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Governo LHS

A descentralização censurada

CINCO ANOS DE “DESCENTRALIZAÇÃO NO BANCO DOS RÉUS”
Livro sobre a relação Metrópole/governo LHS continua censurado

LHS, Metrópole e Márgara

LHS, Márgara e a revista Metrópole. Foto: álbum de família/Diarinho

Na foto: Luiz Henrique, ainda governador, assina um exemplar da revista Metrópole que tem, na capa, “Por toda Santa Catarina”. A moça com crachá de imprensa é Márgara Hadlich, colaboradora da revista. Foto enviada para a coluna por uma das pessoas envolvidas no imbroglio, com pedido de anonimato sobre a autoria.

Quando li o livro “A descentralização no banco dos réus” e estava escrevendo seu resumo, que publiquei aqui no dia 31 de maio de 2008, tive a clara impressão que ali estava uma obra feita para pressionar, para ameaçar. E usei o título “Retrato de uma chantagem” para identificar o assunto. Nada do que ficamos sabendo depois desmente essa impressão. Ao contrário.

Passados cinco anos, ainda há dúvidas no ar e processos se arrastando feito moribundos pelos escaninhos dos tribunais. Acho oportuno relembrar os principais capítulos dessa novela cheia de mistério e suspense.

1
Nei Silva e seu partner Danilo Gomes (cujo papel na revista, oficialmente, era de editor-chefe) buscam, em 2005, formas não convencionais de faturar com veículos de comunicação. No jargão publicitário esta atuação heterodoxa é, às vezes, classificada como “picaretagem”.

2
Prepararam um projeto sobre a Descentralização para “vender” ao governo do estado. Encontraram boa receptividade no então secretário do Planejamento, Armando Hess, que conhecia Danilo de Blumenau. Apresentaram o projeto em outubro de 2005. Receberam sinal verde em novembro.

3
O projeto não envolvia dinheiro público (pelo menos não diretamente). Munidos de cartinha de apresentação fornecida por Hess, eles iriam aos Secretários Regionais, que por sua vez indicariam os empresários que fossem fornecedores e parceiros do governo, que pagariam pelo projeto.

4
Seriam três edições da revista Metrópole, out-doors em várias cidades e um serviço que, à falta de nome melhor, está sendo chamado de “pesquisas de opinião”. Nei diz que era uma espécie de “feedback informal que a editora Metrópole levava ao governador LHS”. Isto foi orçado em R$ 500 mil.

5
A Metrópole não foi a única a fazer esquema semelhante (de ir atrás de patrocínio privado para colocar na rua produtos editoriais de apoio ao governo). A naturalidade com que secretários regionais e empresários atenderam Nei e Márgara (a vendedora de publicidade) demonstra que muitos não viam nada de errado naquelas transações.

6
Ia tudo às mil maravilhas. O nome do secretário Armando Hess era usado para abrir portas. Depois que Hess saiu do governo, em dezembro de 2005, Nei conta que usava o nome do próprio governador LHS.

7
Aí veio o momento em que a história de bons negócios se transforma em pesadelo: junho de 2006. O comando da campanha de reeleição de LHS está preocupado com aquele sujeito que aborda empresários, potenciais doadores da campanha e parceiros do governo. Chamam Nei para conversar e fazem, segundo ele conta no livro e tem repetido nas entrevistas, a proposta fatídica: “deixa os empresários em paz que a gente dá um jeito de te pagar”.

8
Pronto, o que era uma operação de risco, onde o dinheiro grosso seria arrecadado de fornecedores do governo, passou a ser um contrato bancado pelo governo, ou pelo menos, pelo PMDB. Afinal, a proposta teria sido feita em nome do partido. E, segundo Nei, os dois pagamentos que recebeu a seguir teriam, como origem, o caixa do PMDB.

9
Em agosto de 2006 os advogados do PP (e da coligação de Amin) entraram no TRE com o processo pedindo a cassação de LHS por abuso do poder econômico e uso indevido dos meios de comunicação. Entre as provas, as duas edições da revista Metrópole (de janeiro e abril de 2006) e os out-doors expostos em janeiro. E a bomba explodiu no colo do Nei.

