
Molecagem sobre foto de Pedro França/Ag. Senado
Ontem o Senado da República levou ao ar o último capítulo da novela “Demóstenes Torres, o doce sabor da vingança”. Como a esta altura todos já sabem, o protagonista foi cassado e perdeu os direitos políticos. Ficará inelegível até 2027 quando, com cerca de 66 anos, deverá voltar ao Congresso, nos braços do povo bom, generoso e distraído de Goiás. Ou de qualquer outro estado.
O Senador Demóstenes, vocês lembram, era gordo. Bem gordo. Daí fez uma cirurgia de redução de estômago e ficou um magro tinhoso. Incomodou quase todos os seus colegas de Congresso, com seus discursos em defesa de procedimentos éticos, de conduta moral e cobrando bons modos dos agentes públicos.
Claro que todos os que foram alvejados com suas palavras cortantes e furibundas anotaram seu nome no caderninho dos ódios pessoais e profissionais. A vingança seria só uma questão de tempo. Mas quiseram os deuses que tudo acabasse ficando mais fácil para os desafetos do Senador. E a vingança veio a galope.
O senador moralista, paladino da ética e dos bons costumes tinha telhado de vidro. Em privado, andava de mãos dadas com gente mais que suspeita. Uma vez descobertas essas ligações, foi uma rápida trajetória ladeira abaixo sem qualquer chance de salvação. Sabia-se, desde o primeiro capítulo, qual seria o desfecho.
Agora deve começar outra novela: “A saga de Wilder Pedro”. O suplente de Demóstenes, empresário da construção civil, milionário, tem uma história muito ligada aos motivos que levaram à cassação de Demóstenes.
Wilder Pedro de Morais foi casado com Andressa Mendonça e com ela tem dois filhos. Hoje Andressa está casada com ninguém menos que Carlinhos Cachoeira. Quando Wilder vai buscar os filhos na casa da mãe, é à porta da casa do “amigo” que levou Demóstenes a ser defenestrado que ele bate.
Ou seja, esse mandato de senador por Goiás continua gravitando em torno do contraventor/empresário. Um dia, quem sabe, o próprio Cachoeira assumirá essa vaga.
O Senado da República tem uma certa experiência nesse tipo de coisa. Em 2000, cassou Luiz Estevão, por suspeita de meter a mão no baleiro da obra do TRT de São Paulo. No ano seguinte, por suspeitas de maracutaias no monitoramento do voto “secreto”, os senadores Antônio Carlos Magalhães e José Roberto Arruda tiveram que renunciar às pressas para fugir da cassação. No mesmo ano, Jader Barbalho também fugiu antes que a guilhotina lhe alcançasse o pescoço. E em 2007 Renan Calheiros conseguiu fazer um acordo com seus coleguinhas: renunciou à presidência do Senado, para não perder o mandato.
Demóstenes não quis renunciar e se ferrou. Perdeu os cerca de R$ 48 mil por mês que todo senador ganha e fica sem direitos políticos. Mas o tempo passa rápido: Luiz Estevão, por exemplo, a partir de 2014 já poderá voltar à política. E com o dinheiro que tem, ninguém duvida que conseguirá, se quiser, ser eleito a qualquer cargo.
O eleitor, vocês sabem, é complacente, desmemoriado e muito, muito bonzinho.

Os senadores que passaram maus bocados. Nomes abaixo.
1. Luiz Estevão, cassado (Jornal de Brasília); 2. Antônio Carlos Magalhães, renunciou (Antônio Cruz/ABr); 3. Zé Roberto Arruda, renunciou (Fábio Pozzebom/ABr); 4. Jader Barbalho, renunciou (Jonas Pereira/Ag. Senado); e Renan Calheiros, renunciou (Moreira Mariz/Ag. Senado).
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