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Jornalismo

Meninos e meninas, eu vi(vi)!

Era uma vez uma bucólica Florianópolis em que o Sindicato dos Jornalistas era “assim” com o governo estadual. O governo pagava o aluguel da sala, empregava os jornalistas, facilitava verbinhas para necessidades diversas e todos viviam felizes.

Estamos na fervilhante década de 70. O Brasil era uma linda ditadura, onde os amigos do rei tinham tudo e os inimigos dos amigos passavam um cortado daqueles. Nem precisava ser, a rigor, comunista. Bastava ser de outra turma. Falar diferente. Dizer coisa que fosse de bom tom não dizer.

Alguns de nós, movidos pelos mais diferentes motivos (um dos quais modernamente seria conhecido como “vergonha alheia”), resolvemos que era necessário que nossos representantes oficiais, no “nosso” sindicato, fossem outros. Na época a gente chamava a turma que confraternizava demais com os patrões e com o governo (também um grande patrão), de pelegos. Pelego, vocês sabem, é aquele couro lanudo de ovelha que se coloca(va) sobre a montaria, para amortecer e suavizar o choque da honrada bunda do cavaleiro, com a espinha ossuda do cavalo (ou burro de carga). Era um sindicato pelego, que ajudava a manter a “pax romana” daqueles anos de chumbo.

Pois bem, foi criado um “Movimento de Oposição Sindical” para tentar tomar, pelo voto, o sindicato dos jornalistas. O começo foi duro, porque os ignorantões revolucionários sabiam tudo sobre conduzir uma assembléia e nada da legislação e da burocracia. Os pelegos sabem tudo de regulamentos, leis, decretos, emolumentos e são os reis da burocracia. Levamos um tempo até aprender direitinho todas as manhas.

Ajudei bastante o movimento. Coloquei dinheiro, tempo, esforço e o carro da família a serviço da “causa”. Viagens longas, até o oeste do estado, não eram problema. O entusiasmo era grande. Claro que, como nunca fui do PT e não fazia parte de nenhuma panela, ficava meio por fora na hora da divisão dos cargos.

Ainda que tenha ficado meio chateado, na época, com o escanteio, gostei de ter participado. E gostei ainda mais de ter mantido minha independência. Pode parecer coisa de maluco, mas prefiro assim.

Com o passar dos anos, a diretoria “não pelega” do Sindicato foi entrando no ritmo na república sindicalista da bananalândia. Eleições com chapa única, a busca do “consenso” e um alinhamento com o jeitão petista de transformar sindicato em emprego perpétuo, fizeram com que acabasse me desfiliando.

Quando morei em São Paulo, participei do sindicato de lá, dirigido pelo Fred Ghedini, em algumas tarefas. Acabei, por inevitável, me envolvendo na greve da Gazeta Mercantil de 2001 e, na fervura do movimento, desencantei-me também com os colegas paulistas. Embora os respeite até hoje.

Voltando a Florianópolis, acompanhei de longe, mas não muito, os eventos que resultaram na ascenção do grupo do Rubens Lunge e o alijamento do grupo anterior. Vejo a eleição de hoje como uma espécie de revanche. Uma tentativa de retorno de quem acabou sendo excluído.

Tinha várias críticas à forma como o sindicato vinha sendo conduzido antes dos Lunge Boys (and girls) assumirem e restrições ainda maiores ao estilo que a nova administração adotou. Não me sentia e não me sinto, representado. Nenhuma das discussões propostas me emociona. Alguns discursos de diretores do sindicato (das duas diretorias) me davam sono, outros apenas asco. Mantive-me, por isso, afastado.

Achei meio pretensiosa a idéia da chapa 2 lançar-se como “MOS”. Como se fosse uma reedição daquela luta épica, própria daquele momento histórico. Mas achei ótimo que finalmente a obscura diretoria atual tivesse oposição. Tenho mais amigos (e ex-alunos) na chapa 2 do que na chapa 1. Mas, a esta altura da vida, posso dar-me alguns luxos: se não respeito alguém, não preciso me alinhar a ele ou ela. Posso ficar de fora. E tem gente que não respeito, tanto na chapa 1, quanto na chapa 2. Em quem não votaria. A quem não gostaria de delegar mandato para me representar.

