// você está lendo...

Florianópolis

Reencontrando o Juju

Estava hoje de manhã conversando com os passarinhos raivosos do meu iPhone, na enorme sala de espera da Receita Federal, quando senta ao meu lado o ex-vereador Juarez Silveira. Encontrar o Juju em Florianópolis não é difícil, mas logo na Receita? Bom, enrolado como ele esteve (está?) com a Polícia Federal e outros organismos, até que não parece coisa muito estranha que ele tenha negócios a tratar com o Leão.

Como nos conhecemos desde o tempo em que a ponte Hercílio Luz era a única ligação entre o Estreito e a Ilha, o Gaguinho era o melhor mecânico do estado e tomar laranjinha Max Wilhelm no bar Margarete era programa obrigatório, aproveitamos a espera pra conversar. Talvez não tenha sido possível colocar todos os assuntos em dia, porque o Juarez conhece “todo mundo”, sabe muitas histórias de bastidores e, como já deu pra perceber nas gravações feitas pela PF e publicadas (inclusive por este blog), na época da Moeda Verde, fala bastante. Mas foi uma boa visão geral do que tem acontecido com ele.

Depois de toda a fritura que se seguiu à prisão (em companhia ilustre, é bom que se diga) na Operação Moeda Verde, o Juarez está se preparando para voltar às campanhas eleitorais, candidato a vereador em 2012. Já tem até número: 11-456. Pelo PP, portanto. Diz que, por onde anda, recebe manifestações espontâneas de apoio. De gente simples aos figurões, o pessoal parece querer colocar Juju de volta na Câmara. Pelo menos é o que ele conta, com a riqueza de detalhes que lhe é peculiar.

Naturalmente, diz que foi injustiçado na Moeda Verde. E que não é corrupto, que nunca envolveu dinheiro público, nunca colocou empreiteiras na prefeitura. Teria sido envolvido por causa de suas duas características principais: querer ajudar os outros e falar muito.

Como foi uma conversa relativamente curta (afinal, a Receita deu um certo chá de cadeira, mas não nos fez esperar muito tempo), não cheguei a investigar mais a fundo as razões dessa injustiça. Nem tive como ir atrás de algumas bolas que ficaram quicando, quando ele mencionou os esquemas que estavam montados, quem participava do que e o verdadeiro gatilho que teria desencadeado a operação Moeda Verde.

Depois que saí de lá fiquei pensando que o Juarez e o Içuriti (ex-presidente da Codesc e tesoureiro do PMDB) são dois legítimos manezinhos, que tiveram uma trajetória previsível. Juntei os dois na reflexão porque sempre foram muito amigos. O Juarez chegou a ser preso com a camionete cheia de vinho e outras bebidas que tinha trazido do Uruguai para o amigo Içuriti. E assim como hoje o Juarez estava com uma camisa polo de grife, quando eu encontrava (no tempo em que ainda nos encontrávamos) o Içuriti, ele prestava atenção na marca da camisa que eu estava usando e, se aprovava, dava o veredito: “hum… essa aí é boa”.

Mas o florianopolitano não aceita muito bem as demonstrações externas de sucesso ou riqueza de seus conterrâneos. Coisa de manezinho. Quando os dois, de famílias conhecidas, mas simples, entraram na política e começaram a “se dar bem”, também começaram a fazer com que parte da cidade começasse a olhá-los de revesguelho.

Frequentavam ambientes chiques, eram convidados para passeios, viagens, festas, vestiam-se com roupas de grife, apareciam nas colunas sociais, gostavam de ostentar. Não foi surpresa, portanto, que tenham sofrido (talvez mais o Juarez que o Içuriti), uma sequencia de situações constrangedoras e os rolos em que estiveram envolvidos tenham tido tanta repercussão. Não se trata de discutir aqui se tiveram ou não culpa no cartório e se esses sinais externos de riqueza tinham origem lícita ou não (imagino que isso caiba à Receita investigar). Mas de constatar que, uma vez aberta a temporada de caça, por algum deslize, quem podia puxar o tapete, puxou. Quem antes dava tapinhas nas costas e usava o prestígio da dupla, depois virou a cara. Quando não mudava de calçada, ao encontrar na rua.

Mas a política é como uma nuvem. E, como já dizia Nixon, “a memória do povo é fraca e seu coração, complacente”. Não existe isso de algum político “morrer” porque sofreu processo, foi acusado de alguma coisa ou foi preso. E imagino que o eleitor saiba que, entre os candidatos a qualquer coisa, aquele que anda mais devagar, “avoa”.

Discussão

Comentários estão desativados para este post.

  1. Caro César: se tem um assunto que me deixa furioso e desconcertado é qualquer coisa que envolva esse tal de Juarez. A desfaçatez nas suas alegações de inocência tem razão de ser. Nessa hora lembro muito do Pelé, apedrejado depois que falou mal do povo brasileiro, acusado por ele de não saber votar. Levar o Juarez, o Juju para os íntimos, de volta à Câmara Municipal, explica em parte por que nossa cidade, consumida pela corrupção, ficou desse jeito.

    Posted by Mário Medaglia | abril 17, 2011, 13:08

Posts recentes

O fim de uma era
23 de maio de 2014, 17:27
Por Cesar Valente
E aí? Abandonou o blog?
6 de maio de 2014, 17:46
Por Cesar Valente
Brasília real aos 54 anos
28 de abril de 2014, 22:12
Por Cesar Valente
Beleza e crueldade
28 de abril de 2014, 22:01
Por Cesar Valente
A semana dos enigmas
17 de abril de 2014, 8:09
Por Cesar Valente

Arquivos