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Generalidades

Petrelli conta (quase) tudo

A Record News, canal da rede RIC-Record em Florianópolis, transmitiu na madrugada de ontem uma entrevista-depoimento com o Mário Petrelli que, não por coincidência, é o dono da rede. Não sei se chegou a ser retransmitida para outras cidades do estado, mas na capital provocou um certo burburinho. Com razão, porque o Petrelli estava com vontade de falar e contar detalhes dessa história umbilicalmente ligada à política.

Apesar do horário (começou à meia noite de terça para quarta-feira), o “Sabatina News Especial” chamou a atenção de todos os que têm interesse pela história da comunicação no estado, porque se tratava do depoimento de um homem que esteve no centro da maioria dos principais eventos das últimas décadas.

E na longa conversa deu informações que muita gente ouvia pela primeira vez: o papel que o José Matusalém Comelli (então dono de O Estado) teve na passagem da concessão da TV Catarinense, canal 12, para os Sirotsky e a “traição” do Antônio Carlos Konder Reis, então governador, no mesmo episódio.

Só que o leitor do DIARINHO já sabia disso tudo. No entrevistão com o mesmo Mário Petrelli que este nosso bravo jornal publicou em 19 de junho de 2010, esse assunto foi tratado. A meu ver até com maior clareza que no depoimento de ontem na Record News. Olhaí alguns trechos do que o DIARINHO publicou há dois anos:

DIARINHO – Como foi a compra da sua primeira emissora em Santa Catarina?

Petrelli: A minha primeira incursão em comunicação em Santa Catarina foi a rádio Floresta [rádio Floresta Negra], em Joinville. Ao mesmo tempo comprei a rádio Curitibanos, em Curitiba, com um grupo de amigos. Ao mesmo tempo disputamos uma concessão de uma rádio em Chapecó. A primeira televisão do Paraná, hoje o canal 12, quando se fundou o grupo presidido pelo doutor Raul Vaz, o primeiro presidente escolhido para essa televisão se chamava Armando Petrelli, meu irmão. O Armando gostava. Então eu optei pela ideia de comunicação. E como surgiu uma crise na TV Coligadas e como o Flávio Coelho sabia que eu tinha a intenção de vir para Santa Catarina e ter uma TV, ele me procurou e disse que a Coligadas estava em crise, numa briga excepcional entre o Flávio Costa, o Caetano Benck e o Wilson Luiz de Freitas Melro. A TV Coligadas era uma S.A. e tinha o jornal de Santa Catarina, que tinha sido fundado pelos três e por diretores jornalistas. Eles queriam vender porque não se entendiam mais. Então eu formei o meu grupo de investimentos. Como eu não viria morar em Santa Catarina, porque eu sempre estava na ponte aérea Rio/Curitiba, Curitiba/resto do Brasil, chamei o Flávio Coelho e disse que a gente compraria desde que ele ficasse como diretor comercial.

DIARINHO – Teve um fato pitoresco nessa história. É verdade que o senhor teve que comprar uma loja para comprar a TV Coligadas e o jornal de Santa Catarina?

Petrelli: Quando o Wilson Melro foi conversar comigo sobre a televisão de Blumenau, ele disse: “olha, o negócio é o seguinte: tem que ser cabeça, tronco e membro”. E eu questionei o que era aquilo. Ele disse: “tem que comprar a televisão e o jornal”. Até ali eu compreendi. “E tem que comprar a loja, a Tevelândia. Quando nós fizemos a televisão, nós resolvemos fazer uma loja para vender aparelho de televisão”. Um negócio absurdo! Você faz uma loja para vender televisão. Quer dizer, você não quer o anúncio das outras lojas vendendo televisão? E nós tivemos que comprar cabeça, tronco e membro! A primeira coisa que eu fiz foi desativar a loja (risos). Era um contra-senso!

DIARINHO – Como eram as concessões de rádios e televisões nesta época?

