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Jornalismo

Pra que serve um sindicato?

Ontem um grupo de jornalistas que deseja disputar novamente a direção do Sindicato dos Jornalistas reuniu-se em torno de uma paella no Roma, no centro de Florianópolis. Como no lendário movimento que ensejou batalhas memoráveis e finalmente tirou do sindicato a “diretoria pelega”, na década de 80, estes também estão utilizando a sigla MOS (desta vez com acento: MÓS, para Movimento de Óposição Sindical).

Fui até lá porque gosto deles (muitos foram meus alunos, outros colegas e vários são grandes amigos), mas continuo assaltado por grandes dúvidas. Certamente não me engajarei na campanha antes de esclarecer algumas delas.

Para que os “leigos” entendam: de 1987 até recentemente, o Sindicato dos Jornalistas foi dirigido praticamente pela mesma turma. Tanto que as “eleições” eram feitas sempre em chapa única. A gestão atual é uma dissidência e os grupos estão de mal, porque o rompimento e o afastamento dos antigos aliados foi litigioso. O MÓS é o esforço de retomada do sindicato pelo pessoal que foi alijado.

OLIGARQUIA SINDICAL

Como sou meio distraído e ultimamente ando estudando pouco, é possível que só eu ache estranho que justamente quando, na base, os sindicatos perdem força e os sindicalizados se encontram desmotivados, na cúpula as coisas estejam tão bem. Como nunca, aliás. Os sindicatos, por exemplo, foram “pegos de surpresa” com o quebra-quebra promovido por 20 mil operários descontentes com as condições em que eram obrigados a trabalhar e viver, nas obras de Jirau. Mas as centrais sindicais e os sindicatos poderosos ocupam cadeiras importantes em conselhos de fundos, diretoria de estatais, no executivo e no legislativo.

Já ouvi até alguém falar em “governo sindicalista”, mas acho um pouco exagerado. Só porque o principal personagem da história recente nunca fez outra coisa na vida a não ser dirigir e ajudar a dirigir sindicatos, não quer dizer que tenhamos trocado as oligarquias tradicionais por oligarquias sindicais. Mas talvez estejamos chegando lá.

MASSA DE MANOBRA

E o fato é que, se perguntar a qualquer jornalista se é necessário se sindicalizar, acredito que, mesmo entre os sindicalizados, a resposta será vaga. Ou negativa.

Quando a gente ouve falar de sindicatos atuando, em geral é em prejuízo da população. O sindicato dos motoristas e cobradores de ônibus, por exemplo, só “aparece” para ameaçar a população com paralisações no transporte. Quando o sindicato dos aeroviários se mexe, em geral, no mesmo parágrafo ou um pouco adiante, aparece “caos aéreo”.

Fica a impressão, para quem olha de longe, que sindicato significa uma pequena célula terrorista que consegue ter uma massa de manobra com a qual faz pressão — indefinida — sobre coisas genéricas como “patrão” ou “governo”. E, no curso dessa pressão, o usuário, cliente, cidadão, só se ferra.

Claro que eu sei por que os sindicatos existem e o que as diretorias bem intencionadas pretendem. Também acho que, em tese, é muito importante que o trabalhador seja representado por uma entidade, para poder reivindicar e reclamar sem ter que se expor individualmente. E já diz a sabedoria popular que uma andorinha só não faz verão. Ou que um graveto é fácil de quebrar, mas um feixe de gravetos é mais difícil. Tudo isso, imagino, sabemos todos.

Quando, porém, as diretorias se encastelam e passam a fazer, da atividade sindical, carreira profissional, começam a perder contato com a base e isso faz com que os sindicalizados sejam vistos (e se sintam) apenas como uma útil e necessária, mas inerme e dócil, massa de manobra.

ENTÃO, PRA QUE SERVE?

Voltando ao caso dos jornalistas catarinenses e seu sindicato. Os jornalistas nunca foram muito solidários. Percorrem os postos e funções de suas carreiras com um nível de competitividade que torna difícil reunir um grupo grande em torno de interesses comuns. A luta por salários melhores seria um ponto de convergência, mas os jornalistas foram abalroados por uma sucessão de eventos catastróficos, alguns ocorrendo simultaneamente: a crise dos jornais, o surgimento das mídias digitais, a total desregulamentação profissional, a crescente falta de interesse, dos proprietários de veículos de comunicação, por profissionais qualificados.

Os sindicatos patronais, lógico, aproveitam-se da tibieza dos interlocutores e jogam duro nas mesas de negociação. E o sindicato dos jornalistas é fraco porque não conta com uma base ampla e mesmo a pequena tropa não está mobilizada. Tem poucos sindicalizados porque consegue poucas vitórias. E nesse circulo vicioso (paradoxo de Tostines), perdemos todos.

