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Jornalismo

Efervescência radiofônica

A entrada no ar da rádio RecordSC, do grupo RIC (da família Petrelli), além de criar um fato novo no mercado radiofônico florianopolitano, deixa um rastro de movimentos curiosos nos bastidores. E, como ocorrem fora dos holofotes, talvez ainda demore um pouco para conhecermos todos os detalhes. Mas já é possível ter uma idéia da coisa.

1. Um pouco de história

A rádio RecordSC usa a frequência que foi da rádio A Verdade, criada pelo Manoel de Menezes (pai do Cacau). Ele vendeu a rádio para padre Quinto Baldessar (então pároco do Estreito e capitão do exército). Alguns anos depois, foi adquirida pelo José Matusalém Comelli, de O Estado. Aí passou a se chamar rádio Gazeta de São José. Proprietário da marca “Gazeta” (antigo jornal, da Maria Iná Vaz), Comelli pretendia lançar também um jornal com esse nome, naquele município.

O projeto acabou sendo levado pelas águas da crise que também fizeram submergir o jornal O Estado. A rádio foi arrendada e ganhou o nome de Mais Alegria e uma programação popular/sertaneja. A certa altura, os Petrelli, velhos parceiros de Comelli, assumiram o arrendamento da rádio e deram uma turbinada na Mais Alegria, levando para lá o Hélio Costa e outras atrações. Mas não deu muito certo economicamente e eles desistiram da coisa.

Ao que parece, a essa altura Comelli transferiu a propriedade da rádio para os Petrelli, que passaram a arrendá-la a terceiros.

2. A parceria com a Guarujá

A rádio Guarujá, que foi do ex-governador Aderbal Ramos da Silva, é administrada hoje pela sua filha Sílvia Hoepcke da Silva e pelo neto, Fábio Comelli. Sílvia foi casada com José Matusalém Comelli e estão divorciados há vários anos.

Foi mais ou menos de forma natural que ocorreu a aproximação entre os veículos da família Petrelli (RIC-Record, Record News e jornal Notícias do Dia) e a rádio Guarujá. Além de plataformas complementares, as famílias eram amigas de longa data. Parecia mesmo ser um bom negócio. A RIC se concentrava na TV e no jornal e a Guarujá fazia o que sempre fez.

O casamento ia muito bem até o momento em que Marcelo Petrelli apresentou, ao Fábio Comelli, seu projeto de arrendar a Guarujá e incorporá-la à RIC-Record (levando, inclusive, os estúdios para a sede, no morro da Cruz). Ao que tudo indica, Fábio e sua mãe, Sílvia, não receberam muito bem idéia. Tanto que recusaram a oferta.

Depois dessa negativa, que teria ocorrido há mais ou menos um ano, nada mais foi como antes. O primeiro movimento foi a suspensão da transmissão conjunta do programa esportivo Campo Crítico. Era um programa da Guarujá realizado no estúdio da RIC-Record e transmitido pela TV simultaneamente à transmissão do áudio pela rádio.

3. A nova rádio

Aí chegamos à pergunta que não quer calar: por quê, num determinado momento, os Petrelli resolveram criar sua própria emissora de rádio, colocando no ar um projeto que parece não ter tido ainda o tempo necessário de maturação?

A decisão de lançar agora uma rádio, segundo fontes da RIC, deveu-se ao fato do contrato de arrendamento estar terminando e do arrendatário pretender entregar a emissora. Isso, juntamente com uma avaliação interna, que estaria na hora do grupo ter sua própria rádio, teria feito a diretoria decidir-se, em pouco tempo, pelo projeto.

As más línguas, claro, dizem que tudo faz parte da retaliação de Marcelo ao não do Fábio. O fato é que, entre a decisão de colocar a rádio no ar e seu lançamento, passou-se pouco tempo. E a impressão de que o projeto não teve tempo para amadurecer adequadamente, ao que tudo indica, não é apenas impressão.

O investimento feito na emissora é muito pequeno. Os profissionais são, em sua maioria, dos demais veículos do grupo. Na tentativa de evitar contratações, levaram para uma rádio “all news”, um conceito das FM: o locutor é o operador de áudio. Essa operação, quando se trata de colocar músicas e ler alguns textos, não tem maiores dificuldades, mas quando se trata de apresentar, chamar repórteres, colocar telefone no ar, rede, etc, cria enormes problemas.

A idéia de criar uma “agência RIC” (nos moldes da agência RBS) é o pano de fundo dos sonhos dos Petrelli: aquele mundo ideal em que um só jornalista, por uns R$ 200,00 a mais no salário, fornece texto e foto para o jornal, nota para o site, áudio para a rádio e reportagem e imagem para a TV. E ainda dirige a “viatura”. Ecaminhando-se para isso, os repórteres da TV, das várias emissoras da rede no estado, já participam dos programas da rádio RecordSC, passando boletins por telefone.

Para completar o quadro, a posição no dial (1470 am), não é das melhores. Como está muito próxima da Guarujá (1420 am), não pode aumentar sua potência, porque causa interferência e se sujeita a ser multada pela Anatel. E com a potência atual, tem alcance limitado.

