// você está lendo...

Jornalismo

O famoso caso do recall fajuto da Mazda

Sucursal de Brasília GZM

Festa de aniversário na redação da sucursal de Brasília da GZM*

Os velhos (e nem tão velhos) jornalistas estão agora numa fase nostálgica. Aqui em Florianópolis, mais de 200 ex-funcionários do extinto jornal O Estado mantém uma comunidade no Facebook, já se reuniram várias vezes e até fizeram um grande encontro, no final de maio (mês de aniversário do jornal), numa churrascaria. Os ex-funcionários da igualmente extinta Gazeta Mercantil estão fazendo coisa semelhante. Mantém um grupo no Facebook e de vez em quando alguém fala em reuniões em torno de algumas taças e copos. Como o grupo é bem maior e tem gente espalhada pelo Brasil inteiro, pode ser mais complicado reunir todos, mas todo dia tem alguém colocando uma foto antiga ou contando um caso que deixou saudade. Além desses, também ex-funcionários da Manchete e do Estadão têm se aproximado.

Faço parte dos dois primeiros grupos. Comecei a carreira em O Estado, onde trabalhei por vários períodos desde 1972, até ser editor-chefe por pouco mais de um ano, a partir de 1988. Na Gazeta entrei em 1996 (Pimenta Neves era o diretor de redação) e saí, com centenas de colegas, na grande implosão de 2001.

No grupo “Sobre Viventes da Gazeta Mercantil”, alguém citou um caso pitoresco que acompanhei de perto. E aí resolvi contar tudo o que sei (ou melhor: tudo o que, a esta altura, lembro). Até como parte da campanha contra o sigilo perpétuo: mesmo os grandes segredos de Estado precisam ser revelados depois de um tempo, para que a História não fique capenga. Espero que minhas lembranças estejam corretas.

A PRESSA É INIMIGA…

Vamos contextualizar a cena: em 2000, algumas empresas de comunicação tinham um serviço na internet que na época se chamava “tempo real”. Era o jornalismo online de hoje, que estava engatinhando. Eu era secretário de redação da sucursal de Brasília. Tinha sido enviado de São Paulo para lá com uma missão específica: ajudar a sucursal na preparação para a chegada do grande concorrente, Valor Econômico. O chefe da sucursal, Zanoni Antunes, no mesmo ritmo, tinha montado uma equipe só de craques. Entre eles João Domingos, Sheila D’Amorim, Maurício Correa, Márcia Quadros, Odail Figueiredo, Aldo Renato Soares, Ayr Aliski, Anamaria Rossi, Marcelo Antunes, Marcão, Hylda Cavalcanti, Sérgio Prado, Jamil Chade e mais alguns cujos nomes o Zanoni vai ajudar a lembrar.

O clima na redação era (do meu ponto de vista), muito bom. Havia um inimigo externo a combater, o que nos unia no esforço comum. E como todos sabiam muito bem o que estavam fazendo e o que fazer, a tarefa do secretário de redação era moleza. Era de se esperar, portanto, que nesse ambiente a gente fizesse muita brincadeira, desse muita risada, comemorasse muito aniversário e pegasse no pé uns dos outros. Como em toda redação que se preze.

Um dia, de manhã, alguém me mostrou um texto: era um arremedo de aviso de recall de um modelo Mazda. Por coincidência, o mesmo que o Aldo Renato Soares tinha. O Aldo, pra quem não conhece, é um gaúcho-brasiliense que fazia questão de anunciar em voz alta suas preferências e idiossincrasias. Ele adorava o carro, que já era meio antigo (àquela altura a Mazda nem operava mais no Brasil) e todo dia o elogiava. Numa época em que os jornais estavam cheios de avisos de recall (era o começo dessa “onda”), parecia perfeito ver a cara do Aldo quando ele soubesse que seu precioso Mazda estava sendo chamado por um defeito grave.

Mesmo com logotipo da montadora, o “aviso” não podia ser mais “fake”: não tinha números de chassi nem data de fabricação, dizia que havia perigo do assoalho cair quando o “veículo” ultrapassasse os 60 km/h e outros absurdos desse tipo. Foram impressas algumas cópias e colocadas sobre as mesas do Aldo, claro e de mais alguns colegas. Até onde vi (e eu sentava diante dela), nenhuma cópia foi colocada sobre a mesa da moça que trabalhava para o “tempo real”, o Investnews. Pela simples razão que ela não fazia parte da “turma” do jornal impresso que fazia brincadeiras.