Falta também, aos que se dispõem a enfrentar a ingrata tarefa de dirigir um sindicato pobre e pequeno, estímulo e criatividade para avançar além do ramerrão sindical pós-ditadura. Em alguns momentos até a Casa do Jornalista (Associação Catarinense de Imprensa), com todos os seus compromissos sociais, comerciais e políticos, consegue ser mais agregadora da “catiguria”. E olha que até o começo da década de 80, a “Casa” era considerada “atrasada” e o “novo sindicato”, a coisa mais avançada. Hoje a gente já precisa de uma certa cautela ao fazer essas classficações genéricas.

Por isso tudo, não sei se os jornalistas precisam de um sindicato. Quer dizer: se for parecido com o que existe até hoje, não faz sentido. Se surgir alguma proposta inovadora, empolgante, mobilizadora, aí é de pensar. Mas, com o jornalismo e os jornalistas vivendo uma crise de identidade (são profissionais liberais ou servidores de empresas e governo?) e com uma grande confusão conceitual a reboque da desregulamentação profissional, qual será o mágico que conseguirá sair dessa arapuca?

 

Discussão

Comentários estão desativados para este post.

  1. Toda essa história, titio Cesar, remete a a história daquele burro velho que ninguém mais sabia a serventia… então, quando não era esquecido, trocavam-lhe apenas os pelegos de tempos em tempos e, dócil, velho e desdentado esperava o feno cada vez mais farto que a viúva, dona da Fazenda, franqueava-lhe generosa. (to be continued)

    Posted by LesPaul | abril 1, 2011, 21:00
  2. Lamentável teu comentário…

    Aliás.. quando se refere aos sindicato dos motorists e cobradores.. realmente é de doer…
    completamente decepcionada fiquei

    Posted by Cristiane Mohr | abril 4, 2011, 17:21
  3. Quando comecei no Jornalismo, lá no verdadeiro A Noticia “Standart”, o piso da categoria era R$720.00 e não me esqueço de uma pauta de plantão, para entrevistar os lideres de uma greve de onibus, ali no largo da Alfandega, creio que era umas h 19:00 e lá esta eu e o Andre Agassi o curioso desta pauta foi quando nós dois, ouvimos a pretenção salarial dos caras, sem desmerecer nem uma profissão, não me julguem preconceituoso, não é o caso aqui, mas vamos ao fato, os motoristas estavam naquele momente reenvindicando um salario de R$900.00, quando ouvimos aquilo, parecia que foi automatico, eu e o André olhamos um para outro e dissemos, o que que nós tamos fazendo aqui? Ali que vimos o quanto aquela categoria, era organizada e unida e por isto conseguiam o que queriam, se era justo ou não, aqui pouco importa, o fato é cosntatar que Jornalista, na maioria, tem um EGO enorme, e enche a boca pra dizer que é formado e tal, parece até que é um unissimo em tudo, mas é uma turminha desorganizada,desunida e na atualidade de hoje, sindicato, na pratica, não serve pra nada, só se for para fazer umas reunioizinhas pra gastar saliva que não leva a nada, no resto, tão se especialisando e grandes “eventos” churrasquinhos,bloco de carnaval, lançamentos de livros e vai a fora, mas se ater a aclutinar, unir, tentar realmente provir os seus associados, necas.
    Enquanto tiver esta patifaria de picuinhas e briguinhas que não levam a nada alugar algum, to fora.
    Nossa realidade hoje, creio que seria mais facil disolver o que esta ai e criar o “clube dos Jornalistas”, assim estaria dentro dos padroes atuais doque esta ai, no mais não tem tanta serventia.
    Desda primeira gestão desta que esta ai, o principal mote é a defesa do tal diploma, pra mim não serve, não sou diplomado, nunca tive esta pretenção, se desdo inicio aceitaram os Fotojornalistas sem esta bengala do diploma dentro do sindicato, porque que os profissionais de imagem ficam sempre a margem?
    Passa diretoria, passa diretoria e nada, é como se nós estivecemos falando pra o vento.
    Com esta turma ai ja gastei meu dempo de mais, não é eles que vão colocar comida na minha mesa.
    Nem reenvindicar o salaria que acho que mereço e sei que vou ganhar.
    De 1997 quando fiz meu registro profissional, até os dias de hoje, quais foram as conquistas que o sindicato conseguiu pra nós, quais mesmo?

    Posted by J.L.CIBILS | abril 5, 2011, 12:53

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