Petrelli: Nenhuma estação de rádio e televisão no Brasil foi concedida por leilão ou por licitação pecuniária. Eram concessões dadas ao bel prazer pelo governo para aqueles que trabalham na área ou tinham alguma ligação, algum pedido. O Wilson Melro ganhou a concessão da TV Coligadas. O Darci Lopes e o Ody Varella ganharam a concessão da TV Cultura por influência do doutor Aderbal [Ramos da Silva]. Quando eu comprei a televisão, eu comprei para fazer uma rede. Eu estava disputando o canal de televisão de Joinville, independente da compra de Blumenau. Eu fui a Joinville e fiz um acordo com Dieter Schmidt, o Wittich Freitag e o Baltazar Buschle, que tavam disputando a concessão. Aí fui ao ministro Quandt [ministro das telecomunicações Euclides Quandt de Oliveira]. “Olha, ministro, para não criar nenhum dissabor em Santa Catarina estou fazendo essa composição aqui que é exatamente a composição da sociedade de Joinville. Está aqui o documento e nós então estamos disputando”. No dia 25 de julho de 1976 o ministro me ligou e disse: “Petrelli está tudo acertado entre vocês?”. Eu disse que estava tudo acordado. “Então vamos a Joinville que eu vou levar o decreto para Joinville”. Nesse dia, ele iria inaugurar a Telesc aqui. Aí assinamos o contrato da televisão de Joinville. Baseado no contrato da televisão de Joinville, eu coloquei uma condição ética, que nós geraríamos a Globo para o canal de Joinville. Tínhamos a concessão da Globo em Blumenau, e levaríamos a concessão da Globo para o canal Joinville. Quando nós compramos a TV Coligadas, era disputada também uma nova concessão de Florianópolis. Era da seguinte maneira: o grupo Jurerê, do doutor Aderbal; o grupo do Darci Lopes, com o canal Itaguaçu; e o grupo do Wilson Melro com o Sol e Mar. [E o Maurício Sirotsky?] Não, o Maurício se inscreveu em seguida, na disputa pela TV Catarinense. Nós ficamos com a Sol e Mar. Então fizemos um acordo, que foi homologado eticamente pelo doutor Antônio Carlos Konder Reis [governador na época]. Que disse daquele jeito dele: “É uma beleza esse entendimento que junta Santa Catarina tão bem. Você está promovendo a paz e a harmonia catarinense”, com aquela voz empostada dele. [Mas o resultado mais adiante não foi bem esse, né?] Eu vou contar porque não foi! E quando eu conto, eu tenho sempre documento para quem quiser ver. Naquele ano, o Carlinhos Müller lançou o prêmio Barriga-Verde. E durante o prêmio, o ministro Quandt foi homenageado. O prêmio Barriga-Verde era uma homenagem que se prestava aos cidadãos catarinenses que eram de fora de Santa Catarina. Eu prestei uma homenagem especial ao Quandt. Me lembro como se fosse hoje que, quando o Quandt chegou no aeroporto de Itajaí, eu e o Antônio Carlos fomos buscá-lo. O Antônio Carlos mais uma vez disse: “Olha, você vê que o ministro veio até aqui, não tem dúvida nenhuma que a televisão, que o canal de Florianópolis, também será de vocês.” Mas aconteceu o seguinte: o Comelli [José Matusalém Comelli, ex-diretor do extinto jornal O Estado], que até hoje é uma figura profundamente ligada a mim… Se você pegar o livro que a Acaert [o livro Memória da Radiodifusão Catarinense foi editado pela Acaert – associação Catarinense das Emissoras de Rádio e Televisão] editou, ela cometeu um engano que não poderia cometer. O que eu estou dizendo agora tinha que estar no livro. O que eu vou dizer a você, eles omitiram e tem uma carta minha protestando por isso. A verdade não pode ser omitida. Por mais que eu goste do Antônio Carlos Konder Reis, eu tenho que dizer que ele falseou a verdade. [Por que ele falseou a verdade?] Ele não teve culpa direta. Tivemos a concessão de Joinville assinada, a de Florianópolis deveria sair logo em seguida. O doutor Comelli, que não foi um empresário bem sucedido porque ele é bom demais, não tem visão empresarial e não decide com rapidez, ficou amarrando a resposta. O que eu disse: “Eu abro mão do nome Sol e Mar. Nós entramos na (TV) Jurerê”. Ele (Comelli) tinha 5% da Jurerê. Então ele tinha que tirar os outros acionistas para que nós pudéssemos entrar. Ao invés de ele fazer com rapidez, levou de barriga. Nesse ínterim, o Maurício [Sirotsky] tinha me procurado para fazer uma sociedade, e eu não poderia fazer sociedade com ele porque tinha uma ligação de amizade, ligação familiar com o Aderbal, tinha ainda a TV Coligadas de Blumenau e o acordo de Joinville. Mas nós [Petrelli e Comelli] fechamos um acordo verbal. Só que havia uma restrição ao Comelli. Naquele tempo o Cenimar, o SNI da Marinha, vetava o nome do Comelli porque ele participou da União Nacional Estudantil, foi comunista, não sei o que… Então a gente troca o nome do Comelli, bota o nome do irmão [Irineu Comelli], que não tinha problema. Bom, se o Comelli tivesse devolvido esse documento até o dia 15 de janeiro de 1977, a televisão era minha. A televisão era nossa! Era a palavra do ministro e a palavra do governador. Onde é que o Antônio Carlos faltou com aquilo que um homem não falta: a palavra!? Quando ele foi a Brasília, e o meu querido amigo, um grande amigo dele, que o fez governador, o general Golbery [do Couto e Silva], disse a ele que as eleições seriam indiretas. O Antônio Carlos titubeou um pouco. O Maurício, com a inteligência privilegiada que tinha, ele sabia que aquilo consolidaria a RBS, encontrou com o Antônio Carlos no Plaza Hotel, em Porto Alegre, e fez uma colocação que eu faria igualmente. Disse: “Olha, Antônio Carlos, nós somos profissionais de comunicação, o Petrelli não é um homem de comunicação”. Ele não fez crítica, falou uma verdade. “O Petrelli não vai morar em Santa Catarina. Ele já fez esse acordo todo lá em Blumenau. E você é o grande líder político de todo esse quadro”. Ele colocou um veneno sutil. Se o Comelli entregasse na junta comercial esse contrato, automaticamente eu levaria o contrato pro Quandt e teria saído o decreto nos dando a concessão. O Antônio Carlos é um homem íntegro no sentido de dinheiro público, é um homem íntegro em tudo o que ele diz, porém comigo ele não teve essa integridade. Ele voltou atrás com a palavra que ele deu várias vezes a mim, garantindo que estaria conosco até o fim. Foi ele que me incentivou. Tanto ele me incentivou que o diretor do jornal de Santa Catarina, que era meu, era seu primo irmão Victor Márcio Konder, que eu trouxe para cá. O Maurício foi inteligente e fez o papel dele. Falou para o Antônio Carlos que seria melhor deixar a TV com um grupo profissional do que entregar ao meu grupo.