Por isso, só me restaram duas opções: criar ou ajudar a criar uma terceira chapa, para ter em quem votar, ou não me sindicalizar. Escolhi esta última. E acompanho o esdrúxulo processo eleitoral (é do jogo, ninguém larga a teta por vontade própria e fará tudo o que for possível para impedir que outros lhe tomem o lugar) feliz porque há uma disputa. As disputas são sempre saudáveis, por mais que algumas pessoas tenham medo do debate, achem bate-bocas nocivos ou se assustem com a gritaria. É melhor isso do que o silêncio indecente das eleições de chapa única, passagem untuosa de bastão, numa corrida de revezamento imoral. Ou, ainda pior: reeleições infinitas como se o sindicato fosse, ele próprio, uma CBF, ou uma FCF, ou uma Venezuela.

Espero que, entre mortos e feridos, apurado o resultado, o sindicato recomece a discutir seu papel e os jornalistas sintam a necessidade de serem representados, nas disputas trabalhistas e em outros embates profissionais, por uma entidade atuante e bem focada no que realmente interessa.

Ah, uma outra coisa: os sindicatos em geral fenecem por culpa de coleguinhas que participam alegremente da nominata da diretoria durante o processo eleitoral, mas depois não pegam no batente. Atuar honestamente num sindicato não é moleza. São horas de dedicação, trabalho, paciência e coragem para atender filiados sem educação. E a responsabilidade não pode ser colocada nas costas do candidato a presidente. É preciso ter um grupo grande, para carregar esse piano de cauda sem rodinhas, ou, se preferirem um andor pesadão de santo muito gordo, sobre a trilha tortuosa, pavimentada com o afiado e pontudo cascalho da ingratidão.

Ânimo, rapaziada. Não se deixem abater só porque a oposição faz oposição ou porque a situação se apega às filigranas que lhe permitirão uma sobrevida. Vão à luta. Boa sorte a todos e todas. E que na próxima eleição a gente tenha ainda mais motivos para se envolver, brigar, lançar múltiplas chapas e discutir nossa pobre, desqualificada e cobiçada profissão.

Discussão

Comentários estão desativados para este post.

  1. César, concordo contigo. Estive na diretoria do Sindicato (estou ainda, aliás), mas meu nome ficou de fora das duas chapas atuais, pois entendo que disputa está muito longe do que realmente interessa à categoria, Claro que a oxigenação trazida pelo debate e pela disputa é um fato novo e positivo.

    Destaco, em seu texto, o trecho: “espero que, entre mortos e feridos, apurado o resultado, o sindicato recomece a discutir seu papel e os jornalistas sintam a necessidade de serem representados, nas disputas trabalhistas e em outros embates profissionais, por uma entidade atuante e bem focada no que realmente interessa”.

    Espero que, após as eleições, não se instaure o ódio ou a falta de diálogo. Aliás, nas conversas com os integrantes de ambas as chapas, meu discurso tem sido esse.

    Posted by Ivonei Fazzioni | agosto 25, 2011, 11:30
  2. Caríssimo,

    Eu assinaria muita coisa do que você escreveu aí. Não do ponto de vista histórico, já que não compus o MOS das antigas, mas por alguns dos sentimentos que você manifesta.
    Gostaria também de escrever sobre isso e me envolver mais, mas as feridas de um passado recente me indispõem a isso.
    Não só como vice-presidente do sindicato (2002-2005), tendo assumido de fato o SJSC durante 11 meses, mas como jornalista, acredito na organização dos trabalhos, na busca por projetos coletivos. Mas tudo isso implica na reflexão e proposição de novos papeis para os sindicatos na vida social. Forço a vista e não vejo quem esteja disposto a enfrentar questões como esta. Pelo menos ainda não.

    Posted by Rogerio Christofoletti | agosto 25, 2011, 14:08

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