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Caraminholas

Much ado about nothing!

Fiquei uns minutos pensando se deveria ou não escrever o que acabei decidindo escrever, porque não tem como dizer o que pretendo dizer sem ferir suscetibilidades, pisar em calos ou apenas irritar alguns ou todos os citados ou relacionados com os fatos que vou comentar.

Antes de começar, preciso dizer que não entro na história desapaixonadamente embora a esta altura, fora da universidade, seja nada mais que um observador distante (e distraído). Fui um dos fundadores do Zero (jornal laboratório do curso de Jornalismo da UFSC) e por uma década fui professor do curso. Isso, é claro, fez com que, durante esse tempo, tivesse uma inevitável proximidade com o jornal, como tive com os demais laboratórios do curso. Via o Zero como um laboratório. Um local de experiências, uma ferramenta que o curso coloca ao dispor dos alunos para praticarem um pouco e sentirem, em certa medida, o gostinho de produzir um veículo impresso. Nada mais.

De tempos em tempos até pensávamos em transformar o Zero num jornal da cidade, ou pelo menos da cidade universitária, mas aí esbarrávamos em impedimentos poderosos: o Zero era impresso com escassa verba pública, destinada a laboratórios universitários, não tinha autonomia financeira nem para ter periodicidade regular, nem para manter equipe mínima, nem para bancar uma distribuição eficiente. E, muito menos, para poder tratar de todos os temas com a necessária independência. A ousadia informativa tolerada em um jornal laboratório de circulação restrita certamente seria enfrentada de outra maneira em um jornal que pretendesse disputar a atenção de um público leitor mais amplo. Por isso, durante tanto tempo, o Zero foi “apenas” um jornal laboratório. Às vezes mais eficiente como instrumento de ensino e aprendizagem, às vezes menos, mas sempre laboratório.

E sempre me assusto com a dimensão e a repercussão de algumas discussões em torno do Zero.

Li, apenas hoje, o texto com que os professores Rogério Christofoletti e Samuel Lima, defendem-se das acusações lançadas aos quatro ventos pelo ex-editor do Zero, também professor Ricardo Barreto. Sem muita paciência para essas discussões, ia escrever apenas uma frase: “bem feito, quem mandou colocarem o Barreto como ‘ombudsman’”. Mas acho que a maioria dos leitores não entenderia a ironia e os citados acabariam não entendendo a quem, exatamente, eu quereria ofender com isso.

O que o Barreto escreveu pode ser lido no blog do Canga. E o que o Christofoletti e o Samuca escreveram, pode ser lido no Monitorando (cuja caixa de comentários está “bombando”).

Resumo da ópera: uma aluna do curso de Jornalismo, para fazer um trabalho de uma disciplina ministrada pelo Ricardo Barreto, ligou para a casa do Gay Talese, falou rapidamente com ele e produziu um texto, em forma de entrevista,com essa conversa. Um lance ousado, com bom resultado. Ponto para a garota. O Barreto não é mais editor do Zero. Mas foi durante muito tempo e sempre tratou o jornal como seu. No sentido de dotá-lo da inconfundível feição gráfica e editorial barretiana. Os editores do Zero, este ano, tiveram a idéia de colocar um ombudsman. E, para tornar as coisas mais complicadas, deram o posto… ao Barreto! Ora, era inevitável que, no momento em que o jornal não publicasse alguma matéria ou reportagem que o Barreto achasse que deveria ser publicada (ainda mais se tivesse sido produzida em uma das disciplinas dele), faria exatamente o que fez: botaria a boca no mundo.

Bom, permitam-me, então expor o que penso sobre essa lavação pública de roupa suja. Tentarei ser sintético:

1. É claro que apenas o fato de uma aluna ter tido a sacada de tentar falar com um personagem que estava sendo estudado em aula, não transforma o que ela obteve em matéria obrigatória de qualquer jornal. Dependendo do que estivesse disponível para fechar aquela edição, qualquer entrevista, reportagem ou artigo poderia ficar de fora. Concordo com boa parte do artigo com que o Christofoletti e o Samuel defendem-se da ira barretiana. Mas, é claro, discordo também de boa parte.

