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Cartinha do Emanuel

Violência

(E o quadro na Bahia)

“Nada que nos aflige pode ser considerado pouco”
(Mark Twain)

Por Emanuel Medeiros Vieira

Meu plano inicial era escrever um texto sobre o qual tenho pesquisado e meditado bastante: a violência nas escolas baianas.

Mas percebi que não poderia dissociar a reflexão do quadro da violência geral – cada vez mais brutal e banalizada – que toma conta do país.

Deixo para depois, o texto específico sobre a violência nas escolas baianas.

Os índices de criminalidade mostram que, segundo o Mapa da Violência de 2013, o Brasil tem uma taxa de 20,4 homicídios por 100 mil habitantes, enquanto nos Estados Unidos, o índice é de 4,2; na Argentina, de 3,4; na China, de 1,0.

As nossas taxas e criminalidade são o dobro das de países como a Bolívia e Moçambique.

Estamos no patamar do Sudão e do Quirguistão.

Sem falar que em alguns estados, como Espírito santo, Bahia e Rio de Janeiro, a taxa é bem maior que a média brasileira.

A causa dessa criminalidade altíssima seria apenas o império do tráfico?

Indago: os americanos não os maiores consumidores de drogas do mundo?

E a Bahia?

As estatísticas mostram que, hoje, a probabilidade de a pessoa ser vítima de um homicídio em Salvador é sete vezes maior que em São Paulo, cidade com uma população cinco vezes maior.

Todos os dias, na Bahia, caixas eletrônicos são estourados.

Tais ataques deixam a sociedade com a mesma perplexidade que as fugas em cadeias e presídios da Bahia.

“Os caixas eletrônicos têm sido atacados como rotina tão infalível, que é surpreendente a polícia não conseguir monitorar os pontos mais vulneráveis montar campana e prender os meliantes,”, observou um jornalista.

E vincular a violência com a pobreza é um lugar comum que já não se suporta. E até é um desrespeito em relação às pessoas humildes, como se elas – por serem pobres –, tivessem inata propensão ao crime.

Quem conhece um pouco de Freud, sabe que o império da Lei deveria ser um imperativo categórico e a perversidade e a crueldade – a índole má – de certos seres humanos não se explica por sociologia de botequim.

A pessoa incendeia o outro por sentir-se “explorada?”

Só acredita nisso, quem só lê (quando lê!) manuais.

O impressionante é a inércia e a incapacidade das autoridades estaduais da Bahia.

Como disse alguém, “a ousadia dos criminosos cresce na medida da sensação da impunidade”.

Mas o governo só gasta com propaganda.

Em 2012, na Bahia, foram gastos R$ 144 milhões com propaganda, contra apenas R$48,6 milhões investidos na PM.

As palavras são essas: banalização da vida e império da morte.

Para o governador é mais fácil: anda com seus carros blindados, helicópteros e muitos seguranças ao seu redor – e faz um governo meramente virtual.

Malu Fontes, jornalista baiana e professora da Universidade Federal da Bahia (UFBA) foi entrevistada pelo jornal “ The New York Times” para uma reportagem estupros no Brasil e os problemas de imagem do país que estampou a capa do jornal em 24 de maio.

No artigo, o correspondente do NYT no Brasil, Simon Romero, cita casos de violência sexual como a ocorrida com uma turista americana de 21 anos que foi estuprada oito vezes por três homens em uma van no Rio de Janeiro.

Na reportagem, Malu Fontes afirma que os “crimes só chamam atenção das lideranças políticas quando isso pode ferir a imagem do Brasil no exterior”, e reflete:

“Nós gostamos de acreditar no Brasil que vivemos num lugar e paz, felizes, quando na verdade, a nossa realidade é muito mais complicada. É como se fôssemos Narciso só que encarando uma piscina de esgoto.”

Ter segurança – não é questão de “esquerda” ou de “direita” – é ter direito à vida e não estar sujeito, cotidianamente, ao império do Mal.

Por favor, parem de subestimar a nossa inteligência!

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