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Jornalismo

“Jornalismo” de assessoria

Li hoje cedo uma nota, no tuíter, sobre a nova Empresa Júnior da UFSC, a Comunica! Dizia-se ali que se tratava de uma “empresa júnior de jornalismo“. E resolvi, mais uma vez, colocar a mão nessa cumbuca, que tanta polêmica tem provocado ao longo dos anos.

Pra mim essa é uma questão resolvida, cristalina como a água dos rios do nordeste japonês: o jornalista que atua em assessoria de imprensa ou de comunicação assessorando empresas e entidades usa, é claro, sua experiência profissional e as técnicas jornalísticas para prestar um serviço que não é jornalismo. É relações públicas, assessoria de imprensa, comunicação institucional ou qualquer outro nome que julgarem apropriado. Menos jornalismo.

Para situar os leitores que vêm de outras áreas: sempre que a gente começa esta conversa, é bom esclarecer que existe um conflito entre Relações Públicas e Jornalistas por causa dessas funções. Os RP acham que é campo deles. Os jornalistas, um tanto quanto assustados com o estreitamento dramático das oportunidades de trabalho, desembarcaram com tudo nessa canoa e criaram até, na sua extinta legislação profissional, a figura do jornalista de assessoria de imprensa. O que, a rigor e que os RPs não nos ouçam, é muito bom pra nós porque, de fato, em muitas das tarefas de assessoria de imprensa, ter experiência jornalística e conhecer a vivência das redações, é fundamental.

Mas, ao longo do tempo, temos visto que os jovens saem direto do curso de Jornalismo para as assessorias de imprensa. Antes de fazer jornalismo profissionalmente, já começam a fazer relações públicas. Alguns, é claro, não fazem nem uma coisa, nem outra. Basta olhar com atenção alguns press releases que disparam para as redações que nunca frequentaram.

Os jornais, por sua vez, atingidos por uma crise medonha (financeira e de competência), passaram a contar com o “material” das assessorias para completar seu “noticiário”. É uma alface de dois legumes: para a empresa ou entidade é ótimo publicar suas coisinhas no jornal sem ter que pagar o espaço publicitário. Para o jornal é ótimo ter com que preencher suas páginas, sem ter que pagar salários a mais jornalistas.

Para os jovens, é possível que chamar de “Empresa Júnior de Jornalismo” uma empresa que vai prestar serviços de comunicação institucional ou assessoria de imprensa, pareça “natural”. “Normal”. E até se compreende que, no mercado, empresas que prestam esses serviços queiram adicionar charme ao seu nome, dizendo-se “de jornalismo”. Mas é preocupante quando um Curso de Jornalismo (!!!) comete esse tipo de equívoco.

Antes que comecem a crucificação (ou o enforcamento): nada contra empresas juniores, são fundamentais para complementar a formação, ainda mais numa área como o jornalismo, onde o estágio é terra de ninguém. Só acho que não custava nada terem denominado adequadamente a Comunica!: Empresa Júnior de Comunicação Institucional. Ou Empresa Júnior de Assessoria de Imprensa.

Jornalismo é outra coisa. Concordas, Scotto?

Discussão

Comentários estão desativados para este post.

  1. Que nome tem os jornalistas e empresas jornalísticas que fazem e fizeram assessoria de imprensa e relações publicas para um certo candidato a presidência da República? É jornalismo? Se for, me explica. Nunca vi tantas distorções, mentiras, omissões (vide o Arruda), etc e tal.(e já tinha presenciado muitas), inclusive as que me atingiram. Um dia, quem sabe, eu possa contar. Durante a campanha passada, a “imprensa” só contou o que prejudicava um candidato e ajudava outro. É jornalismo? Isto aconteceu em outras eleições tb, . Uma vez, lá atrás, perdi um emprego porque um dono de jornal, também jornalista, deu-me a seguinte ordem: “temos que foder o Lula”. Esta era a pauta. O outro candidato era o Collor…Era jornalismo?

    Posted by luiz lanzetta | março 28, 2011, 10:28
  2. Eita, o Lanzetta traz outro angu pra conversa. Por isso que roda de conversa de jornalista sempre vai madrugada adentro…

    Posted by Cesar Valente | março 28, 2011, 10:58
  3. é que a ferida está aberta…e nem entrei na questão do empreendedorismo jornalístico. é uma necessidade, principalmente agora, com os sites. Empresas de assessoria, nem falar. Nasceram da necessidade, da “reengenharia” das grandes empresas jornalísticas nos anos 90 e da pressão do mercado global. Muitos jornalistas, de esquerda ou não, jogados pra fora ou por opção, tornaram-se empreendedores. Mas existe uma ética geral, para qualquer profissional: não mentir! Anos atrás, a revista Veja, descrevendo as novas profissões, disse mais ou menos assim: assessor de imprensa é pago para distorcer e mentir. Quem trabalha na Veja, hoje, faz o quê exatamente?