DIARINHO – O senhor se sentiu traído pelo então governador Antônio Carlos Konder Reis?

Petrelli: Fui traído! Isso eu disse com todas as letras! Agora, concedo perdão ao Antônio Carlos. Se o Comelli nao tivesse sido lento, quer dizer, não muda a traição, mas muda a opinião sobre a oportunidade. Se o Comelli tivesse devolvido aquele documento, o Antônio Carlos cumpriria o que havia dito… [Essa indisposição entre vocês foi superada?] Eu me dou tanto com o Antônio Carlos que sempre ajudei nas eleições dele. Agora, não posso deixar de registrar que essa omissão houve depois da palavra empenhenada. E depois de eu atender algumas coisas que ele me pediu. Então o que acontece: quando eu perdi o canal de Florianópolis, eu me senti no dever moral de ir a Joinville e dizer que, pelo fato de eu ter perdido a concessão de Florianópolis, eu iria perder a Globo em Santa Catarina. [Já tinha noção disso?] Sabia tranquiliamente. A Globo tinha noção de que a concessão da capital era a mais importante. O Maurício era mais profissional do que eu. Eu não era profissional de televisão. Cada macaco no seu galho. Eu sabia que o Maurício venceria dentro da Globo a posição de dizer o seguinte: “Eu ganhei em Florianópolis, o Petrelli tem em Blumenau, mas eu quero a concessão da Globo em toda Santa Catarina”. E o nosso contrato com a Globo estava para ser renovado. Entao eu fui a Joinville e disse que eles não teriam a Globo. Aí o Maurício entra em Joinville, eles já estavam fechando o acordo com a Globo.

