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Jornalismo

A bronca do Roger

Assisti ontem, de longe e apenas em parte, a troca de farpas entre o Roger Bittencourt (dono da Fábrica, uma grande empresa de assessoria de comunicação) e alguns jornalistas, no tuíter. Tudo começou, até onde consegui ver, porque o implicante do Moacir Pereira ousou reclamar que o governo fechou ao acesso da imprensa uma reunião na Secretaria de Saúde onde trataria do complicado e encrencado mutirão de cirurgias.

O tema é polêmico: um jornalista pretende acompanhar um assunto de interesse público, numa repartição pública e o governo restringe o acesso…

O Roger tomou as dores da secretaria da saúde e começou a dar explicações, com tuitadas dirigidas ao decano da crônica política catarinense:

@moapereira Moacir, ninguém foi vetado de entrar. A imprensa não foi convidada. Era uma reunião de trabalho e não para a plateia.

@moapereira O secretário tem atendido prontamente toda a imprensa diariamente, sem exceção. Você inclusive, sempre foi atendido.

@moapereira Não há qualquer segredo, o que há é gente fazendo sensacionalismo. O próprio secretário já declarou que há necessidade de ajustes

Aí o Roger resolveu usar o argumento que iria ouriçar a galera: a comparação entre uma atividade privada e uma reunião pública sobre assunto público envolvendo interesse público:

@moapereira Já pensou se amanhã eu apareço lá na reunião de pauta do DC sem ser convidado e peço para participar? Vão deixar?

Pronto, a partir daí, as conversas paralelas (em geral via DM — direct message — que não é visível pelo “público” do tuíter), ferveram. Comentando, naturalmente, a propriedade ou impropriedade da comparação.

Como forma de encerrar o assunto, Roger ainda postou uma tuitada que, provavelmente com intuito de demonstrar boa vontade, levantou outra bolinha pra turma das conversas paralelas chutar: que poder tem esse moço! Ele não é, pelo menos que se saiba, oficialmente, o assessor de imprensa da secretaria da saúde, mas anuncia que pode interferir para o secretário dar qualquer resposta que por acaso tenha ficado pendente:

@moapereira Em tempo, se ficou alguma pergunta sem resposta, por favor me avise que eu interfiro junto ao secretário para que ele responda.

O Upiara Boschi, repórter do DC, entrou a certa altura na conversa, para um comentário mais ou menos óbvio:

@RogerBitencourt @moapereira na hora de fechar as portas, sempre fazem a comparação com a iniciativa privada…

Pronto, o Roger voltou à carga, com mais um argumento-espoleta (aquele que ajuda a detonar varios focos de discussão e reacende a polêmica):

@upiara Então só pq é no setor público pode ser zoneado? Ou então agora vira regra: jornalista entra onde quer a qualquer hora…

O Upiara, que estava discutindo a questão de reuniões fechadas ou não com a Cláudia de Conto (ex-funcionária da empresa do Roger e que agora é diretora de imprensa da Secretaria de Comunicação do governo Raimundo), ainda teve paciência para uma resposta (que considerei bem humorada, mas alguém pode achar maldosamente irônica) ao Roger:

@RogerBitencourt deixar jornalista participar de reunião entre governo e entidades sobre um assunto específico é “zona”? Bom saber

Tive que me segurar para não entrar na conversa. Retuitei uma coisa ou outra e fiz uma pergunta rápida ao Roger, mas não insisti. Era um terreno muito pantanoso, faltavam informações e havia coisa muito mais interessante acontecendo fora da internet.

Aí hoje resolvi recuperar parte da história, apenas para deixar registrado (é facílimo perder coisas no tuíter).

TRANSPARÊNCIA, ESSA INCOMPREENDIDA

Fora a questão do poder e do papel do Roger (que no momento não me interessa discutir nem conhecer em detalhes), o outro tema importante que aflorou na conversa foi o do acesso de jornalistas às reuniões do serviço público.

Embora discorde da forma como o Roger tratou do caso, concordo com a idéia de que existem momentos, mesmo na vida pública das repartições públicas, em que é preciso fazer reuniões fechadas. E existem formas de tornar transparentes e acessíveis aos cidadãos, os resultados e as providências tomadas nos gabinetes.

Não vejo grande problema em que o boa praça Roger Bittencourt, amigo de todos e, de fato, muito influente no governo, saia em defesa de seus considerados. O que surpreende, é a forma que escolheu para fazer isso, usando argumentos que ampliavam o incêndio, em vez de apagá-lo. Não foram, com certeza, argumentos “políticos” e o efeito principal (acalmar o Moacir e faze-lo entender que, embora tenha sido proibido de entrar numa reunião, teria acesso às conclusões), parece ter causado uma série de efeitos colaterais.

Bom, mas no final de tudo fico com uma tuitada magistral do Upiara, que resume bem o contexto e coloca as coisas nas suas devidas proporções:

Um dos problemas do Twitter é que qualquer conversa estilo argumento/contra-argumento parece uma briga

Discussão

Comentários estão desativados para este post.

  1. Puta que os Pariu. ÔÔÔ César… que meldha eh essa? Nem todas são abertas (as reuniões) . zuzo well!
    BUT… “seus considerados” significa quem lhe pague? quem lhe sustente? Quem lhe propine? Pohha, que meldha.

    Posted by LesPaul | agosto 19, 2011, 21:20
  2. Do Cláudio Humberto

    20/08/2011 | 12:22
    IstoÉ: Gravações mostram Ideli negociando cargos no DNIT

    Gravações da polícia mostram que, quando estava no Ministério da Pesca, Ideli Salvatti negociou cargos no DNIT e lutou para manter um dirigente acusado de irregularidades. As conversas foram com o presidente local do PR, ex-deputado Nelson Goetten, hoje preso por o pedofilia. Ideli ligou para o celular do ex-deputado, que estava sendo monitorado pela Polícia Civil, com autorização da Justiça. Ela defendia um administrador acuado por denúncias de irregularidades e com a cadeira disputada por outros petistas de Santa Catarina. Segundo um integrane do PR, depois que virou ministra, Ideli dividia com Goetten o controle dos projetos do DNIT em Santa Catarina. O ex-deputado sempre teve acesso ao seu gabinete e a tratava como amiga. Eles estavam juntos, como mostra a gravação da polícia, para enfrentar a articulação capitaneada pelo ex-deputado Claudio Vignatti, rival de Ideli no PT estadual e até então o número dois na Secretaria de Relações Institucionais, que pleiteava no Planalto o posto de João José dos Santos. Em grampos de conversas com outros interlocutores, Goetten tratava do assunto sem cerimônias. “Vão ter que passar por cima de mim e da Ideli, cara!”, diz o ex-deputado para seu secretário Sérgio Faust. Segundo ele, a indicação era fruto de um acerto entre PT e PR. “Eu avisei o Luis Sérgio (então ministro de Relações Institucionais): se romperem o acordo, nem o capeta vai me fazer sentar com o PT de novo”, afirmou Goetten. A reportagem é da Revista IstoÉ.

    Posted by Kate | agosto 20, 2011, 14:06

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