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Jornalismo

É hoje, Moacir!

O jornalismo de Moacir Pereira” é o título do livro que será lançado hoje às 19h na sede da OAB, em Florianópolis (av. Beira-mar Norte, ao lado da Polícia Federal).

O autor é o professor, advogado e escritor Cesar Pasold. Segundo ele, o livro é resultado de uma extensa pesquisa, de mais de um ano, para conhecer e poder contar a vida do jornalista Moacir Pereira. Que, por sua vez, já escreveu vários livros contando a vida dos outros.

Somos todos velhos conhecidos. Convivo com o Moacir desde a década de 70 e Pasold foi meu professor no Colégio Catarinense, no final da década de 60. O xará, com mais de uma dezena de livros publicados, entre os quais uma biografia do ex-governador Jorge Lacerda, certamente produziu, sobre o Moacir, uma obra que valerá a pena ler.

A propósito do Moacir Pereira, tive a honra de desenhar a capa do seu segundo livro, publicado em 1978, e escrever-lhe o prefácio. O livro chamava-se “Comunicação e Liberdade” e transcrevo a seguir o que deixei registrado lá:

“Comunicação e Liberdade é um livro de poucas páginas que cumpre integralmente algumas finalidades da maior importância para o atual momento histórico catarinense. A primeira delas, a mais importante a meu ver, pela necessidade existente, é abrir uma necessária discussão sobre comunicação em Santa Catarina. Trata-se de um tema imobilizado cuja poeira tem que ser espanada. E este livro provoca a discussão que poderá jogar para o passado o silêncio ou – pior – a superficialidade das falsas discussões.

Outra das finalidades que este livro alcança é reunir num volume de fácil consulta, algumas das noções mais importantes sobre – diz o título – Comunicação e Liberdade; o inevitável relacionamento entre democracia e liberdade de imprensa, a noção inerente a todo jornalista de que a imprensa deve servir aos governados e não aos governantes, são princípios relembrados e justificados com numerosos exemplos.

Há, no livro, vários prognósticos sobre o futuro possível da comunicação que, aliada aos modernos recursos tecnológicos, pode chegar a progressos incríveis. E o autor não se deixa deslumbrar pelo futuro da máquina de comunicar. Colocando os pés no chão também enumera as responsabilidades dos comunicadores para com os segmentos marginalizados, para com a melhoria da qualidade de vida, para a fiscalização dos atos das elites que governam o poder econômico e político.

Assim, não se deve encarar como um livro pronto, mas uma obra aberta, que inicia uma discussão sobre dois temas interligados que ainda não começaram a ser examinados com a intensidade que merecem pelos profissionais catarinenses: Comunicação e Liberdade. E dessa discussão – espero – surgirão outros livros que desenvolverão cada um dos vários pontos aqui colocados, ampliando esta inquietação de saber, de investigar, que são atributos dos bons jornalistas, mas também de todas as pessoas que se preocupam com a sua comunidade, o seu país, enfim, que assumem seus papéis de agentes da História, renegando a passiva figuração de objetos da História.

Voltando ao presente, das 448 páginas do livro que Cesar Pasold lança hoje, algumas dezenas contém depoimentos de outros autores a respeito do biografado. Por causa do meu longo relacionamento com o Moacir, Cesar Pasold pediu-me também um depoimento. Aproveito a oportunidade para compartilhar com vocês uma parte do texto que enviei para ele:

Moacir Pereira

Mais uma faceta: o Moacir churrasqueiro. Foto: Palhares Press

As múltiplas trajetórias de Moacir Pereira

Por Cesar Valente

A primeira pergunta que deve ser feita, para começar qualquer conversa sobre o Moacir Pereira é: de qual deles estamos tratando? Sim, porque esse irrequieto colega aventurou-se por muitas trajetórias, simultaneamente. Construiu várias carreiras ao mesmo tempo. Não é próprio do Moacir Pereira aquele hábito pacato, que tantos temos, de fazer uma coisa de cada vez e cada coisa a seu tempo, com calma e vagar.

Portanto, para entender Moacir Pereira é preciso, antes de qualquer coisa, saber que, na verdade, ele não é um só. São muitos, todos ao mesmo tempo. Senão vejamos:

– Existe o professor Moacir Pereira, a quem devemos a criação e a instalação do curso de Jornalismo da UFSC. De auxiliar de ensino, em 1970, a professor adjunto, cumpriu todas as etapas de uma vida dedicada à Universidade Federal de Santa Catarina, até se aposentar, em 1995. Lecionou principalmente disciplinas relacionadas à Legislação e à Deontologia do Jornalismo.

– Existe o repórter Moacir Pereira. Começou no rádio em 1965 e depois fez jornal, TV e revista. Já no início desta carreira, fez parte da equipe do programa Vanguarda, liderada pelo lendário Adolfo Zigelli. O jovem repórter de voz agradável e dicção caprichada começava a ser conhecido profissionalmente junto aos nomes mais respeitados do rádio catarinense. Continua repórter até hoje, embora publicando matérias mais esporadicamente.

