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Eleições 2012

Mais do mesmo

mudar pra continuar

Arte sobre foto de Fábio Pozzebom/Agência Brasil

Que maravilha! Recomeçaram as campanhas onde tem segundo turno e agora temos a oportunidade de ouvir novamente toda aquela xaropada que tinhamos ficado cansados de ouvir.

Em Florianópolis a estratégia da chapa Júnior & Júnior 55 (do filho do Cesar Souza com o filho dos Amin) parece que é mostrar pro eleitor as diferenças entre eles e a chapa Geandário 15 (do Gean “Preparado” com o prefeit-o-Dário “la garantia soy yo”).

Pra isso, foram buscar trechos de antigas campanhas eleitorais, onde Dário, então candidato, prometia exatamente as mesmas coisas que o Gean, atual candidato, está prometendo. E mostram também que algumas das promessas do Dário não foram cumpridas. Donde a necessidade do Gean prometer de novo.

CHEGA DE BOM-MOCISMO

Não sei se já contei pra vocês, mas eu gosto de campanha mais movimentada, em que o candidato não fica só naquelas bobagens “propositivas” e parte pro ataque, pra tentar mostrar pro eleitor por que não deve votar no outro.

Na minha santa ingenuidade, a campanha deveria servir justamente para que a gente ficasse sabendo os podres de cada um. E aí, olhando os monturos que restaram, pudesse decidir qual o menos fedido.

Mas é claro que muitos juízes eleitorais não pensam assim. Morrem de medo de um debate mais acirrado. Interpretam qualquer canelada (como essas que o Cesinha deu no Gean, mostrando imagens antigas de seu tutor e mentor) como uma coisa perigosa que pode “ridicularizar o candidato”.

Ora, se o candidato, por algum motivo, se expôs ao ridículo e se o que está sendo dito ou mostrado não é invenção, mentira, calúnia ou outro crime qualquer, deixa correr solto. Pro eleitor ver onde que a coisa vai.

E tem eleitor cagão que acha que qualquer debate ou discussão é “baixaria”. Morre de medo de ver os candidatos tendo que puxar pela memória, pela inteligência e sendo obrigados a esgrimir suas habilidades oratórias. Ora, como a política é a arte da conversa, da negociação e do convencimento, é só na hora da pressão, de um debate mais acalorado, que a gente vê quem leva jeito pra coisa e quem amarela.

Mas isso tudo é impossível, com a lei eleitoral que temos e a tradição triste que está se estabelecendo, de campanhas “propositivas”. Quem fala muito em propostas e só quer falar de propostas (mesmo que sejam essas coisas pasteurizadas e que nada mais são que promessas de campanha) é porque tem rabo preso e teme ir para o campo aberto enfrentar seu próprio passado e suas circunstâncias.

TUDO É “MUDANÇA”

Bom, mas voltando à campanha de Florianópolis: na semana passada, a propósito dos discursos que marcaram o primeiro turno, escrevi aqui: “pelo jeito ‘mudança’ virou mais uma daquelas palavras que, de tanto ser mal utilizada, perdeu o sentido original e agora significa qualquer coisa. Menos mudança”.

Agora, depois dos primeiros programas do segundo turno, não me resta senão bater na mesma tecla, mesmo correndo o risco de virar samba de uma nota só.

Os dois times que estão se enfrentando são veteranos do jogo político e conhecidos pela catimba. O PMDB leva uma certa vantagem, pelo “conjunto da obra”. Mas o PSD (ex-PFL, ex-DEM) também não fica muito atrás.

Assim, temos caras relativamente novas à frente das chapas, mas o “backstage” é tudo macaco velho. Por isso, o eleitor que não é militante de nenhum dos dois, tem dificuldade em escolher. Parece que é tudo farinha do mesmo saco, que o tempo passa e nada muda.

Mas, por incrível que pareça, os dois candidatos continuam falando em “mudança”. Numa parte do horário eleitoral do PMDB, afirma-se que o Gean é a continuidade do Dário, que o Dário fez e o Gean “fará melhor” e em outra parte desse mesmo horário desse mesmo candidato, ele se apresenta como agente de mudança. “Uma linda mudança”, chega a dizer a mulher do candidato.

É, sem dúvida, uma manobra circense: o candidato da situação quer ser também o candidato da mudança. Acho que seria bom que ele se decidisse, pra não confundir ainda mais o eleitor: ou vai continuar a obra do Dário, ou vai mudar.

Alguém tentou me explicar: “é mudança em relação aos governos anteriores do Dário, porque o Dário começou a mudança e o Gean continua… a mudança”. Não me convencem: o Gean é o candidato do Dário, que governou oito anos. Portanto, se for eleito não muda nada, continua inclusive parte do secretariado.

E isso, pra quem gostou do governo Dário, é uma coisa boa. Tem muita gente que gostaria até mesmo de votar novamente no Dário. O problema é que as pesquisas e o resultado do primeiro turno identificaram uma certa tendência pela mudança. E aí, dá-lhe falar em “mudança”, pra pegar os incautos.

O outro candidato, cujo grupo político governa atualmente o estado e esteve na prefeitura de Florianópolis por vários anos, também se apresenta como o agente da mudança. Faz um pouco mais de sentido, porque, se for eleito, muda todo o pessoal que hoje manda na prefeitura. E isso é uma mudança (se para o bem ou para o mal, é outra conversa).

Os adversários reclamam: “eles não podem falar em mudança porque já governaram a cidade e o estado”. O Dário já governou também, por dois mandatos, então tambén não deveria falar em mudança.

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* O título da coluna de hoje é inspirado em Lampedusa, que escreveu: “Se quisermos que tudo fique como está, é preciso que tudo mude”. A frase pode ser encontrada na página 32 de O Leopardo.

LAMPEDUSA, Tomasi di. O Leopardo. Tradução de Rui Cabeçadas. 3ªEd. São Paulo: Difusão Européia do Livro, 1963

Discussão

Comentários estão desativados para este post.

  1. Se não é pra fazer nada, cria-se GT-Grupo de Trabalho. Se não é pra mudar nada, muda-se o nome.

    Posted by Léo | outubro 16, 2012, 12:56
  2. A WOA não é aquela que cercou uma praça na Beira Mar Norte?

    Posted by Léo | outubro 16, 2012, 12:56

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