Quando saímos para o almoço, Aldo ainda não tinha chegado. Quando retornamos, ele estava lá, tranquilo. Alguém perguntou se ele tinha visto o aviso. Claro que tinha visto. Rindo muito, disse que era uma piada. Depois ficamos sabendo que ele tinha desconfiado que era falso desde o primeiro momento mas, precavido, ligou para um representante da Mazda para checar. Por isso estava absolutamente seguro, quando nós chegamos.

A bricandeira já estava encerrada, com todos rindo, quando a moça do Investnews me perguntou se aquele aviso era mesmo uma brincadeira. Disse que era e notei um certo ar de preocupação: ela tinha visto o papel e, acreditando ter um bom assunto, colocara na rede. Na época, as notas das sucursais eram editadas em São Paulo e só eram publicadas por lá. Imaginei, então, que o editor não deixaria passar. Afinal, Brasília não tem montadora, nem escritório de montadora e nunca um aviso de recall seria distribuído a jornalistas de Brasília sem ter sido distribuído em SP. Mas, ao abrir o site, a nota estava lá. Para que o mundo inteiro visse. Publicada sem qualquer verificação.

O que se seguiu foi o esperado: desmentidos, pedidos de desculpas, notas irritadas da Mazda, chefias de SP querendo a cabeça “dos autores da brincadeira” e muita gozação dos colegas dos outros veículos. Administrada essa crise, a gente achou que, finalmente, a história tinha terminado. Que nada. No dia seguinte, o suplemento de automóveis que circulava encartado com o caderno regional paulistano da Gazeta, publicou a notícia do recall. O editor tinha visto a nota, mas não tinha lido os desmentidos. E certamente nem conversado com ninguém no cafezinho, porque esse tinha sido o assunto do dia em todas as rodas de conversa, nas várias redações da Gazeta.

A nota saiu sem destaque, num pé de página. Eu achei o fim: se fosse verdade que um carro poderia perder o assoalho a 60 km/h, isso tinha que ser a manchete do suplemento especializado. Se fosse mentira, não deveria ser publicada. Mas estava lá, escondidinha. Sem que ninguém tivesse checado.

A pressão que existia (existe?) sobre o pessoal do “tempo real” era terrível: em SP ficavam monitorando a concorrência e publicar uma nota alguns segundos depois do outro, rendia puxões de orelha. Era compreensível, portanto, que a moça tivesse ficado curiosa com aquela nota e tratasse de enviar o quanto antes para seu editor (ou editora). Mas a partir daí, nada mais se encaixa nos bons procedimentos jornalísticos. Parece que o Murphy assumiu o comando e fez dar errado tudo o que poderia dar errado.

A partir daí, as brincadeiras passaram a levar em conta a possibilidade de ter alguém do “tempo real” por perto.

Tem uma outra história, também divertida (mas não tão espetacular), da sucursal de Brasília, envolvendo o Aldo Renato (uma das vítimas preferenciais) e pêssegos gregos. Mas essa eu conto outra hora.

NA FOTO

*Da esquerda para a direita, de pé: Maurício Correa, Márcia Quadros, Hylda Cavalcanti, Sheila D’Amorim e eu. Sentado, tentando fechar uma matéria e atrasando a festa, Ayr Aliski. Se não me engano era aniversário do Ayr, em 2000. Aquele negócio vermelho, azul e verde de plástico era uma tartaruga. Um troféu que, a cada dia, era atribuído solenemente a quem terminasse suas matérias além do horário.

Discussão

Comentários estão desativados para este post.

  1. Cesinha, vc não foi justo ao descrever Aldo Renato, o culpado por tudo !!! Sim, pq se ele não vivesse provocando a nossa Marcinha (que tinha acabado de comprar um corsa), nada disso teria acontecido !!!!!
    E vamos aos pêssegos, né? E tb a certidão de nascimento descoberta pelo Ayr, comprovando que ele nasceu no Mato Grosso (e não no paraíso !!!!) (rsrsrsr). bjos e ótimas lembranças essas.

    Posted by Sheila | junho 16, 2011, 19:49

Posts recentes

O fim de uma era
23 de maio de 2014, 17:27
Por Cesar Valente
E aí? Abandonou o blog?
6 de maio de 2014, 17:46
Por Cesar Valente
Brasília real aos 54 anos
28 de abril de 2014, 22:12
Por Cesar Valente
Beleza e crueldade
28 de abril de 2014, 22:01
Por Cesar Valente
A semana dos enigmas
17 de abril de 2014, 8:09
Por Cesar Valente

Arquivos