– Existe o acadêmico Moacir Pereira, autor de vários livros, mestre e doutor. Trafega entre o direito e o jornalismo e na maior parte do tempo costura uma adequada junção entre as duas disciplinas. Uma carreira longa que recentemente foi premiada com a imortalidade: valeu-lhe a eleição para a Academia Catarinense de Letras.

– Existe o sindicalista Moacir Pereira. Que foi presidente do Sindicato dos Jornalistas numa época em que uma das atividades inerentes ao cargo era tentar libertar dos porões da polícia política os colegas que de tempos em tempos eram recolhidos. E que continua em atividade, na diretoria da Associação Catarinense de Imprensa.

– Existe o Moacir Pereira colunista e comentarista político. A intimidade com o rádio o levou a ser comentarista de televisão, atividade que complementou com uma coluna publicada nos jornais. Sim, no plural. Ele foi o primeiro a ter a coluna publicada em dois jornais estaduais simultaneamente. Durante algum tempo (antes que fosse contratado com exclusividade pela RBS) era possível ler Moacir Pereira em dezenas de diários.

– Existe o Moacir Pereira advogado, formado em 1970, que exerceu algumas funções no serviço público e aposentou-se como Procurador do Estado junto ao Tribunal de Contas.

E seria possível enumerar ainda umas outras tantas carreiras, mas acho que estas são suficientes para começar a entender o Moacir e como ele funciona.

(…)

1. Localização

Como seria de se esperar, as diversas atividades ou profissões do Moacir Pereira são regidas por uma conduta pessoal única. Coerente e lógico, é possível entender seu trânsito pela história do jornalismo catarinense e a sua própria história, examinando alguns conceitos básicos, que podem localizá-lo no espectro ideológico e na tipificação de sua forma de agir.

A DIREITA E A ESQUERDA – Quando Moacir Pereira começava a construir sua vida profissional, o Brasil estava embarcando na ditadura. Ou no “movimento” de 64, também chamado de “revolução”. Moacir trabalhou com Adolfo Zigelli, um militante udenista que também era radialista, que em alguns anos evoluiu, transformando-se num jornalista elogiado pela sua independência, respeitado pela eqüidistância com que tratava os temas políticos e aplaudido pela coragem com que enfrentava os assuntos mais delicados. Moacir parece ter aprendido muito com ele.

O curso de Direito da UFSC, naquela época, não era conhecido como reduto do pensamento de esquerda. Ao formar-se, em 1970, Moacir Pereira já era membro da Associação dos Diplomados da Escola Superior de Guerra (Adesg). Ativo, ocupou várias funções na seção catarinense da Adesg e participou como conferencista de ciclos de estudos. Definitivamente, não é o perfil de um jornalista de esquerda.

Mas, e aí talvez resida um dos segredos da credibilidade e boa fama que Moacir Pereira mantém por décadas, nunca isolou-se no “lado de lá”. Não por acaso, seus três primeiros livros têm “liberdade” no título e tratam do direito à informação. Note-se que foram publicados entre 1976 e 1979, quando ainda não era coisa banal falar sobre isso. E, ainda mais, o primeiro deles, Comunicação e Liberdade, foi inicialmente um trabalho apresentado justamente num dos Ciclos de Conferências da Adesg-SC. Levou um tema habitualmente tratado em rodas de esquerda ao centro onde era refinada a sustentação teórico-ideológica do sistema vigente.

No Sindicato, como um dos diretores, ou a partir de 1975 como presidente, abriu as portas para os jovens colegas sem perguntar-lhes a orientação política e sem preconceitos. Chamou famosos jornalistas de esquerda, do centro do País, para palestras no Sindicato.

Escreveu, assinou e entregou pessoalmente, na Assembléia Legislativa, libelos em defesa de direitos que, na época, muita gente teria e teve receio de assinar.

Foi assim também quando criou o curso de Jornalismo. Aceitou sem qualquer problema os resultados dos concursos, que trouxeram para Santa Catarina, por exemplo, Daniel Herz e Maria Helena Hermosilla, estudiosos de formação marxista e que foram seguidos, mais tarde, por Adelmo Genro Filho, um importante teórico da esquerda. Respaldou, com seu prestígio institucional, com o respeito que desfrutava na Reitoria, as inovações que foram propostas e que anos depois acabariam colocando o curso entre os mais conhecidos e procurados do País.

A classificação (direita, esquerda), que depois do fim da ditadura e da queda do muro de Berlim perdeu força e clareza, já era difícil de ser aplicada ao Moacir ainda na década de 70. Não fazia segredo de suas posições, mas não era regido por elas no relacionamento com colegas que pensavam de outra maneira, aparentemente seguindo a velha e boa escola de Sobral Pinto, sintetizada na frase atribuída a Voltaire: “Discordo daquilo que dizes, mas defenderei até à morte o teu direito de o dizeres”.

(…)

Bom, o melhor é esperar pra ver, no livro, como foi que o Cesar Pasold, que é um craque e tão irrequieto quanto o Moacir, o retratou e à sua obra.

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