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Jornalismo

O outro lado do balcão

É dura a vida dos assessores de imprensa. Como o nome diz, assessoram seus clientes no relacionamento com a imprensa. É uma tarefa difícil, porque nem todos os clientes conhecem, querem conhecer ou respeitam o que os jornalistas fazem ou tentam fazer. E nem todos os jornalistas fazem uma distinção muito clara entre o colega que faz o meio de campo e o assessorado, que foi assunto da reportagem ou comentário.

É do jogo, portanto, que de tempos em tempos os jornalistas sejam procurados por assessores. Tanto pode ser um pedido de correção, de retificação, como uma informação adicional ou apenas uma tentativa de aproximação para manter boas relações profissionais.

Boa parte dos clientes de assessoria, quando lê alguma informação negativa ou comentário mais ácido a seu respeito pensa logo em má fé. Em penas alugadas, a serviço da concorrência ou de adversários. Em propósitos escusos para macular o seu bom nome. Mesmo que a notícia seja verdadeira, que os fatos relatados (embora desabonadores) tenham ocorrido daquela forma, o sonho de todo mundo é que o postulado de Ricúpero fosse transformado em lei e inserido na Constituição: “o que é bom a gente fatura, o que é ruim a gente esconde”.

Tem ainda aqueles assessores que, no desespero de conseguir o cliente, jogam sobre ele aquela rede enganosa da publicidade grátis: por que pagar para colocar anúncio, se é só mandar um press-release e a propaganda da empresa sai no mesmo jornal, de graça? Isso, muitas vezes, é um tiro no pé do assessor: se os veículos não derem aos press-releases o aproveitamento prometido, o cliente vai começar a achar que o cara é incompetente.

E tem aquele cliente que confunde assessor de imprensa com bombeiro. Só chama pra apagar incêndio. Não confiam que o profissional possa ajudar a evitar a m…, mas querem que limpe a sujeira e conserte o estrago. E isso, todos sabemos, é impossível. Se a empresa ou instituição não trabalha direito com a imprensa enquanto a maré tá baixa com vento fraco, na hora do temporal e da ressaca seus gritos de socorro não serão ouvidos.

De qualquer forma, é ali que os assessores ficam: entre o mar e o costão, tentando negociar com a maré e procurando tirar leite da pedra. Não é uma função que alguém escolha em sã consciência mas, diante da crise econômica que achatou salários no veículos e do excesso de jornalistas no mercado, parece que foi o que sobrou para muitos profissionais.

O melhor dos mundos é quando o cliente é culto e profissional o suficiente para entender como os veículos de comunicação funcionam. E também conhece as limitações de uma assessoria de imprensa. Com expectativas realistas, todos trabalham melhor e podem conseguir resultados mais duradouros. Afinal, o objetivo de manter um relacionamento permanente e consistente com a imprensa é criar ou manter o bom nome da instituição ou empresa. Não é obter notinhas em colunas nem conseguir ocultamento de cadáveres, digo, de informações ruins.

Essas reflexões me ocorreram enquanto estava lendo um e-mail que recebi do Diretor de Imprensa da Secretaria de Comunicação do Governo de Santa Catarina. Como sou um comentarista levemente desbocado e desrespeitoso, que gosta de citar aquele velho lema anarquista (“hay gobierno, soy contra”), de vez em quando os assessores tentam me mostrar o lado bom dos seus clientes.

E eu gosto de receber esses contrapontos, porque ajudam a mostrar de que forma o que escrevo tem sido entendido. Desde que passei a ser colunista de opinião, em 2005, nunca tive atritos sérios com o pessoal de imprensa do governador. Tanto o Gayoso (do governo LHS) quanto o Cláudio Thomas (o atual), passando pelos(as) demais que ocuparam a função, parecem entender que existe gente que critica o governo. Ou que não gosta do jeito que o governo ou o governador faz algumas coisas. E que nem por isso devem ser tratados como inimigos. Porque não são. Ou nem sempre são. E têm todo o direito, assegurado pela Constituição, de expressar o que pensam, do jeito que quiserem.

