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Leituras online

A censura é bicho brabo…

Lembrei de um excelente artigo que o Celso Martins escreveu, em abril de 2009, sobre o Mosquito e seu Tijoladas, já naquela época com onze processos. É interessante porque faz uma reflexão sobre o futuro (o que vai restar de todos esses processos) e sobre o passado de alguns que estão (estavam?) processando o inseto. Podem ler no local original clicando aqui. Logo abaixo da foto tem a íntegra, que tomei a liberdade de trazer pra cá.

Mosquito na Alesc

Júlio Garcia, Moacir, Mosquito, Afrânio e eu em agosto de 2006. Foto: Eduardo Guedes/Alesc

A censura é bicho brabo, engoliu Mané João

Por Celso Martins
Publicado originalmente no Sambaqui na Rede

Amilton Alexandre, o Mosquito, é um grande desbocado, linguarudo e escrachado. Seu blog arremessa tijoladas, xinga, enlameia. Tudo isso lhe rendeu até agora 11 processos, principalmente por danos morais (no Sambaqui na Rede tem a relação de processos da época). É possível que ele se incomode muito, muito mesmo! Afinal, as pessoas atingidas por seus petardos se sentem incomodadas, agredidas, vilipendiadas, destratadas e ofendidas. Daí a reação pela via judicial.

Mas vamos refletir um pouco. Lá pelo ano 2025, por exemplo, quando esse período histórico for estudado, vão se sobresair os processos, não o que ele disse a respeito dessa ou daquela pessoa. É isso que vai valer. Entre aqueles que acionaram o Mosquito judicialmente estão alguns personagens com passado histórico de luta contra a ditadura, pela redemocratização, como o vereador Márcio de Souza (PT) e o deputado estadual Edson Andrino PMDB). Icuriti Pereira (PMDB) é outra figura que no passado optou pelo incômodo MDB, mas poderia ter buscado as águas tranquilas da antiga Arena, o partido de sustentação da ditadura.

São figuras as quais respeito muito, tanto pelo passado como por posturas recentes. O Mosquito não acha isso e se insurge provocando, acusando, tirando sarro ou, como se diz nas ruas, cutucando o leão com vara curta. E isso incomoda essa gente. Mas em 2025, qual a leitura que as pessoas vão fazer disso tudo? Vai ser difícil explicar que homens de passado de luta contra a ditadura militar-civil de 1964, tenham tentado calar um blogueiro desbocado. O que o Mosquito anda escrevendo vai se perder, pouco ficará registrado, ou nada. Já os processos não. Eles vão ser os documentos com os quais os historiadores irão se debruçar para estudar o período em que vivemos. Depois de transitado em julgado, os processos vão para o arquivo do Tribunal de Justiça de Santa Catarina. Vai valer o que está no papel e não nos bits.

No futuro, então, as pessoas vão ficar sabendo que lutadores pela redemocratização não suportaram as pressões de um desbocado e tentaram calá-lo pela via judicial. O que dirão disso os netos e bisnetos de Andrino, Márcio e Içuriti? O que dirão os descendentes de Manoel Dias (PDT)? O que pensarão os parentes de Vilson Rosalino da Silveira (PPS), que para fugir às torturas da Operação Barriga Verde de 1975 teve que largar tudo às pressas e se refugiar na França? Eu não ponho a minha mão no fogo pelo Dias, nem pelo verdolengo Gerson Basso (PV), pois não os conheço como conheço os demais, mas me preocupa o que a posteridade vai pensar deles. Talvez que homens que deram o melhor de sí e de sua juventude pela redemocratização, não tiveram equilíbro e bom senso para suportar críticas contundentes, como as desferidas pelo Mosquito.

É isso que vai acontecer. E quem foi o Mosquito? Bem, o Mosquito esteve envolvido nos protestos contra o ditador João Batista Figueiredo em novembro de 1979, tendo sido preso e processado com base na Lei de Segurança Nacional, junto com outros seis estudantes. E que uma vez restabelecida a democracia no Brasil, acabou sendo processado por danos morais etc. E quem o processou? Aqueles que estavam até bem pouco tempo na mesma trincheira. Mas como? É isso mesmo! Será essa a reação da posteridade às tentativas de fazer calar o boca-grande e linguarudo. Nesse caso o Mosquito será a vítima e os antigos combatentes pela democracia os algozes. Pensem nisso. E reflitam um pouco nas colocações do grande Ulysses Guimarães reproduzidas abaixo.

ADVERTÊNCIAS DO PASSADO
“A história do Brasil contemporâneo é uma crônica de autoritarismo, ineficácia governamental, de exclusão e injustiça sociais insuportáveis. Mas é, também, o despertar de um povo, em meio a enganos e decepções, para uma exigência de cidadania, de igualdade e de justiça”. (Programa do PMDB)

A liberdade de expressão,
segundo Ulysses Guimarães

“O poder absoluto, erigido em infalível pela censura, corrompe e fracassa absolutamente.”

“A liberdade de expressão é apanágio da condição humana e socorre as demais liberdades ameaçadas, feridas ou banidas. É a rainha das liberdades, disse Rui Barbosa.”

“A grande força da democracia é confessar-se falível de imperfeição e impureza, o que não acontece com os sistemas totalitários, que se autopromovem em perfeitos e oniscientes para que sejam irresponsáveis e onipotentes.”

“A verdade não desaparece quando é eliminada a opinião dos que divergem. A verdade não mereceria esse nome se morresse quando censurada.”

“A verdade não tem proprietário exclusivo e infalível.” (22.9.1973)

“A censura é a inimiga feroz da verdade. É o horror à inteligência, à pesquisa, ao debate, ao diálogo. Decreta a revogação do dogma da falibilidade humana e proclama os proprietários da verdade.” (18.7.1967)

Discussão

Comentários estão desativados para este post.

  1. Usou e abusou do seu direito de se expressar… Ele fez certo, burros somos nós, os acomodados, filhotes pacíficos da ditadura militar!

    Posted by Anthony Toini | dezembro 14, 2011, 03:13
  2. Sem tirar nem por, como regra nos textos do Celso. Bela lembrança, Cesar. O que deve ficar claro é que esse viés “heróico” é muito mais fruto de quem olha e não tem coragem de falar ou de assinar o que diz. Mas quem também, contaminou o Muska pelos milhares de acessos que recebeu da turba carente, em parte frouxa, quando identfificou um ponta-de-lança incendiário. E como disse no maisbarulho, ele deixou-se tomar pela criatura que criara. abraço Paulao

    Posted by LesPaul | dezembro 14, 2011, 08:42
  3. Afinal qual era a causa do Mosquito?
    Eu lembro dele, lembro das conservas que tive com ele, lembro das invenções, dos movimentos, dele querendo espaço na cidade, mas pena que vou ficar com o pior de um cara que todo mundo tá enaltecendo a coragem de gritar, de falar, de denunciar: o Mosquito fracassou, não teve coragem de enfrentar o que ele mesmo criou. O Mosquito matou-se, na hora aga fugiu, não enfrentou o seu destino.Uma pena.

    Posted by Brito | dezembro 14, 2011, 20:16
  4. Que destino? Ser assassinado a tiros por um de seus denunciados? Acho que ele foi de uma coragem enorme. Se fossem abertos tantos processos contra seus desafetos quantos foram abertos contra ele, ele não ficaria tão desgostoso da vida, da política, da humanidade.

    Posted by Aline | dezembro 15, 2011, 16:17

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