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Caraminholas

O dia em que deu tudo errado…

O que dizem as Leis de Murphy
– Se alguma coisa pode dar errado, dará. E mais, dará errado da pior maneira, no pior momento e de modo que cause o maior dano possível.
– Se há possibilidade de várias coisas darem errado, todas darão – ou a que causar mais prejuízo.
– Acontecimentos infelizes sempre ocorrem em série.
– A Natureza está sempre a favor da falha.
– Entre dois acontecimentos prováveis, sempre acontece um improvável.
– Nada é tão ruim que não possa piorar.

Costa Concordia

"O navio! O navio! Olha lá!"

“Vada a bordo, cazzo!”

Pois é, se tivesse dado tudo certo, a gente hoje não saberia o nome do capitão, não lembraria do nome do navio e provavelmente nem tomaria conhecimento da bela história de camaradagem e solidariedade que ocorreu no litoral italiano, mais precisamente na pequenina ilha de Giglio.

Esqueçam o que ouviram, leram e viram nos últimos dias sobre o Costa Concordia, porque vou contar a história tal como deveria ter acontecido se, num determinado momento, não tivesse desandado e terminado como acabou.

O capitão Francesco Schettino decidiu fazer, nesse trecho da viagem, um “inchino”. Aquela “homenagem” que os grandes navios de turismo fazem de vez em quando: aproximam-se da costa e soam suas buzinas. Em terra, o pessoal acena e se alegra, porque essa parece ser uma tradição naquela região densamente cruzada pelo transporte marítimo de lazer.

A tradução mais correta de “inchino” é reverência, como aquela genuflexão que se faz nas igrejas. Fazer com que um grande navio se “ajoelhe” diante de um porto, de uma ilha, de uma cidade é, de fato, uma homenagem emocionante.

A propósito, basta uma breve pesquisa nos sites da Costa Cruzeiros para ver que os “inchinos” de seus navios (inclusive do Concordia), rendem notinhas comemorativas. O que demonstra que embora a empresa diga, oficialmente, que repreende os desvios de rota, tolera, há tempos, essas simpáticas “quebras de protocolo”.

Pois bem. Schettino resolveu homenagear a ilha de Giglio, onde vivem os velhos pais e outros familiares do “maitre” (chefe dos garçons) do navio, Antonello Tievolli. Filho do barbeiro de Giglio, Tievolli era dono de restaurante na ilha até que, há uns doze anos, entrou para a Costa Cruzeiros. No Concordia, Tievolli chefiava todos os garçons e, no porto seguinte, Savona, desembarcaria para umas férias.

Há também quem diga que a homenagem incluiria um ex-comandante da Costa Cruzeiros, Mario Palombo, que vive naquela região. Mas ele não estava na ilha naquela sexta-feira.

Em todo caso, é um gesto bonito e simpático. Afinal, demonstra a atenção que o comandante dá aos demais colegas que trabalham no navio. São muitos. Mil tripulantes. De inúmeras nacionalidades. Mas se estavam próximo da ilha natal de um deles, por que não aproveitar para reverenciá-lo?

SEXTA, 13

Na sexta-feira à noite Tievoli foi chamado pelo capitão Schettino. “Antonello, venha ver, estamos na sua ilha”, disse o capitão. Quando chegou na ponte de comando o “maitre” olhou para a ilha e disse “cuidado, nós estamos perto demais”.

Se fosse um dia comum, o capitão riria da observação e trataria de conferir, ou pedir que algum dos seus oficiais conferisse, os instrumentos para assegurar-se da segurança da trajetória. Em seguida mandaria acionar as buzinas e em pouco tempo o Concordia estaria de volta à sua rota, rumo a Savona, ao norte.

Se tivesse sido um dia normal, a família de Tievoli teria guardado as fotos daquele naviozão iluminado ali bem perto. E os moradores de Giglio contariam, sempre que pudessem, a história daquela noite em que o filho do barbeiro fez o navio em que trabalhava chegar perto o suficiente para que ele pudesse acenar para os parentes, desde a ponte de comando.

E o comandante Schettino seria lembrado como um homem bom, colega compreensivo, capitão sensível que não se furtou a fazer um “inchino” para a família de um simples garçom.

Não era à toa que a irmã de Tievoli contava no seu facebook, desde sexta cedo, que o Concordia iria se aproximar da ilha às 21h30min. Todos estavam ansiosos pela reverência.

A PONTA DO ICEBERG

Agora, em abril, o naufrágio do Titanic completa 200 100 anos (viu? o erro aparece quando menos se espera). Não deixa de ser curioso que, a esta altura, a ponta afiada de uma pedra ainda consiga causar danos tão graves num casco de aço. E mais, que o navio com 4 mil pessoas (precisa ser grande pra caber tanta gente) tenha feito água num mar calmo, numa noite de bom tempo, sem icebergs traiçoeiros à deriva.

Talvez a culpa tenha sido do excesso de confiança a que toda aquela tecnologia embarcada e as rotas tão conhecidas (o navio faz o mesmo trajeto toda semana, vários meses por ano) podem levar. O capitão estava cheio de boas intenções. Queria produzir, para Giglio e para Tievoli e seus familiares, um evento inesquecível.

Mas aí, as coisas começaram a dar errado. E a pedra que rasgou o aço foi apenas o primeiro fato desastroso daquele dia que mudou, para sempre, a vida do capitão Schettino. E transformou uma linda homenagem numa tragédia que vai marcar, também por muito tempo, a família do pobre Tievolli. Que, literalmente, entrou de gaiato no navio.

Discussão

Comentários estão desativados para este post.

  1. Belo texto, contrariando o maquiavelismo viciado da mídia apressada.

    Posted by Virson | janeiro 19, 2012, 11:53
  2. Ops, não são 200 anos do naufrágio do Titanic, mas “apenas” 100. E, como já diz o ditado, “de boas intenções o Inferno está cheio”. Fazer o quê? O detalhe fez a tragédia.

    Posted by Fernando S | janeiro 19, 2012, 12:07
  3. E não fizeram o teste do bafômetro no capitão Schetino. Que por sinal tem cara e nome de personagem dos filmes italianos daqueles tempos. Felini & cia

    Posted by Mário Medaglia | janeiro 19, 2012, 17:59
  4. Isso não é um texto, é uma poesia.
    Só um Professor das Letras consegue enfileirar palavras e produzir algo assim, tão límpido.

    Parabens!

    Posted by Cambirella | janeiro 19, 2012, 18:43
  5. Os maniqueus da mídia afundaram junto com esse belo texto. As escolas poderiam insistir no “olhar diferente” sobre o fato. Enquanto isso, o jornalismo de panfletagem grassa… melhor, “singra” sem amarras centenas de milhões de pcs,tablets, laps, palms…

    Posted by LesPaul | janeiro 20, 2012, 07:54

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