Da mesma forma, procuro retribuir esse tratamento cortês, avaliando com cuidado os pedidos de retificação e correção que qualquer um ou uma me envie. Se estou errado, corrijo sem tripudiar, sem fazer pouco e sem tentar dar um nó na cabeça do leitor para sair-me melhor na foto. Se acho que estou certo discuto, argumento, bato pé. Mas sempre procurando manter — mesmo no bate boca — um certo nível. Digo isso não porque me ache o máximo, mas porque já vi, pelaí, colegas tratarem muito mal quem tenta contestá-los. A ponto de alguns assessores recomendarem que nem se tente corrigir a nota com a informação torta, porque o risco de levar um xingão é grande.

A VIAGEM E A FOTO

Encerrados os prolegômenos sextaferinos, voltamos ao mundo real. Recebi, do Cláudio Thomas, a propósito da nota publicada no DONC de quinta (“A foto vazia”) um e-mail com informações sobre a viagem do governador. Como lembram, além de brincar com o fato do governo ter colocado, entre as fotos do evento no Japão, uma foto de uma tela branca com o Raimundo de costas, fiz pouco da relevância (ou da necessidade) da presença do governador em tal reunião, tão longe de casa. Taí a íntegra do que ele me mandou:

“Prezado Cesar Valente

A respeito de nota publicada em sua coluna, informo que o governador Raimundo Colombo deixa Tóquio, na noite desta sexta-feira, satisfeito como os resultados obtidos durante a visita.

O mais significativo deles foi o avanço nas negociações com o governo do Japão, via Ministério da Agricultura, para as exportações de carne suína de Santa Catarina. O vice-ministro da Agricultura, Yasuhiro Kajiwara, disse que faltam apenas alguns detalhes para concretizar as negociações.

A foto que você publicou mostra apenas os preparativos para a abertura da XV Reunião Conjunta do Comitê de Cooperação Econômica Brasil-Japão. O governador Colombo fez uma exposição sobre os atrativos econômicos de Santa Catarina. No site do governo existem outras imagens do encontro.

Na quinta-feira à tarde, o governador se reuniu com o presidente da Mitsui & Co, Masami Iijima, para discutir investimentos da empresa japonesa em SC. A Mitsui é um dos maiores conglomerados de empresas do Japão e uma das empresas que tem as ações mais negociadas do mundo.

E nesta sexta, pela manhã, Colombo falou para empresários japoneses sobre o setor da suinocultura em Santa Catarina.

No sábado, na China, a comitiva catarinense manterá reunião com dirigentes da Geely Internationl Corporation, a única montadora de chinese privada de veículos.

Obrigado e abraços”

Claudio Thomas
Diretor de Imprensa do Governo

Obrigado, Thomas, pelas informações sobre a agenda do governador. Se eu fosse menos preguiçoso teria publicado esse roteiro junto com a nota.

Minha implicância com as viagens de governadores e secretários (e deputados) ao exterior é antiga. No governo LHS, é verdade, a gente tinha muito mais oportunidades de pegar no pé dos viajantes. Raimundo, em comparação, é um sujeito caseiro. É claro que o governo, ao montar uma viagem como essa, trata de encher a agenda. Não dá mais pra viajar a passeio com dinheiro público sem que a repercussão negativa seja imediata. Em geral, portanto, são viagens cansativas com várias atividades. E, ao retornar, a viagem é sempre classificada como “muito produtiva”. A maioria delas não é. São contatos que ajudam a informar os interlocutores sobre o estado, complementam o serviço que deveria ser feito pelo Itamaraty, ajudam os esforços do governo federal, mas nem sempre são levados em conta na hora em que as decisões sobre investimentos são tomadas. Uma boa planilha de renúncia fiscal e outros favorecimentos e brindes (terreno de graça, acesso asfaltado, etc) pesam bem mais que o aperto de mão de um governador, na hora de fazer as contas. São, em essência, viagens políticas que terão mais utilidade dentro do estado do que fora. Poderão dizer, na campanha permanente em que estão todos os administradores públicos, que “o governador está preocupado com a criação de empregos, por isso fez o esforço de ir à Conchinchina convencer alguém a trazer uma fábrica para o estado”.

Discussão

Comentários estão desativados para este post.

  1. muito b(e)om,Cesar.

    Posted by vadico | novembro 9, 2012, 18:10

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