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Amigos

Um ano sem Mosquito

Em 13 de dezembro de 2011 o Mosquito foi encontrado morto em sua casa, na Pedra Branca (Palhoça, Grande Florianópolis). Na coluna do dia 15 publiquei o texto abaixo, que repito agora para reavivar a nossa memória.

Amilton Alexandre

Mosquito, numa festa do Diarinho, em 2008.

O Amilton Alexandre, quando jovem e magricela já era irrequieto. O suficiente para ganhar o apelido que virou sua marca registrada: Mosquito. Rápido, irritante, difícil de matar.

Quando soube que ele tinha morrido levei um susto e lembrei, na hora, do caso do vereador de Chapecó, também encontrado morto, como se tivesse se suicidado.

E é claro que a morte de um sujeito que incomodou tanta gente desperta as mais diversas paixões. E não faltou quem tentasse demonstrar que ele tinha cavado sua própria sepultura, ao ser tão desbocado.

Isso de achar que o fato do Mosquito exercer sua liberdade de expressão e dizer o que alguém não gostaria que fosse dito, ou que não queria que fosse dito daquela forma tornaria “natural” um fim violento e/ou prematuro, é de uma canalhice ímpar.

Não existe pena de morte para delitos de opinião. Só bandidos, malacos, imbecis amorais acham que podem (ou devem) calar os boquirrotos à força. E só gente muito rastaquera fica agora, diante do corpo sem vida do Mosquito, cagando sentença moralista, inventando uma relação de causa e efeito que é inaceitável em sociedades civilizadas (o que parece que ainda não somos).

O que irritava mais os ofendidos por ele é que, em alguns aspectos e de alguma maneira, ele tinha razão. Às vezes perdia rapidamente o foco e se embrenhava num texto confuso de adjetivação intensa e irresponsável. Mas na maioria dos casos sua indignação era tão justa quanto as nossas. E em alguns momentos rimos em segredo, satisfeitos porque aquele maluco teve a coragem de dizer o que gostaríamos.

E de tratar as coisas e pessoas com seus nomes próprios que não temos coragem de mencionar porque somos bem educados e bem hipócritas.

Vários dos mais ilustres ladrões do dinheiro público tremeram com a lama que o Mosquito jogou no ventilador. Tinham medo daquele sujeito gordo e fraco que não temia dizer o que achava que devia dizer.

Os mais bandidos achavam que ele merecia morrer. Os mais espertos, contavam com o efeito que o esmagamento de suas possibilidades de sobrevivência faria à sua saúde.

O Mosquito não é um herói, muito menos um mártir. É um batalhador, que sempre trilhou caminhos heterodoxos. Foi um comunista capitalista, um festeiro, um carnavalesco, quis ser diretor de marketing de time de futebol, foi dono de bar, viveu vida toda cercado por jornalistas, meteu-se em muitos negócios, alguns meio sombrios e quando descobriu a internet e os blogs, se achou. Não precisava mais sussurrar suas denúncias e sua indignação nos ouvidos dos amigos e conhecidos que trabalhavam em veículos de comunicação, esperando ver alguma coisa publicada. Podia ser seu próprio “publisher”.

Era um vaidoso, não sabia lidar com a rejeição. Ficava irritado quando eu não publicava seus comentários no meu blog. Subia aos céus quando cresciam os acessos ao Tijoladas e se angustiava quando notava que diminuíam. Tenho a impressão que ele sonhava em ser carregado nos braços pela multidão de leitores.

Mas parece que não deu muito certo: a turma adora ver um maluco xingando os políticos, mas não quer se envolver.

Uma pena. A democracia fica capenga sem gente que jogue pedra nos telhados de vidro. A internet fica chata sem esses indignados irresponsáveis que distribuem caneladas em engravatados que se acham intocáveis e, sobretudo, impunes. E agora vergonhosamente aliviados.

“Nas últimas semanas acusei o nocaute. Não tenho mais como
enfrentar as ameaças e retaliações pelo que publico.”

Amilton Alexandre, o Mosquito, na última nota publicada em seu blog “Tijoladas”,
poucos dias antes de ser encontrado morto.

Mosquito de bicicleta

No centro de Florianópolis. Foto de João Cavallazzi

LEMBRAS DISSO?

Pra matar a saudade, taí uma das primeiras notas do então recém-criado “Tijoladas”, publicada em 28 de setembro de 2008:

Para que servem os smurfs

Uma das missões da Guarda Municipal de Florianópolis é cuidar do patrimônio público.
O monumento de Anita Garibaldi na Praça Getúlio Vargas está sem a espada de bronze que foi quebrada.

O Monumento da Guerra do Paraguai na Praça XV está todo pichado.
As ramas de louros de bronze do monumento do Hercílio Luz na cabeceira da ponte foram roubadas.

Os smurfs não cuidam do patrimônio público. Ficam desfilando e namorando com seus carrões.

Pasmem tem até um carro tipo BOPE na GMF. Isto é o fim da picada.
A GMF quer ser a PM fora da lei.

Discussão

Comentários estão desativados para este post.

  1. Caro Cesar,

    Que besteira fez o Mosquito! Se vivo fosse, teria assistido, de camarote, a fragorosa derrota eleitoral de todos aqueles que mais contundentemente criticava e que o processaram: Dário Berger, Gerson Basso, Márcio de Souza,etc… Sem falar na desmoralização total do PT: condenação de José Dirceu et caterva pelo STF; caso Rosemary (caso, noutro sentido, do Lula); agora, depoimento de Marcos Valério colocando Lula no epicentro do Mensalão. Que homérica besteira acabou fazendo o Mosquito!

    Posted by Edison da Silva Jardim Filho | dezembro 13, 2012, 12:27
  2. Concordo com o Edson. Que besteira que o Mosquito foi fazer. Estivesse vivo hj teria assitido de camarote a derota daqueles que tanto espaços ocuparam em seu prestigiado blog. Mosquito faz uma falta……

    Posted by Mané enfezado | dezembro 13, 2012, 13:55
  3. Mosquito era meio maluco, meio destemperado, mas faz muita falta. Mas entendo o jeito malucão dele e o fim trágico às dores que ele sentia. Ele sentia demais, sofria demais, e, principalmente, apanhava demais! Às vezes, a dor é insuportável!

    Posted by Léo | dezembro 14, 2012, 14:06
  4. Ato muito nobre, César, você reforçar a memória de Mosquito!

    De fato, era a dor dele a de quem não suportava ver as iniquidades rolando soltas por aí como se fossem tão normais (embora sejam, mesmo, parte necessária da nossa história). No cotidiano, quantos manifestam esta dor no ato?

    Posted by Wagner Saback Dantas | dezembro 18, 2012, 10:41
  5. Prezados, a pior besteira mesmo foi deixar a filha órfã de pai. é muito triste para uma criança carregar esse fardo tão pesado. o tempo passa, fica o vazio. agradeço o respeito dos que escrevem falando bem dele. e para quem não gostava dele, peço que nao se manifestem mais. respeitem a memoria dele e deixem ele ter um pouco de paz.

    Posted by elaine | dezembro 20, 2012, 16:28

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