra a impunidade? Sim.

Um Judiciário falido e um Legislativo falidos, e um Executivo vindo das trevas.

E os partidos não nos representam em nada. Crise total de legitimidade.

Contra o rebaixamento nunca visto dos padrões morais?

Também.

Um pote de mágoa que um dia se quebra.

É um país doente.

Acreditavam que deixariam um país alienado com copas e olimpíadas.

Sim, há saques, há vândalos, aproveitadores, malfeitores.

Como controlar milhares de pessoas?

É justo gastar bilhões e bilhões com estádios, num país tão carente de saúde, educação, justiça, segurança?

A frustração chegou ao limite.

E o Brasil é hoje um dos países mais violentos do planeta.

Elio Gaspari relatou que o Itamaraty achou pequena a suíte de 81 metros quadrados do hotel Beverly Hills de Durban, na África do Sul, e “hospedou a doutora Dilma no Hilton”.
(Por determinação do Planalto, essas informações tornaram-se reservadas e, a partir de agora, só serão divulgadas em 2015.)

NA BAHIA

Como lembrou a alguém – e citamos apenas um exemplo – a Arena Fonte Nova (o estádio) é “a menina dos olhos do governador e a mina de ouro do consórcio que a construiu.”

E Ronaldo Fenômeno diz que não se faz Copa do Mundo com hospital.

Não faltam razões para o baiano protestar.

Ocorrem atos de vandalismo nas manifestações? Sim.

Os atos foram muitos violentos.

Mas quero lembrar que a polícia baiana foi extremamente brutal e truculenta.
E que um veículo do Governo do Estado passou no meio de um protesto e que alguém, lá de dentro, disparou tiros para o alto.

Na sexta-feira, o prefeito ACM Neto reconheceu que Salvador não tem condições de receber um torneio como o que agora recebeu.

Cito a jornalista Malu Fontes: “Contra o caos, contra o metrô de 13 anos que se recusa a nascer e continua vampirizar milhões. Contra a média de 25 cadáveres que a cidade produz só nos finais de semana, contra falta de saúde, educação e segurança, o crescimento de mais de 100% nos casos de estupro e a exigência que se faz à população para comportar-se como gado nas estações de transbordo de ônibus desde as primeiras horas das madrugadas.”

Segundo a mesma jornalista, Salvador se “cobriu deu uma crosta de decadências nos últimos anos”, e o governador se desloca para o trabalho, “flanando num helicóptero, enquanto no chão até a Rondesp (PM) é colocada para correr pelo tráfico com saraivada de tiros”.

E há o projeto da ponte Salvador-Itaparica – “esse projeto entre o megalomaníaco e o ‘non-sense’ – “que vai fazer naufragar na Baía de Todos os Santos, para reaparecer no bolso dos empreiteiros, a ninharia de US$ 8 bilhões”.

É pouco?

(Salvador, junho de 2013)

Discussão

Comentários estão desativados para este post.

  1. Excelente, como todos os textos do EMANUEL! Quem sabe os políticos, assustados com o clamor das ruas, resolvem fazer as tão aguardadas e tão urgentes reformas, entre as quais a política e a tributária. Quem sabe, agora, enfrentam as grandes demandas da sociedade – a Educação, a Saúde, a Segurança!

    Posted by Francisco Xavier | junho 24, 2013, 16:35
  2. Infelizmente, os políticos não mudam… Precisamos mudar de políticos. Ou de país….

    Posted by Léo | junho 25, 2013, 07:44
  3. PS.: O último candidato que ajudei a eleger foi o Lulla em 2002. Depois desta suprema desilusão, nunca mais meus candidatos se elegeram. A passeata em minha cidade foi linda, mas 80% dos eleitores havia votado para prefeito num cara que há uns 15 anos vem sendo condenado por várias falcatruas, como vereador, deputado e prefeito…

    Posted by Léo | junho 25, 2013, 07:48

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