Na coluna de hoje no Diarinho usei um recurso gráfico “engraçadinho”, aproveitando o navio adernado. É difícil fazer o mesmo aqui no blog. Por isso, mostro o pdf da coluna, pra vocês terem uma idéia do que o leitor do jornal está vendo. E abaixo, pra quem se interessar, o texto, num ângulo legível sem ter que virar o monitor.

Tem Diarinho nas melhores bancas
O JORNALISMO ADERNOU!
O jornalismo se aproximou demais da costa, atropelou umas pedras pontudas e afiadas e, pelo rasgão aberto no casco, entraram toneladas de água. E aí, começou a adernar. O resultado: leitores pulam no mar, abandonam o navio como podem, fogem de tudo que pareça informação jornalística, mortos de medo de serem arrastados para o fundo, tragados pelo abismo.
Havia sinais de que o desastre era iminente, mas faltava inteligência e sensibilidade para entender e corrigir a tempo. Um dos males que ajudavam a prever a catástrofe, era a exploração abusiva do óbvio. Obviedades no texto, nas manchetes, nas legendas, mostrando que a preguiça e a falta de cultura estavam tomando conta.
Querem um exemplo? Vejam o caso do Chico Anísio. O grande ator e comediante está muito doente há algum tempo. Internado há semanas, nos últimos dias seu estado se agravou. Médicos, família e amigos expressam sua preocupação. Algum jornalista adernado a quase 90º, com água em metade do cérebro, escreve, num título destacado que “Após a cirurgia estado de Chico Anísio inspira cuidados”. Ora, qualquer doente, desde que começa a se tratar, “inspira cuidados”. Mesmo pessoas perfeitamente sãs, “inspiram cuidados”. Existem poucas obviedades mais óbvias que essa.
O descompromisso com a exatidão, no jornalismo, em geral anda de mãos dadas com a falta de habilidade linguística do escrevinhador. O cara não sabe direito do que se trata, ou como se diz em português o que as agências estão informando e escreve qualquer coisa. Como o tal “banco de areia” onde o Costa Concordia teria “encalhado”. É muito mais fácil dizer que “o navio encalhou num banco de areia”, do que explicar melhor o que houve.
Este jornal circula maciçamente no litoral catarinense, onde muita gente conhece bem essas coisas de encalhar, naufragar, enroscar, fazer água. Imagino que, ao ler que o navio “encalhou num banco de areia”, tenham pensado que bastaria esperar a maré subir e colocar alguns rebocadores para tirar o barco do enrosco. Mas aí surgiram as fotos, onde aparecia um enorme rombo no casco, muita pedra e nenhum “banco de areia”. E agora?
O jornalismo semi-náufrago agarra-se a qualquer coisa que parece flutuar. Se estivesse em terra, diria que se apóia em qualquer muleta. Mas como estamos no oceano das imbecilidades, varrido pelos ventos da estupidez, agarram-se a tudo que possa manter à superfície aquilo que, de outra forma, afundaria como uma âncora desgarrada da corrente que deveria mante-la acima da linha d’água.
O jargão é uma dessas bóias improvisadas, que num primeiro momento ajuda a flutuar, mas depois se encharca e apressa a ida ao fundo. O jornalista vai ouvir um técnico qualquer: um advogado, um médico, um geólogo, um meteorologista, um policial. E em vez de traduzir para o português aquela linguagem própria dos vários ofícios, acaba utilizando-a tal como lhe falaram. Ao incorporar no seu texto, acriticamente, o chamado “jargão profissional”, o jornalista afunda um pouco mais. E leva consigo, claro, o jornalismo.
Até em coisas simples, como a previsão do tempo e os comentários sobre a situação climática os jornalistas, por preguiça ou burrice, usam termos técnicos como se estivessem em uma reunião do clube dos meteorologistas e não transmitindo, ao público leigo, informações importantes.
A intromissão mais abusiva, inapropriada e antiga do jargão na linguagem jornalística se dá nas editorias de polícia. Ao buscar, nas delegacias e postos policiais a informação, o repórter lê os boletins de ocorrência e conversa com investigadores, delegados e policiais de várias patentes. E aí também, por preguiça ou burrice, simplesmente transcreve o que leu ou ouviu. Usando os termos que circulam naquele ambiente restrito, para comunicar-se com seu público, que é bem mais amplo (ou deveria ser, ou era, antes do naufrágio).
