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Mão na botija

Recordar é viver

A gente desconfiava, há sete anos, que alguma coisa de muito errada estava acontecendo. Não era pra menos: o próprio presidente Lula foi à televisão pedir desculpas. Ora, um presidente não iria pedir desculpas publicamente se fosse pouca coisa.

O tempo passou e todos quiseram a acreditar e fazer crer que nada acontecera. No “máximo”, um crime banal, caixa 2. Até que o STF se encarregou de refrescar-nos a memória, remexendo velhos fatos e condenando alguns. Lula estava certo: era mesmo necessário pedir desculpas.

Tomo a liberdade, hoje, de convidá-los a um passeio na minha pequena máquina do tempo: fui ao mês de agosto do distante 2005 e trouxe algumas notas que se referiam a personagens e temas que agora foram julgados pelo Supremo Tribunal Federal.

Desde aquela época me incomoda muito um fato: quem reclama da “condenação sem provas” no mensalão não nega que tenha ocorrido crime. Mas nega que tenham deixado pistas. E esse seria o principal problema: o STF não embarcou na canoa da “falta de provas”.

NOTA PUBLICADA EM 30 DE AGOSTO DE 2005
DEFESA FROUXA

Cada vez que algum deputado ou senador(a) do partido do Zé Dirceu tenta se defender acusando outros partidos, dá um tapa na cara de cada um de nós.

É claro que há corruptos em todos os partidos, é claro que houve corrupção em outros governos.

Só que nada disso reduz a culpa do governo que roubou e deixou roubar enquanto dizia, de boca cheia, que não roubava nem deixava roubar.

NOTA PUBLICADA EM 24 DE AGOSTO DE 2005
LULA E O PT FIZERAM DO DELÚBIO O QUE ELE É

Nada como ler revista velha para avivar a memória. Estava numa sala de espera e peguei a IstoÉ Dinheiro nº 364, de agosto de 2004. Exatamente um ano atrás.

Na capa, o Doutor Delúbio, um novo personagem da cena política.

A revista contava quem era esse personagem, que estava sendo comparado a PC Farias. Claro que ele negava tudo, dizia que era um honesto militante esforçado. Mas tem dois trechos que achei importante trazer para cá, porque demonstram claramente que ele sempre foi cumpridor de ordens:

“IstoÉ: É verdade que o sr. desejou o cargo de ministro do Trabalho ou presidente do BNDES?

Delúbio: A verdade é que o Lula me pediu para ficar no PT. Todo mundo que trabalhou na campanha queria participar desse governo histórico e simbólico, mas o Lula decidiu que o governo só funcionaria bem se o partido funcionasse bem. Eu não pedi nada”.

E o presidente do PT recusa-se a compará-lo a PC Farias (tesoureiro do Collor) e Ricardo Sérgio de Oliveira (tesoureiro do FHC). Com Delúbio é diferente: “Ele não é um operador camuflado. Delúbio é dirigente partidário, foi eleito secretário de Finanças e responde ao partido, que é responsável por ele”, diz José Genoino, presidente nacional do PT.

Claro como água: todos os que agora se dizem surpresos com o jeito Delúbio de arrecadar e garantem que não sabiam de nada, mentem. Descaradamente mentem.

NOTA PUBLICADA EM 16 DE AGOSTO DE 2005
A ARTE DE EXPLICAR O INEXPLICÁVEL

O Delúbio vai depor amanhã (17 de agosto de 2005) às 11h30min na CPI. Ele é um técnico altamente capacitado e sabe, como poucos, passar uma impressão de ser humano pouco inteligente quando necessário.

Não é verdade que as explicações dele e da turma dele sejam confusas (tá certo que o esquema que eles montaram está mais para trapalhões do que para James Bond, mas também não se pode querer tudo), ou sejam mentirosas.

Eles contam uma verdade alternativa, por intermédio de uma narrativa organizada de forma heterodoxa que aparentemente não leva a lugar nenhum de tal forma que sempre que a gente acha que eles estão indo, na verdade estão voltando e vice-versa (a ilustração abaixo mostra isso claramente).

Escher - relativity

Desenho de M.C. Escher, de 1953

Portanto, quando qualquer de vocês tiver que se explicar sobre qualquer coisa mais complicada (chegada tarde, batom na cueca ou land rover na garagem), use a mesma técnica: “o que eu fiz é feito sistematicamente por todo mundo”.

Isso lança uma ampla suspeição e inibe os acusadores (“o que será que ele sabe a meu respeito?”), fazendo com que o pessoal fique mais cauteloso.

Depois, é só tomar uns comprimidos de Desmemoriol, para poder dizer, com toda a sinceridade, que não se lembra até do nome da sua mamãe. Esse remédio tem um efeito colateral positivo: enrola a língua. Assim, a conversa fica naturalmente pastosa, confusa e apropriadamente embaralhada, bem daquele jeito Delúbio de ser.

Discussão

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  1. Para piorar a situação deles, nenhuma condenação no STF (cujos integrantes foram, em sua maioria, nomeados em tempos de PT) foi apertada. Pelo contrário, foram “placares” de goleada, como 8 a 2 e 9 a 1. Ou seja, não há o que discutir.

    Posted by Fernando S | outubro 11, 2012, 17:10

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