4. O cobiçado Damião

Marcelo Petrelli queria, para sua rádio, os comentários do jornalista Carlos Damião, que é colunista do Notícias do Dia e também funcionário da rádio Guarujá. Fábio Comelli não quis liberá-lo. Para evitar agravamento do incidente, Marcelo Petrelli foi à Guarujá conversar com Fábio. Não se sabe como foi a conversa. O fato é que Damião teve que pedir demissão da Guarujá para poder atuar na RecordSC. Em compensação, Marcelo proibiu seu pessoal de fazer propostas para outros profissionais da Guarujá.

Talvez por isso, o Hélio Costa continue na Guarujá, embora o áudio do seu programa da TV RIC-Record seja transmitido pela rádio concorrente.

A Guarujá, que tinha o Damião como mestre de cerimônias do Papo de Redação (programa vespertino de debates), colocou provisoriamente o Marcelo Fernandes para substituí-lo. E deverá levar ainda uns dias para definir o que fará com o programa e se aproveita a oportunidade para fazer alguma outra alteração.

5. E agora?

O mercado publicitário para emissoras de rádio “all news”, em Florianópolis, não é nada muito espetacular. E o fato de agora ser disputado por três emissoras (CBN-Diário, Guarujá e RecordSC) não facilita em nada.

A Guarujá contratou, em março, o experiente Pedro Carlotto para a área comercial, provavelmente para se preparar para o acirramento da concorrência. Carlotto, para quem não ligou o nome à pessoa, ajudou a colocar a CBN-Diário de pé. Resta saber se conseguirá fazer o mesmo com essa emissora, apesar das dificuldades normais de uma empresa familiar e desse mercado restrito que agora está ainda mais fragmentado.

A RecordSC certamente vai precisar de algum tempo para encontrar sua linguagem e dizer a que veio. Por enquanto é apenas uma rádio que parece ter sido feita às pressas, ainda carente de profissionais experientes. E, em larga medida, um tanto quanto frustrante para quem esperava o surgimento de uma concorrência séria para a CBN-Diário.

Discussão

Comentários estão desativados para este post.

  1. Sinceramente, acho que a Record não decola. O sinal da rádio é ruim e a programação também. Não disse a que veio. Vai ser difícil derrubar a hegemonia da CBN, embora a lacuna deixada pelo Prates ainda contiuar aberta. O pulo do gato, era o Petreli trazer para Record o Prates, ai sim a coisa iria pegar fogo.

    Posted by Gilberto Gonçalves | julho 15, 2011, 16:53
  2. E a Rádio Cidade FM, de quem é?

    Posted by Fernando Silva | julho 15, 2011, 23:37
  3. Caro César

    Apelando contra a apelação

    Sou apaixonado pelas ondas médias, que agora somente denominam de AM. Pois bem, a amplitude modulada perdeu espaço e continuará perdendo. Hoje é difícil adquirir receptores de AM. Poucos rádios dos automóveis vêm com AM. Em aparelhos modernos como celulares, que sintonizam FM,é inviável o AM por complexidades técnicas.
    O caminho indicado é a transmissão simultânea da programação da AM também em FM. Essa prática é antiga, quando as emissoras transmitiam, simultaneamente, em ondas médias e curtas (49, 31, 25m).
    E a programação? Nos últimos anos virou praxe abaixar o nível para conquistar uma audiência quantitativa. A locução foi substituída por gritos e a entonação sóbria suplantada por inflamados “justiceiros”. Para não desafinar, nem vamos avaliar a brusca mudança do tom da linha musical.
    Três emissoras fazendo radiojornalismo? Sem problemas. Mas três emissoras disputando o mesmo público, com o mesmo estilo é burrice. A concorrência é salutar, mas quando entra em ritmo de “competição escolar” é insana. Furinhos são tratados como rombos e a exclusividade provoca vibrações orgásticas. É um prazer interno, cujas emoções pouco respingam aos ouvintes pelas ondas hertezianas.
    Há outros caminhos? É evidente que sim. Há excelentes caminhos. E de muito simples execução: ser popular com qualidade. Popular não significa popularesco. E qualidade exige profissionalismo.
    Simples. Bastam bons produtores, redatores, editores e locutores com vozes agradáveis e que, por favor, não gritem. Tão simples que podemos definir apenas como “informação sem apelação”.
    Muitas pessoas estão carentes de uma programação com estilo mais sóbrio. Então há público e, consequentemente, mercado. Aliás, um recadinho à turma do comercial. Programação qualificada atinge um público também qualificado e com considerável poder aquisitivo. Será que esses consumidores não interessam?
    Modernidade é a evolução qualitativa, enquanto a apelação é o retrocesso. É possível e fácil produzir qualidade. Se vivemos em constante evolução, por que regredir?

    Posted by Luiz Carlos Schneider | julho 16, 2011, 16:15
  4. Desinformação ou para informação da coluna:

    - Damião foi posto em
    férias na Guarujá, pois sua postura indecisa não foi considerada ética.
    Como ética é para mt poucos ele já iniciou seu trabalho na Record Rádio mesmo sendo ainda funcionário da Guarujá.

    Posted by Ana Paula Freitaz | julho 16, 2011, 22:41

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