Nem vou citar os clássicos “meliante”, “elemento”, “viatura” ou “evadiu-se”. Acho muito mais emblemático o uso de “masculino” para designar um homem suspeito de algum delito. O que até pode se justificar num B.O., para que não reste dúvida sobre o sexo da pessoa e também para economizar palavras, num texto jornalístico fica apenas ridículo.
Por isso tudo, o que vemos hoje é o jornalismo com metade da cara na lama e a bunda exposta, virada pra cima. Numa situação constrangedora para quem, acima e além de tudo, depende da fé pública e tem na credibilidade seu maior patrimônio. Como fazer com que os leitores acreditem, se fomos apanhados excessivamente próximos da costa, com um rasgão vergonhoso abaixo da linha d’água, os porões inundados e uma inclinação obscena que impede qualquer movimento? E, ainda mais, correndo o risco de, ao afundar ou ao sofrer algum abalo por causa das ondas, deixar vazar toneladas de óleo contaminante, que vai corromper ainda mais aquilo que um dia imaginamos que pudesse ser o quarto poder. Lamentável!
Ainda bem que alguns barcos menores, como este nosso DIARINHO, ainda flutuam em boa angulação e enfrentam as marolas a uma distância segura dos costões escarpados e traiçoeiros. Mas, em todo caso, mantenham os coletes salva-vidas colocados e, ao menor sinal de bobeira mandem e-mails, escrevam ou telefonem: às vezes é só um cochilo e, se avisado a tempo, é possível desviar e continuar o trajeto sem adernar.
César, perguntinhas: onde são formados esses náufragos do jornalismo? Não seria o caso de pedir ajuda aos universitários (professores)?
Mário. Tive um profeta professor, ou professor profeta, que certa vez na Ufsc em certa aula de Teoria de comunicação, previu que uma certa turma (Diretas Já)iria formar só assessores de imprensa, nenhum repórter.
Só não acertou na mosca porque ele esqueceu de acrescentar dirigentes classistas, donos de empresa de assessoria, e assessores políticos.
Esses naufragos do jornalismo que batisastes agora, acho que não tiveram aulas com esse professor. Fazer Jornalismo hoje tem pouco ou nada a ver com fazer o que algumas faculdades ensinam por aqui. Falta lastro, aí o navio afunda,ou vai na onda…
Na minha intrometida opinião, pois não sou jornalista, creio que também haja uma intencionalidade bastante forte dos “donos” da notícia, ou seja, dos donos dos meios de comunicação. Mas Tio César, esse é o retrato deste país tupiniquim, reflexo da falta de educação. Formamos hoje, nos colégio de Ensino Médio, analfabetos funcionais e, cada vez aumenta o bolo. Veja aqui no Estado: ninguém reprova mais no ensino fundamental. Então, como diria esse povo daesquerda que hoje está no poder, quando os militares nos governavam, que era a lógica deixar o povo burro, e hoje com os dasesquerda no poder, não é a mesma lógica? E não me venham falar em recurso, construção, etc…, pois o nosso problema não é financeiro, mas nas questões pedagógicas.
Mais uma vez o “masculino” proprietário do blog acertou em cheio.
Tio, essa foi a chamada do Jornal Hoje de 11/01/2012
“A vedete do Salão do automóvel de Detroit são (sic) os carros”…
no coments!
Quais seriam as outras vedetes de um salão de automóveis além de carros?
Nem comentar a concorrência…
A turma são fogo.
E o JN fechou a edição de hj com uma pérola. “….quando 2.500 supermercados de São Paulo passarem a cobrar pelas sacolas fornecidas, obrigando os clientes a substituirem as sacolas plásticas por ? RECICLÁVEIS..”. Mas os repórteres de certa rede de comunicação em nossas paragens são imbatíveis. Os noticiários da rede, na maioria das veze não noticiam nada. Abordam assuntos que não interessam ao público e inventam assuntos esdrúxulos, como doenças raras e outras extravagâncias. Também já lí e ouví ‘barbaridades’ que são de chorar, comno situar a cidade de São Bento do Sul no Vale do Itajaí, ou o município de Ascurra no Alto Vale. É nisso que dá importar ‘experts’, cujo principal atributo é ter nascido na terra do patrão.