O alho. Continua tudo virado num alho. Se o ministro tiver que sair por suspeita de maracutaias, o partido dele, dirigido por ele próprio, escolherá o substituto. Não é uma gracinha?
Mas do que nos espantamos? Isso já aconteceu antes. Isso acontece sempre. E as suspeitas de mau uso do dinheiro público ou mesmo evidências de roubo descarado, puro e simples, na maioria dos casos não têm, como resultado, uma punição digna desse nome. Devolver dinheiro? Perder a liberdade? Servir de exemplo, para o andar de baixo, de como as leis são cumpridas? Ni pensar, pibe!
Cada vez que cai um avião grande matando muita gente de uma vez só, nos comovemos todos. O governo se agita, as ong se abespinham, a cidadania se eriça, o noticiário fica elétrico. Claro, a dor de tantas famílias, as perdas repentinas de tantas vidas precisam mesmo causar espanto e indignação. Providências urgentes, medidas rigorosas, apuração profunda são coisas que em geral acontecem. Ou se anuncia que acontecerão. Tudo muito justo e necessário.
Mas e as mortes igualmente injustas e muito mais numerosas que vemos ocorrer no trânsito? Talvez porque tenham estatísticas fragmentadas (são somadas por fim de semana e por estado, sem um número único, nacional e acumulativo), podem parecer menos graves ou de gente menos importante que as que morrem em desastres de avião. Mas é muito mais gente e gente que tem famílias que choram lágrimas de igual dor.
De diferente há, nesse enorme desastre nacional, sobreviventes que ficam incapacitados. Ou aleijados, como se dizia antes do hipócrita polimento de linguagem que mal disfarça nossa indiferença. E não se alevanta a Nação exigindo providências, ranhuras na pista, normas rígidas para decolagem e pouso, controladores eficazes, pilotos bem treinados, aviões em perfeito estado de conservação. Por quê?
Já é hora de pensarmos um pouco nas grandes desgraças nacionais: velocidade excessiva. motoristas incompetentes, fiscalização ausente, leis confusas e mal aplicadas, ignorância metida a besta. E também é hora de tratarmos essa mortandade com a importância que ela tem. Talvez ilustrando as notícias, para que mesmo os mais obtusos entendam o tamanho da encrenca, com aviões. Quantos morreram neste feriado? “Ah, foi apenas um airbus 320, ou um boeing 737-800, chegamos perto mas não conseguimos superar nossa marca histórica de 200 cadáveres, ainda não foi um feriado de boeing 777. Agora, em paraplégicos, tetraplégicos e outros sequelados estamos progredindo, já lotam um Embraer 90. Quem sabe no próximo fim de semana a gente tenha resultados mais expressivos”.
E aí, alguém vai pedir providências imediatas?
Cesar, o que me espanta nessa questão dos “acidentes” nas estradas é que são poucos, se considerarmos a imbecilidade dos motoristas. Toda vez que pego a estrada, principalmente a BR-282, vejo verdadeiros absurdos, gente que dirige sem nenhuma preocupação com a segurança, sua e dos outros. Semana passada, na descida de Urubici para Bom Retiro, rumo à BR-282, eu vinha atrás de uma fila composta de 2 ônibus de turismo e 3 carros de passeio. Um caminhão vazio veio e ultrapassou todo mundo, sem a menor visibilidade das curvas em descida. Por sorte, os ônibus viram e diminuiram a velocidade, permitindo a ultrapassagem antes que o irresponsável atingisse um Uno que vinha subindo o morro. E entre águas Mornas e Rancho Queimado é um salve-se quem puder, não sei como não morre muito mais gente por ali, é um festival de barbaridades.