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Ranzinzices

Quando iremos aprender?

O brasileiro, esse sujeito esperto, de bem com a vida, que gosta de resolver as coisas com seu jeitinho malandro e tão bem humorado, ainda não conseguiu fazer com que seus filhos e demais entes queridos sejam poupados das mortes sem sentido que o desprezo pela lei e pelo bom senso causa.

A macabra contabilidade semanal dos mortos no trânsito, de tão repetida, nem espanta mais. É como se dezenas de aviões lotados caíssem sobre nossas cabeças todos os anos, é mais do que matam a maioria das guerras. Mas o brasileiro aceita isso como uma fatalidade. Algo inevitável que não vale a pena discutir.

As mortes dos jovens presos na ratoeira que era chamada de boate, de balada, de “casa de shows”, têm todas as digitais do jeitinho brasileiro de tocar a vida.

Trabalhei durante um tempo diante de um prédio onde funcionava a sucursal de um banco norte-americano. Toda semana os funcionários do banco tinham que fazer um exercício de abandono do prédio. Desciam pelas escadas, com capacetes, orientados pela brigada anti-incêndio. A repetição tinha, como objetivo, automatizar as rotinas. Assim, no caso de um incêndio de verdade, no meio da fumaça, cada um saberia por onde sair, como fugir, sem precisar pensar muito e sem precisar procurar placas que, no escuro, nem sempre são visíveis.

Nós, do outro lado da rua, ríamos dos “otários” submetidos a esses exercícios que para nós, que não fomos educados para a prevenção, eram perfeitamente dispensáveis. Nosso prédio nem extintor tinha. Sim, os otários eram eles.

Alvarás, como tantos outros documentos, foram inventados apenas para que alguém cobre propina, para que alguém pague um por fora, para que tudo seja feito de qualquer jeito, mas com aparência de respeito às normas. Podem perguntar pros bombeiros que fazem as vistorias, se nunca tiveram que fazer vistas grossas a algum problema, porque receberam “ordens superiores”?

Tem a liminar que libera, tem o prefeito que ajuda, tem o deputado que interfere, tem o governador que sugere, tem o ministro que é amigo. Tudo conspira para que o bom moço que é o empresário da noite abra sua arapuca e cobre os olhos da cara pela entrada e por bebidas nem sempre confiáveis. Sabe-se que, a qualquer momento, a “casa” pode virar notícia internacional. Mas quem se importa?

Discussão

Comentários estão desativados para este post.

  1. Ah, pois é, quem se importa com isso? O primeiro interessado na segurança deveria ser o frequentador desses locais, já que é dele o pelego que vai arder em caso de incêndio, mas isso pouco importa. Acostumados com o jeitinho em tudo, os jovens se metem nessas ratoeiras para “festar”, porque “a galera toda vai estar lá”, então não podem perder. São os últimos nessa cadeia de inconsequências, mas são os primeiros a sofrer os seus efeitos. Parece que essa vida “civilizada”, cheia de leis e normas pra tudo mitigou o espírito de sobrevivência que permitiu à humanidade chegar até aqui. Baladas e grandes jogos de futebol são ambientes de alto risco, mas as pessoas continuam indo sem medo. E quando acontecem as tragédias, procuram culpados. Poderiam começar olhando no espelho …

    Posted by carlos | janeiro 29, 2013, 14:49
  2. Eu confio em nossa juventude, e temos sim, jovens brilhantes. Claro, existem os ‘baladeiros’ e outros,…que fatalmente serão os desempregados de amanhã.
    Por outro lado, resolver as coisas a seu jeito, desarmado de informação, com formação e educação insuficientes são práticas generalizadas em todas as idades. Some-se a isso a burocracia extorsiva criada por ‘barnabés’ e legisladores mal intencionados e teremos como resultado esse cipoal de regras e normas que ninguém cumpre.
    - “O extintor não funcionou”!! disse um dos integrantes da banda. Pergunto: Qual o percentual da população conhece e sabe prá que serve um extintor de pó quuímico? (este deve ser colocado “de ponta-cabeça” para que aconteça a reação interna).
    - Observem também a desinformação e falta de educação no cumprimento das leis de trânsito, que são determinantes para a maioria das mais de 50 mil mortes/ano.

    Posted by Max | janeiro 29, 2013, 17:05
  3. Brasil: terra do jeitinho, da irresponsabilidade, da negligência, da gambiarra, da propina, do “não dá nada”, do excesso de fiscais e da ausência de fiscalização, dos atestados médicos falsos e dos laudos ‘tabajara’.

    Em 95% dos casos, a irresponsabilidade não resulta em consequencias. Mas quando resulta…

    Aí então o negócio é, de um lado, buscar culpados, e de outro, terceirizar a culpa, afinal ‘o inferno são os outros’.

    Infelizmente.

    Posted by Helder Teixeira de Oliveira | janeiro 29, 2013, 19:24
  4. Quando alguém fala em prevenção é chamado de pessimista (e algumas vezes de “cagão”).

    Posted by Wilmor HEnrique Dambrós | janeiro 29, 2013, 23:30
  5. Por essas e outras é que as coisas acontecem… “Qual o percentual da população conhece e sabe prá que serve um extintor de pó quuímico? (este deve ser colocado “de ponta-cabeça” para que aconteça a reação interna)”… quanta besteira em uma frase simples… Revela desconhecimento total sobre o funcionamento dos extintores. O extinto extintor de espuma é que deveria ser colocado de ponta cabeça para funcionar. O de pó químico é pressurizado…

    Posted by Carlos Alberto | janeiro 30, 2013, 17:48
  6. De tudo isso, tem uma frase que costumo repetir: “Simplicidade, que coisa complicada|”…

    Posted by Carlos Alberto | janeiro 30, 2013, 17:50
  7. OK Carlos Alberto, reconheço que errei. Errei pois conheci e fui treinado em empresa que trabalhei nos anos 80. Fiz confusão com o ‘extinto extintor’. Ainda bem que as coisa evouluem.

    Posted by Max | janeiro 30, 2013, 20:51

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