2. Os três tratam o Zero como um veículo de comunicação que deve atender a públicos leitores, cumprir tarefas de serviço público e portar-se como alternativa aos veículos da imprensa “convencional”. O Zero é um jornal laboratório. Tem que atender às necessidades didáticas, ajudar o aprendizado, permitir experimentações e funcionar como… laboratório. Exagera o Barreto ao dizer que, como “ombudsman” do Zero deve “defender os interesses e direitos do leitor (e cidadão) em receber informacão atual, crível, ética e de qualidade”. E exageram os editores quando dizem, de maneira empolada (palavra que uso aqui como sinônimo de “acadêmica”), que buscavam “a definição mais nítida do público a que serviríamos e a abertura para um diálogo mais horizontalizado com esses leitores por meio da crítica. Trocando em miúdos, o Zero se voltaria descaradamente para o público universitário – extrapolando o umbigo do próprio curso de Jornalismo e as fronteiras da UFSC”.

3. As universidades norte-americanas têm jornais de alunos que, em muitos casos, são os jornais mais importantes das cidades onde a universidade se situa. Talvez estejam pensando nisso os editores, quando falam em “extrapolar o umbigo do curso de Jornalismo e as fronteiras da UFSC”. Isso significa transformar o antigo jornal laboratório num jornal de verdade. Com fontes de financiamento que lhe garantam a autonomia, circulação regular, distribuição e, principalmente, produção compatível com essas circunstâncias. E aí, nessa improvável situação, talvez coubesse dar, à comunidade de leitores, um “ombudsman” que fizesse a leitura crítica do jornal.

4. Claro que o Barreto tentou elevar o trabalho escolar de sua aluna aos píncaros da excelência porque era a oportunidade que tinha de dizer, mais uma vez, que se ele fosse o editor… ah, e de usar o jargão “noticiabilidade”.

5. Claro que os editores pisaram na bola ao deixar de fora o trabalho escolar de uma aluna que saiu do lugar comum e teve uma boa sacada que demonstra sua vivacidade. Também acho que não é o caso de fazer com a matéria o carnaval proposto pelo Barreto, mas é difícil entender por que não foi publicada, ainda que em parte. Ou apenas para noticiar que uma aluna, para fazer um trabalho, deu um jeito de conseguir um plus a mais. E se o Zero fosse mesmo um jornal como os três pretendem que seja, teria uma próxima edição onde o equívoco poderia ser consertado. Mas, pelo jeito com que as coisas foram ditas, se não publicou hoje, não tem como publicar nunca mais. Vai ver, falta-lhe periodicidade.

6. Não achei legal terem detalhado na discussão os eventuais problemas da matéria. A aluna não tem nada a ver com isso. Seu trabalho escolar pode e deve ser discutido em sala de aula. Não em público. Mesmo que seu professor tenha tentado, canhestramente, transformá-la em mártir da má edição; mesmo que ela, estimulada pelo gás que lhe insufla o entusiasmado professor, queira publicar seu trabalho onde der. É só uma aluna, catzo! Não é ainda uma profissional.

7. Quem mandou colocar o Barreto como “ombudsman”? E logo do Zero, que, para o Barreto, nunca foi apenas um jornal laboratório. Sob sua edição o Zero sempre foi “o jornal do Barreto”. Um pai, ou avô, nunca é o melhor crítico, nem o mais isento, de seus próprios filhos e netos. O envolvimento e a paixão com que o Barreto sempre tratou o Zero, o impossibilitam de ter distanciamento crítico sobre o jornal. Por isso não podem queixar-se aqueles que colocaram o Barreto como “ombudsman”, desta e das próximas críticas e reclamações.

Dito isto, recolho-me novamente aos meus afazeres, ciente que não tinha nada que meter minha colher torta e enferrujada nesse angu de caroço.

EM TEMPO

Achei que, para inticar com gente metida num rolo em torno de uma conversa telefônica com um autor da importância do Gay Talese, deveria também sofisticar-me. Por isso usei, como título desta nota, o título de uma excelente comédia de Shakespeare. A tradução: muito barulho por nada. A íntegra da peça pode ser lida aqui (em inglês, claro). Uma adaptação cinematográfica também está disponível nas locadoras.

Discussão

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  1. Excelente análise do ocorrido. Faço parte da atual turma que cursa o Zero, e concordo praticamente com a íntegra do seu texto.

    Exageros foram cometidos dos dois lados, e quem mais sofreu com tudo isso foi a aluna, que realmente correu atrás de fazer algo a mais por seu trabalho.

    No entanto, também devemos lembrar que, neste semestre, ela não foi a única. Como exemplo, posso citar a entrevista realizada por outro aluno da mesma disciplina com Andrew Jennings, um dos maiores expoentes do jornalismo investigativo e esportivo no mundo. Gosto muito do Barreto, um dos professores com quem mais aprendi durante o curso, mas não entendo por que tão ferrenha defesa em relação a uma entrevista enquanto a outra nem entrou na discussão.