DIARINHO – Logo após perder a concessão e a geração da Globo, o senhor comprou outra televisão?

Petrelli: Comprei a Tupi. Agora, o dissabor foi a Tupi ser cassada. [E quando surgiu o SCC?] O SCC eu lancei com o João Calmon quando nós compramos a Cultura. Foi lançado em Florianópolis e nós chegamos a formar rede. Aí, eu comecei a fazer a instalação em Chapecó, quando eu estou fazendo a instalação em Chapecó, surge o decreto de cassação da Tupi. O Paulo Pimentel, que está vivo, deu algumas entrevistas na época dizendo que quem ia comprar a rede Tupi no Brasil era o doutor Mário Petrelli e ele. Uma vez eu entrei no ministério das Comunicações, tinha uns 50 jornalistas junto, e o ministro Quandt me perguntou: “Você vai comprar?”. Eu disse: “Ministro, eu não tenho cacife para comprar a rede Tupi. A rede Tupi só tem uma maneira… É o governo entender, para que não haja o monopólio da Globo, que é preciso fatiar a rede Tupi, região por região, chamando empresários de cada região”. Aí o governo resolveu abruptamente cassar a Tupi. Ao cassar a Tupi, eu fiquei totalmente descalço. Nesse ínterim, eu tinha recebido, em maio de 1979, o primeiro decreto de concessão assinado no Brasil pelo presidente Figueiredo, da TV Barriga Verde. Só que não me adiantava mais ter a TV Barriga Verde, que estava no meu nome, quando eu tinha comprado a Cultura. Eu tinha um problema e um dilema: eu não podia ser sócio das duas. Ainda estava no meu nome a TV Barriga Verde e eu tive que comprar a Cultura através de pessoas amigas minhas. Meus funcionários compraram. Eu tive que emprestar dinheiro ao Ernani Prazeres, Fernando Faria, Hélio Guerreiro, para pôr no nome deles em confiança. Até que eu pudesse me desfazer da Barriga Verde. O Ivan Bonatto, que mora aqui em cima, me procurou em Curitiba e disse: “Petrelli, nós temos interesse em entrar em televisão. Eu queria ver se você me transfere a Barriga Verde, que eu sei que você comprou a Cultura e não tem o que fazer com a Cultura”. Eu transferi a TV Barriga Verde pro Ivan Bonatto e certamente a transferência foi simbólica, e fiquei cinco anos ainda sem poder sair da Barriga Verde, e cinco anos eu tendo a Cultura em nome de terceiros.

DIARINHO – Perder a concessão da televisão de Florianópolis para a RBS, e, consequentemente, a transmissão da Globo para Santa Catarina, foi a maior derrota empresarial que o senhor já teve até hoje?

Petrelli: Eu não digo derrota porque hoje eu estou na competição e não tenho perda. Trato eles, como disse na palestra em Balneário Camboriú, não como adversários, mas concorrentes. Eu defendi Santa Catarina impedindo o monopólio nas comunicações, como está previsto no artigo 221 da Constituição. Se eu não existisse aqui, Santa Catarina estaria na mão de um grupo. Seja qual for o grupo, Petrelli ou um grupo gaúcho, a sociedade não pode ficar a mercê do oligopólio em comunicação. Quando eu tomei a posição de vir de novo para Santa Catarina, eu defendi a sociedade catarinense. Respeito profundamente e admiro a RBS, que é melhor que nós, é maior do que nós, mas se nós não existíssemos seria ruim pro governo, pro comércio, pra indústria, e ruim para a sociedade. Porque onde tem monopólio teve Goebbels, Mussolini, Fidel Castro. Onde tem monopólio tem Iraque, o Afeganistão, o Paquistão, Khomeini, isso é monopólio. Porque a Constituição Federal é clara quando diz uma coisa: os meios de comunicações não podem ter nem monopólio e nem oligopólio.

Discussão

Comentários estão desativados para este post.

  1. Que tal consultar o Diário Oficial da época da venda da TV Coligadas? Consta nele um contrato do Governo do Estado [através da Codesc(?) da época (com outro nome)], para propagandas do governo, não sei se no mesmo valor da venda.

    Posted by De Milão | junho 28, 2012, 18:45

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