// você está lendo...

Eleições 2012

Manual do Prefeito Eleito

DUAS OU TRÊS COISINHAS QUE OS NOVOS PREFEITOS DEVERIAM LEVAR EM CONTA

Manual do Eleito

...

Enquanto esperava sair o resultado da eleição, no domingo, pensava cá com os meus botões por que o atual prefeito de Florianópolis tinha uma rejeição tão grande. Lá em casa, pelo menos, ninguém mais o aguentava.

E aí achei que poderia ser útil compartilhar algumas constatações, para que os eleitos e reeleitos não acabem os mandatos deixando, no eleitor, aquela sensação de “já vai tarde”.

* * *

NÃO SEJA CHORÃO

Todo candidado sabe, há séculos, que ser prefeito não é coisa simples, banal. Vai ter oposição, vai ter punhalada pelas costas, vai ter corpo mole dos vereadores da própria base, vai ter até, dependendo o caso, que trabalhar. Por isso, poupem-nos daquela cena ridícula que é ver um homem (ou uma mulher) chorando pitangas diante das câmeras, microfones ou nas páginas do jornal.

Quando surgir uma dificuldade ou um revés faça de conta que é forte, que tem um espírito de estadista. Siga o conselho daquele samba: sacode a poeira e dá a volta por cima. Queixar-se em público da dureza que é ser prefeito e reclamar da ingratidão com que tem sido tratado só piora as coisas.

* * *

ANDE PRA FRENTE

Uma das coisas mais chatas é ter que aturar o/a prefeito/a reclamando da administração anterior. Tem um tempo limitado pra fazer isso, que é no início do mandato. Faz um bom levantamento, mostra direitinho a herança que recebeu, toca o pau no antecessor, se for o caso, e depois toca a vida.

Em Florianópolis, mesmo depois de oito anos no cargo, o prefeito ainda acha um jeito de, volta e meia, falar nos que o antecederam. Como se, em oito anos, não desse tempo para fazer a população esquecer do passado. Isso parece sintoma de complexo de inferioridade, como se a gente estivesse, o tempo todo, comparando. A gente nem lembra direito quem foram os prefeitos anteriores. E provavelmente seria melhor mesmo esquecê-los. Mas aí o prefeito não deixa, porque volta e meia traz seus (dele) fantasmas para a conversa.

* * *

PENSE GRANDE

A gente sabe que o eleito é medíocre quando abandona todo planejamento de longo prazo, para cronometrar suas ações pelo calendário eleitoral. Tem que ter obra pra inaugurar a partir do segundo ano pra poder fotografar, filmar e usar na campanha. Os problemas mais complicados, que exigem soluções que demoram mais, são resolvidos com obrinhas meia-boca, remendos eleitoreiros.

Por isso, os malas odeiam planejar de uma forma integral: o transporte coletivo, as questões de mobilidade, por exemplo, precisam ser pensadas levando em conta inúmeras variáveis e envolvendo até mesmo as cidades próximas e os governos estadual e federal. E isso dá muito trabalho, leva tempo e as obras podem se estender por mais de uma gestão.

Daí, a saída é fazer um viaduto em curva aqui, outro ali, asfaltar umas ruas, remendar mais adiante. Resolve? Melhora um pouco, durante um tempo, mas todo mundo vê que falta “pensar a cidade” a sério.

* * *

MODERE O ÓDIO

O sonho de todo administrador público é que algum terremoto, furacão ou cataclisma qualquer mate todos os que o criticam. A começar por jornalistas, colunistas e radialistas. O político mequetrefe sempre acha que quem o critica nos meios de comunicação está sendo pago pelos adversários. O político esperto sabe que alguns de nós não se vendem (ou, pelo menos, ainda não se venderam). E que, com os vendidos, não adianta se incomodar. Porque, quando o administrador percebe que alguém está a serviço de algum desafeto, provavelmente a cidade toda também já notou e dá o devido desconto.

Demonstrar mágoa, em público ou em privado, contra a “má imprensa”, equivale a choramingar porque a vida de prefeito é dura. Pega mal. E tentar calar a boca de quem diz que o rei está nu, é sempre um tiro no pé.