    Em segundo lugar, gostaria de salientar que, exatamente como jornal laboratório, acho importante estabelecermos um público-alvo para o mesmo. Não importando se conseguiremos realmente atingi-lo, mas não creio que são muitos os veículos por aí que se dão ao luxo de simplesmente ignorar seu público na hora de decisões editoriais como o que entra e o que fica de fora da publicação. Dessa forma, nos aproximamos mais do que imagino ser uma rotina de redação.

    A adoção dessa mentalidade foi proposta pelos professores/editores e aprovada pela maioria dos alunos (como eu) ainda no começo do semestre. Pode não ser a medida mais adequada, mas foi a mais democrática possível.

    Parabéns pela coerência e pela análise que, confesso, eu temia ser tão superficial e preconceituosa quanto a realizada pela grande maioria das pessoas que têm dado suas opiniões a respeito. Fico extremamente feliz e aliviado que ainda há bom senso e seriedade nas discussões envolvendo não apenas o curso, mas o Jornalismo como um todo. Acho que o preconceito dessa vez foi meu.

    Posted by César Soto | dezembro 5, 2011, 00:36
  2. É. Acho que tens razão quando dizes que dava pra remediar, colocando a entrevista em outra edição. Afinal, qual a urgência, o furo, pra se gritar “parem as prensas”? Qual a emergência senão a da ansiedade imediatista, típica dos dias atuais? O resto é bobagem: briga de galo.

    Posted by @rottoweb | dezembro 5, 2011, 08:57
  3. Ave, César, grande mestre!

    Escrevo apenas para lha agradecer pela crítica, serenidade, elegância e boa provocação. O que penso sobre o episódio já está escrito e linkado por ti. Você indica o caminho do bom debate, sem achincalhe, julgamento sumário, ou desqualificação de ninguém.

    Teu texto transparece o básico que muitos profissionais e alunos não fizeram: acesso aos dois lados e uma reflexão nova e autoral, evideciando o fundamental e convidando-nos à reflexão.

    Gratíssimo, mestre!

    Posted by Samuel Lima | dezembro 5, 2011, 14:37
  4. Ave César.

    Destaco seu equilíbrio no episódio. Aproveito para sugerir uma pautinha com a intrépida moça que entrevistou o Gay Talese. Não sobre o episódio de publicar ou não o trabalho, mas sobre persistência jornalística.

    E será que a moça não repetiria a façanha, desta vez descolando a sonhada entrevista para o Zero?

    Posted by Ludmila | dezembro 5, 2011, 17:59
  5. Criticar o texto da moça aos quatro ventos não foi legal. Dito isso, não sei exatamente em que condições tomou-se a decisão de não publicar a entrevista. O que sei é que editores, em geral, possuem duas características — erram o tempo todo (o importante é acertar a maior parte das vezes) e apegam-se a uma linha editorial quase como à própria vida (não é uma crítica ao Rogério e ao Samuel, a quem respeito, em particular).

    Embora não seja do meu feitio sair dizendo que “no meu tempo é que era bom”, fico me perguntado o quão correto é impor uma linha editorial rígida a um jornal como o Zero. No meu tempo (desculpem), não tinha dessas. Tivemos uma edição dedicada exclusivamente às eleições de 94 e fizemos uma experiência semanal. O Locatelli era o professor responsável, mas mesmo assim houve duas edições sobre quadrinhos (o Zero Zine), coordenadas pelo Barretão e outros dois “Zero Bienal”, temáticos sobre a Bienal de São Paulo, sob coordenação do Carlos Adi.

    Digo isso por que não imagino alguém naquela época recusar um texto por não se enquadrar na linha editorial. Desde que deixei o curso, há 15 anos, essa tal linha editorial tem ficado cada vez mais chata nas redações. Há uma legião de bons jornalistas — muitos deles nossos ex-colegas — fora das redações por não se enquadrarem na pastelaria que se tornaram os jornais e revistas. Não será daí que virá a redenção (se é que existe) para nossa profissão, hoje imersa num modelo de negócios esgotado. Por isso, experimentar — sempre de acordo com a boa técnica jornalística, claro — ganha ainda mais importância.

    Posted by Gladinston Silvestrini | dezembro 5, 2011, 20:46
  6. Recomendo a obra (ficção) de outro novojornalista: A Fogueira das Vaidades.Tom Wolf.

    Posted by luiz lanzetta | dezembro 6, 2011, 15:14

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