    Posted by luiz lanzetta | março 28, 2011, 11:06
  4. Concordo com você que assessoria de Imprensa não é jornalismo, mas depende do produto que a agência oferecer eles podem sim fazer jornalismo.

    No meu TCC estudei o jornalismo praticado em duas revistas empresariais. As revistas utilizavam corretamente os gêneros jornalísticos e os critérios de noticiabilidade.

    A Assessoria de imprensa pode não ser jornalismo, apesar de utilizar as técnicas do jornalismo. Mas acredito que a Assessoria de Comunicação pode oferecer serviços jornalísticos.

    Posted by Felipe da Costa | março 28, 2011, 11:32
  5. Felipe, é aí que a porca torce o rabo: uma bela revista feita por uma empresa (Pirelli, TAM, etc) pode publicar matérias jornalísticas (às vezes melhores que as que encontramos em algumas revistas ditas “jornalísticas”). Mas a gente sabe que existe, por trás, o interesse de vincular a marca a uma certa visão de mundo. O que, em certo sentido, pode ser mais honesto que os casos citados pelo Lanzetta. O jogo é mais claro. Mas… putz, será que preciso conceituar jornalismo?

    Posted by Cesar Valente | março 28, 2011, 12:14
  6. Ave, César
    Não sou da área, por isso só posso perguntar. E perguntar não ofende:
    “Jornalismo”, sei que é uma profissão histórica e talvez não coubesse um novo batismo para o nome desta nobre profissão. Mas, seria mesmo o nome mais apropriado para englobar as atividades que lhe são afins?
    A propósito, dias desses recebi, de brinde ( ou seria de castigo) um exemplar do maior jornal ( ou seria agasalho de tainha) em circulação na Capital. Tá boiando. Para pensar…
    abr

    Posted by waltamir | março 28, 2011, 13:03
  7. César, a discussão é eterna. Um dia, um colega, muito conhecido seu, saiu aqui da Assessoria e foi para uma redação. Dias depois, veio nos visitar e lhe perguntei como era a vida no outro lado do balcão. Ele então me respondeu que onde eu trabalhava era mais honesto, pois havia uma plaquinha na porta anunciando que se tratava de uma Assessoria de Imprensa. E o veículo onde ele trabalhava fazia o mesmo, mas com outra plaquina na porta. Não quero apregoar que isso seja regra geral, mas infelizmente é mais comum do que o leitor imagina.

    A publicação dos releases na íntegra pode parecer boa para as organizações e suas assessorias de imprensa. Mas não é. Não é para a sociedade, que pode ter uma visão enviesada de um determinado assunto. E tampouco o é para as próprias organizações que emitem os releases. Estas deixam de ver seus temas tratados de maneira diferente, com outra linguagem, outro enfoque, não necessariamente uma crítica, mas uma visão diferenciada.

    Posted by Ivonei Fazzioni | março 28, 2011, 13:33
  8. Pelo que entendi, então, o jornalismo, jornalismo, jornalismo mesmo, o conceito que o Cesar está tentando nos explicar, não existe mais. É isso?
    A verdade não é mais dita. É isso?

    Posted by Edu | março 28, 2011, 15:01
  9. Enquanto vocês tratam de responder a pergunta do Edu, vou ali fazer a coluna de amanhã pro Diarinho. Coisa que também, a rigor, talvez não seja jornalismo :-)

    Posted by Cesar Valente | março 28, 2011, 15:05
  10. Professor Cesar, grande discussão, como sempre. Eu estou na estatística que falas aí de estudantes que saem da faculdade e vão direto para assessoria de imprensa, sem passar por redações. Aliás, no meu caso, durante a própria faculdade já atuava com comunicação empresarial e antes de me formar abri minha primeira empresa na área.

    Com certeza se tivesse passado por redações, complementaria em muito o meu trabalho. Vejo inclusive em profissionais que hoje emprego a diferença de quem esteve numa redação e quem não esteve, por isso valorizo bastante. No meu caso, foi uma opção na metade do curso de investir na comunicação empresarial. E por minha conta, pois o curso de Jornalismo da UFSC não me dava este subsídio. Aliás, em somente uma disciplina pude ter acesso a algum embasamento teórico, que foi a optativa Assessoria de Imprensa, justamente com você como professor. :)

    Agora a pergunta que não quer calar: eu sou jornalista? Não, não sou jornalista. O que faço não é jornalismo e sinceramente não tô nem aí para o que acham ou deixam de achar. O importante é que ganho o meu dinheiro de forma limpa, transparente, emprego profissionais e tenho uma bandeira no meu trabalho (atuo só com o segmento de tecnologia e a valorização deste setor como economia em SC é uma causa para mim).