10
A partir daí, o relacionamento esfriou de vez. E a cobrança da dívida passou a ser uma missão impossível. Mesmo assim, com todas as pendências e com a ação contra LHS se arrastando, o secretário regional de Criciúma, Gentil da Luz, ainda contratou a editora Metrópole para fazer uma revista, “A força do Sul”, cujo foco eram o próprio secretário e Eduardo Moreira.

11
Quando viu esta revista, na reunião do colegiado de Gravatal, em setembro de 2007, Pavan teria dito: “isto vai dar merda”. O governador LHS mandou recolher e incinerar a revista. E Nei afirma que tinha recebido apenas 15% do que Gentil e Moreira lhe deviam.

12
Ao tentar cobrar na Celesc, recebeu a informação que deveria ir ao Centro Administrativo. No Centro Administrativo só queriam conversar sobre o outro projeto, não queriam misturar as dívidas. Aí, vendo que a coisa estava ficando complicada, Nei fez uma interpelação extra-judicial para cobrar a dívida do governo.

13
Foi neste momento, já no final de 2007, que o secretário Ivo Carminatti entrou no circuito, “para resolver o caso”. E convencer Nei a manter a cobrança em termos amigáveis. O ex-secretário Armando Hess também voltou às negociações. Segundo Nei, discutem valores, mas não questionam a dívida.

14
Na última semana de maio de 2008 vários jornalistas, eu inclusive, receberam cópias do livro “A descentralização no banco dos réus”. Nei diz que foi ele que mandou distribuir os exemplares. No dia 30 de maio publiquei um resumo do livro no meu blog e no dia 31 aqui nesta coluna, no DIARINHO.

15
Nei afirma que recebeu parcelas mensais, em 2008. Por isso, nem desconfiou quando Hess o chamou para conversar num restaurante em Itapema e ficou de entregar mais uma parcela segunda-feira, em Florianópolis. Seria o pagamento de junho.

16
Com a divulgação da “obra”, Armando Hess ficou preocupado e buscou aconselhamento no Centro Administrativo. Ali foi montada a estratégia que seria seguida nas horas seguintes e culminaria com a prisão, em flagrante, na segunda-feira, dia 2 de junho de 2008, do Nei Silva por extorsão.

17
Nei foi preso e, 18 dias depois, libertado. Processado por extorsão, acabou absolvido na primeira instância. O governo (ou algum preposto) recorreu e o processo está no Tribunal de Justiça. Curiosamente, agora em segredo de justiça.

18
Poucos dias depois, ainda em junho de 2008, o livro foi censurado previamente. Primeiro, a pedido da ex-colaboradora Márgara Hadlich. Depois, a pedido do ex-secretário Armando Hess. A censura pedida por Márgara foi derrubada, mas a de Hess continua até hoje.

19
O processo por improbidade, resultado das denúncias que constam do livro, está parado porque o ex-sogro, ex-sócio (por 14 anos), ex-editor da revista, prefaciador do livro, jornalista Danilo Gomes, “sumiu”. Teve que ser citado por edital e mesmo assim não apareceu. Trata-se de uma espetacular mudança de lado que, um dia, valerá a pena contar em detalhes e poderá render outro livro.

20
Nei Silva tem conseguido sobreviver de bicos (também chamados de “frilas”). Ninguém lhe dá emprego, com medo do que o governo (que ainda é dominado pelos peemedebistas), pode fazer.

Nota do editor: para ler os posts da época, em que fiz o resumo do livro, basta clicar aqui.
E para “ler” a cópia do livro que foi colocado no Cangablog, clique aqui.

Discussão

Comentários estão desativados para este post.

  1. E depois afirmam que existe liberdade de expressão…

    Posted by Fernando S | junho 4, 2013, 12:53
  2. Está na hora de rever isso tudo. Quem mandou censurar? Quem censurou? Por que foi censurado? O que dizem CNJ, OAB e outras siglas às vezes interessadas na liberdade? Censura com qual embasamento? E,claro, o mais importante na vida republicana: a manifestação pública da principal figura pública envolvida nesse escândalo, o então governador Luiz Henrique da Silveira. Assim como no episódio Marlene Rica, ele, como homem público, ainda não se manifestou. Por questões éticas, morais e de responsabilidade deveria obrigatoriamente ter vindo a público. Nem fosse para pedir desculpas.

    Posted by Schneider | junho 11, 2013, 22:07

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