A forma mais eficiente de não aparecer nos jornais ou na TV com a bunda na janela é não colocar a bunda na janela. Se não quer que falem na licitação dirigida dos limitadores de velocidade ou no escândalo da árvore de natal, não deixe que viciem a licitação nem que roubem dinheiro público.

* * *

EVITE ROUBAR

O prefeito recém eleito ou reeleito pode sentir-se muito grato a quem de alguma forma o ajudou. E aí reside enorme perigo. Boa parte dos generosos e gentis apoiadores de campanhas políticas tem segundas, terceiras e quartas intenções. Algumas das quais inconfessáveis.

Doar secretarias, lotear cargos, forçar a barra nas licitações são alfaces de dois legumes (ou, se preferirem, facas de dois gumes): quem vai acabar ficando mal falado e terá que responder nas urnas é o político agradecido. E vai que essa modinha nova do STF pega e os juízes e tribunais Brasil afora comecem a querer enquadrar os corruptos apesar do foro privilegiado?

Por mais escondida que a negociata seja feita, sempre se corre o risco de alguém ficar descontente e abrir o bico. Ou gravar e espalhar a lama. E aí o nobre gesto de gratidão acaba trazendo problemas imensos por vários anos.

Novamente: a melhor maneira de não correr riscos é não correr riscos. O ideal seria não roubar nem deixar roubar. Mas isso todos sabemos que é meio impossível: afinal, é preciso pagar de alguma forma as despesas de campanha.

* * *

Parabéns a todos e todas os e as eleitos/as. E boa sorte.

Discussão

Comentários estão desativados para este post.

  1. Muito depende da nossa Câmara de Vereadores. A atual composição barrou projetos importantes pra cidade como a moratória do Itacorubi e se não fosse o alarde da imprensa teriam aprovado a construção de prédios em bairros como Sambaqui e Santo Antônio de Lisboa.

    A futura composição da Câmara está repleta de jovens, mas se o Cesar colocar alguns deles na secretaria alguns nomes com velhos hábitos como Jaime Tonelo e Aurelio Valente irão voltar.

    Espero que o Jr. faça um governo técnico e aproveite o saber de professores da Udesc e Ufsc pois são altamente qualificados e comprometidos com o bem-estar da cidade sem visar outros interesses.

    Posted by Henrique | outubro 30, 2012, 10:44
  2. Poxa, incrível o quanto o pessoal anda quieto. Acho que a ressaca do Koxixo’s foi grande…

    Posted by Fernando S | outubro 30, 2012, 16:07
  3. Aproveita o saber de professores da Udesc e Ufsc? É um bando de doutrinados. Não caiu o muro de 1989 na cabeça dessa gente. Espero que o Cesar Júnior não perca um segundo com essa gente

    Posted by cego | outubro 30, 2012, 21:34
  4. cego, certamente tu ainda te referes aos dinossauros da Ufsc e Udesc, mas vá se informar um pouco do corpo docente dessas instituições em especial da Esag.

    Já ouviu falar no professor Leandro Schmitz? Pois ele é sumidade na área de projetos, incluindo os projetos sociais que cada turma sua faz por semestre onde os alunos ajudam instituições de caridade. Além disso, o professor Leandro participou do projeto que trouxe os principais barcos do mundo para Itajaí, etc, etc.

    O professor Elson que é da UFSC dá aula de planejamento urbano na França e no Canadá, por que aqui não serve?

    Te informa um pouco antes de falar besteira.

    Posted by Henrique | outubro 30, 2012, 23:28
  5. É mais do que sabido que tem mais professores em funções administrativas na UFSC ou em cargos comissionados no governo. É difícil contar com esses tipos… Mas é bom saber que existem bons professores!

    Posted by Léo | outubro 31, 2012, 12:37

Posts recentes

O fim de uma era
23 de maio de 2014, 17:27
Por Cesar Valente
E aí? Abandonou o blog?
6 de maio de 2014, 17:46
Por Cesar Valente
Brasília real aos 54 anos
28 de abril de 2014, 22:12
Por Cesar Valente
Beleza e crueldade
28 de abril de 2014, 22:01
Por Cesar Valente
A semana dos enigmas
17 de abril de 2014, 8:09
Por Cesar Valente

Arquivos