// você está lendo...

Jornalismo

Sugestões de pauta para a semana

Entre os jornalistas, “pauta” é tanto a lista de assuntos que serão transformados em matéria, como também o roteiro para investigar um determinado assunto. Em algumas redações havia um profissional que ficava só pensando nisso: o pauteiro. Os repórteres sugeriam pautas, mas se estivessem sem idéia, o pauteiro abria a gaveta e sacava dezenas de sugestões.

Como a semana que está terminando foi bem movimentada, deixo aqui algumas sugestões de assuntos que os colegas jornalistas poderão transformar em matérias (reportagens), se quiserem.

1. NEGÓCIOS DA CHINA

O deputado Jailson Lima (PT) foi umas cinco vezes à China, ao que parece com passagens pagas por nós (via Alesc). Já que ele está preocupado com a moralização daquela casa de Leis, revolvendo o velho assunto das aposentadorias por invalidez, certamente merece a oportunidade, como foi dada ao Palocci, de explicar que tanto assunto tinha com os chineses.

2. COINCIDÊNCIAS

Deve ser apenas coincidência, mas não custa ir atrás pra ver se é mesmo: no mesmo dia em que a associação dos delegados, presidida pelo Renato Hendges, anunciou que iniciava uma campanha salarial, para recuperar perdas históricas (desde 1999), uma operação do DEIC — que é onde o presidente da Associação trabalha — prendeu um ex-deputado e um cafetão. O cafetão, ao que se diz, seria “fornecedor” de muita gente. Goetten, presidente de partido, mas sem mandato, não seria o único “cliente” conhecido e importante. Mais do que combate ao crime, a ação policial seria também um recado àqueles que, na Alesc e no governo, terão que discutir, mais cedo ou mais tarde, os proventos dos delegados.

3. HOMENS DE VIDA FÁCIL

Seguindo a trilha aberta pela divulgação das “atividades” do ex-deputado Nelson Goetten, talvez fosse oportuno levantar mais alguns tapetes que encobrem esse tipo de comportamento.

Por exemplo: jornalistas que participaram da cobertura dos JASC em Chapecó, há alguns anos, tomaram conhecimento de uma festinha, oferecida a eles, em que houve o “sorteio” de uma garota de programa. Os “sorteios” desse tipo não seriam coisa rara, nessa e em outras regiões e às vezes com “patrocínio” de prefeitos e outros políticos.

Por falar nisso, são famosas as farras com prostitutas durante reuniões de prefeitos em Brasília. E em congressos e convenções Brasil afora. É algo considerado “normal”: fechar um andar de um hotel, “importar” as moças do Café Photo ou do Bokarra, para divertir convidados importantes.

O “incidente” na casa da Marlene Rica, em Joinville, onde estava a tal “cúpula da Segurança” no começo do governo LHS, seria, portanto, um evento corriqueiro (se não tivssem inventado de botar água no chope).

Aqui em Florianópolis não é difícil desencavar histórias de homens de vida fácil (com salários pagos pelo povo) e suas lanchas cheias de taxi-girls. Não que seja crime ter uma vida sexual ativa. Mas é constrangedor ouvir discursos moralistas na tribuna, de quem faz barbaridades na vida privada mantida por dinheiro público.

4. RIQUINHOS DA POLÍTICA

O rolo com o Palocci reabriu uma antiga ferida que ninguém gosta de mexer. De onde vem o dinheiro que os políticos utilizam nas campanhas e nas suas vidas privadas? Tá certo que não é um assunto muito popular. A maioria dos eleitores prefere quem gasta muito dinheiro nas campanhas: sempre elege os mais ricos.

Examinar o patrimônio real dos políticos é muito complicado. O falecido senador Antônio Carlos Magalhães, que sempre foi, reconhecidamente, um homem rico, de muitas posses, não tinha bens no nome dele. Era praticamente um monge franciscano, vivendo de seus proventos. Isso deve ocorrer com a maioria. Mas com um pouco de paciência dá pra acompanhar (sim, seguir, como nos velhos filmes policiais) o político por alguns dias e ver onde ele vive, onde passa os finais de semana, com quem anda. No cartório, é possível que o apartamento onde ele e sua família vivem, seja de um primo distante, que o emprestou só para ajudar o parente.

Um exemplo hipotético, pero no mucho: de onde viria o dinheiro daquele deputado que comprou um apartamento num dos prédios mais caros da cidade (que não deve ter custado menos de R$ 2 milhões) e só para prepará-lo para sua família, gastou R$ 400 mil em reforma? Sua casa de praia, na beira do mar, também deve ter custado cerca de R$ 2 milhões. Sua lancha, geralmente utilizada em “sociedade” com membros de outros poderes, também não é modesta. Como é do interior, deve ter outros bens em sua região de origem. Todo esse patrimônio veio de onde? Por que só fazem perguntas embaraçosas para o Palocci?