    Agora a formação de jornalismo foi fundamental para mim para eu ter à disposição um leque de ferramentas para executar meu trabalho. E que foram complementadas por uma especialização em propaganda e marketing e agora um mba em gestão de negócios e projetos interativos.

    Enfim, depois de todo parlatório, queria fechar falando que a questão do nome da empresa jr seja mais uma questão de semântica mesmo. Ou mudar mesmo para Comunica Jr, empresa jr do Curso de Jornalismo e não de Jornalismo. :) Simples e indolor.

    Acho também que todos que passaram pelo curso de Jornalismo da UFSC, seja como aluno ou como professor e que ao longo de suas carreiras profissionais tiveram ou tem experiências com comunicação empresarial, deviam dar apoio a iniciativa e valorizar o esforço que os garotos lá estão fazendo. Eu estou apoiando e vou ajudar em tudo que estiver ao meu alcance.

    Até, Cesar :)

    Posted by Rodrigo Lóssio | março 29, 2011, 08:14
  11. Rodrigo,

    A discussão é se fazemos jornalismo ou não. Quanto à nossa profissão, não há dúvidas, somos jornalistas. Mesmo porque ninguém deixa de ser alguma coisa (quando sai da redação) e volta a sê-lo depois (quando retorna). Só deixa o cargo, a função, não sua formação. Além disso, quando um sujeito está desempregado deixa de ser jornalista ou é um jornalista desempregado?

    Estou numa pós-graduaçao e tive uma disciplina com o Chico Santana. Ele desenvolveu e nos apresentou o conceito de “mídia
    das fontes”. É o caso da TV Senado, onde trabalha, que deixou de ser uma assessoria de imprensa e produz conteúdo próprio, para divulgação no seu canal. Os demais veículos pegam as imagens,sonoras e pautas dela e as reproduzem. Seria uma proposta de jornalismo? Parece, mas a TV Senado e outras mídias das fontes não têm a liberdade de expor as mazelas das organizações mentenedoras. Mas, de novo, um veículo “tradicional” tem a liberdade de expor as mazelas de seus patrocinadores?

    Posted by Ivonei Fazzioni | março 29, 2011, 09:10
  12. Esta questão levantada pelo Ivonei está rondando os comentários desde o começo. É diferente da que propus mas, como vimos, não vive longe dela. Os veículos que deveriam respeitar a fé pública que lhes atribui credibilidade, transformaram-se subrepticiamente, ou nem tanto, em “mídia da fonte”: sendo que a “fonte” é a pessoa ou grupo dirigente ou proprietário. Isso sempre foi muito comum em pequenos jornais e emissoras (“do interior”), mas acabou se alastrando. Quanto ao fato de sermos ou não jornalistas: who cares?

    Posted by Cesar Valente | março 29, 2011, 09:22
  13. Aparentemente você “cares” muito com esses nomes que, na verdade, pouco nos definem nessa “profissão”.
    Jornalismo é o que então? É a busca pela verdade? Apuração imparcial? Informação pura e objetiva? E assessoria? É puro interesse de mercado escondido sob textos ditos informativos?

    E quem faz jornalismo é jornalista? Mas jornalista não faz somente jornalismo? E se um jornalista se utiliza do jornalismo para fazer outras atividades fora dos grandes (ou menores) meios de comunicação ele deixou de fazer jornalismo?

    Não entendo o seu espanto. O DC pode falar que faz jornalismo com aquela “muntuêra” de páginas vazias de conteúdo e informação, cheias de “matérias” de pouco interesse público – e algum interesse do público investidor – e um grupo de jovens acadêmicos comprometidos com a ética jornalística (aparentemente mais difundida na academia que no mercado de trabalho) não pode chamar de empresa jornalística um trabalho que exige muito dos conhecimentos ditos “jornalísticos”, ensinados por jornalistas em um curso de jornalismo?

    Sou jornalista por formação (formação recente, pela UFSC – sob orientação do maravilhosíssimo Scotto) e não atuo na imprensa convencional, no jornalismo diário, nos grandes meios de comunicação. Mas sou jornalista, e não me acho menos jornalista, fazedora de jornalismo, que você e os seus textos publicados periodicamente.

    Polêmica desnecessária que pouco acrescenta na construção e evolução dessa nossa querida profissão, não?

    Posted by Sofia Franco | março 29, 2011, 14:30
  14. Baixinha, tu bebeu?

    Posted by Scottofake | março 30, 2011, 14:05

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