É isso, por enquanto.

EM TEMPO

Parabéns ao colega Upiara Boschi, que tem emplacado matérias de capa no DC com alguns assuntos espinhosos:

Surto de invalidez;

Desconstrução da era LHS;

Governo usa estatais para premiar aliados;

O dilema do Raimundo.

E parabéns também ao colega Moacir Pereira, que começa a utilizar melhor a possibilidade de interatividade que a internet proporciona. Foi na tarefa diária e meio enfadonha de ler os comentários do seu blog para liberá-los ou não para publicação, que ele começou a entender o drama dos professores. E à medida em que se mostrava sensível ao que lhe diziam, enviavam manifestações ainda mais numerosas e detalhadas. Como todo colunista, o Moacir recebe também muita informação do governo e das assessorias de imprensa, mas, pela primeira vez, ele percebeu que havia um contraponto, vindo diretamente dos envolvidos.

Ao privilegiar essa linha direta com os professores, deixando em segundo plano sindicato e governo, o Moacir produziu um dos fatos jornalísticos mais interessantes dos últimos tempos, supreendendo quem não o conhecia e deixando perplexos aqueles que imaginavam que havia alguma “ordem superior” balizando os comentários.

 

Discussão

Comentários estão desativados para este post.

  1. César Valente nos apresenta uma série de sugestões de pautas que estão quicando. A impressão que dá é que as pautas se esgotam em si mesmas. O caso Palocci, para ficar num exemplo, é grave, mas não é único. É justo que o povo conheça outros.

    Moacir Pereira está realmente trazendo a política para as questões que dizem respeito à população. Ao longo dos anos, a crônica política foi se transformando num debate a respeito das articulações. É mais uma tentativa de ver quais são as chances deste ou aquele candidato de chegar ao poder, assim como se analisa quais as chances deste ou aquele time ser o campeão. Mas a política difere do futebol. Uma conquista esportiva nos faz feliz por um dia, uma semana, até que nosso time perca a primeira. A política impacta em nossa vida no dia a dia.

    Moacir Pereira pauta seus comentários mais pelas mazelas da saúde, da educação e da segurança do que pelas reuniões partidárias, de gabinetes. E, agora, no caso da educação, seu blog dá mais atenção àqueles professores que querem ter uma vida digna e praticar o bom magistério, mas não tinham (nem queriam) uma tribuna partidária para expor seus pensamentos.

    Concordo contigo, César.

    Posted by Ivonei Fazzioni | junho 5, 2011, 12:15
  2. Literalmente, é uma puta pauta.

    Posted by Luiz Carlos Schneider | junho 5, 2011, 18:13
  3. Quem foi o comprador do apto?
    Sei de dois membros do antigo (atual) governo que adquiriram em dindin seus apartamentos.
    Eis porque o Palloci não cai. Tem sósias em tudo que é canto!

    Posted by luiz fernando | junho 5, 2011, 19:07
  4. Temas palpitantes, Cesar. Se as redações estiverem, efetivamente, ligadas, poderão dar em breve grandes matérias de capa. Boa semana.

    Posted by Saint-Clair | junho 6, 2011, 10:25
  5. Obrigado, Cesar. Compartilho a opinião sobre o Moacir, que se deixou contaminar pela interação com as pessoas e vive um grande momento.

    As sugestões estão anotadas. Parte delas estava na nossa agenda.

    Abraço

    Posted by Upiara | junho 6, 2011, 14:46
  6. César, aqui nos corredores da Assembléia, tbm acreditamos que o nobre Deputado faz parte dos novos “Riquinhos da Politica”, hoje podre de rico, comprou seu último imóvel,uma mansão a beira da praia mais famosa de Florianópolis, após seu cunhado ter passado por uma Secretaria importante do Governo passado. O imóvel em questão era de um proprietário de redes de postos de gasolina e que devia alguns milhões de impostos ao Governo, a mansão em questão que deve ter saído pela bagatela de mais ou menos 2 milhões está a exemplo da reforma do duplex na av. Beira Mar passando pela segunda reforma. Agora o que nos perguntamos, é de como eles fazem para enriquecer tão rápido e ninguém faz nada! Realmente não é só o Palocci!

    Posted by Ricardo Luiz Montanaro | junho 8, 2011, 17:17

Posts recentes

O fim de uma era
23 de maio de 2014, 17:27
Por Cesar Valente
E aí? Abandonou o blog?
6 de maio de 2014, 17:46
Por Cesar Valente
Brasília real aos 54 anos
28 de abril de 2014, 22:12
Por Cesar Valente
Beleza e crueldade
28 de abril de 2014, 22:01
Por Cesar Valente
A semana dos enigmas
17 de abril de 2014, 8:09
Por Cesar Valente

Arquivos