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Jornalismo

O Estado, arqueologia sentimental

A Lena Obst criou um grupo no Facebook para reunir a turma que passou (a trabalho, naturalmente) pelo jornal O Estado. A maioria remou naquele prédio em que está sendo realizada a Casa Cor. Mas os mais antigos também cataram milho na Felipe Schmidt, ao lado da Assembléia de Deus. E alguns ainda pegaram o sobrado da Conselheiro Mafra. O fato é que, pela rapidez com que o grupo encheu-se de gente saudosa, parece que a conseguimos sair do jornal O Estado, mas o jornal O Estado ainda não saiu de muitos de nós.

Como principal jornal diário de Santa Catarina durante décadas, empregou muita gente. E abrigou muitas histórias. Tanto as relacionadas ao jornalismo, às reportagens, ao dia-a-dia profissional, quanto as que envolviam dramas e alegrias pessoais. E agora parece que está surgindo uma enorme onda de saudade daqueles tempos. Nem tanto para revive-los, mas para recuperar as histórias, lembrar dos episódios marcantes e, também, rever antigos colegas.

Claro que na cabeça de cada um e cada uma que tenha passado por O Estado, tem um fragmento particular dessa história. Mesmo quando contemporâneos, o ponto de vista de cada um nem sempre é complementar: pode ser conflitante. Recolher esses retalhos para formar uma “patchwork quilt” que possa ser entendida e apreciada, será tarefa difícil. Mas seria bom se alguém se dispusesse a enfrentá-la.

Aposto que o declínio e fechamento de O Estado foi acompanhado com tristeza pela maioria dos que, em alguma época, trabalharam lá. Por mais raiva que a gente pudesse sentir da forma como eventualmente nos trataram, ou frustração por algum projeto jogado na lata do lixo da falta de interesse, torcíamos para que, um dia, o Comelli caisse em si e conseguisse dar a volta por cima. E que O Estado, cuja marca morava no coração dos leitores de jornal, recuperasse seu lugar como o bom jornal que tentou por várias vezes ser mas que, repetidamente, recusou-se a ser.

Existem vários episódios, ao longo da história do “mais antigo”, que merecem ser examinados, explicados, escavados. Porque isso faz parte da história de Santa Catarina. Porque faz parte da história do jornalismo no Brasil. Porque faz parte da história de tantos de nós, cujas carreiras profissionais estão intimamente ligadas àquela redação.

Espero que iniciativas como a desses colegas, no Facebook, acabem por demonstrar que O Estado não é apenas um retrato envelhecido na parede de um prédio em ruínas.

LEMBRAS DISSO?

No capítulo que escrevi para o livro “Jornalismo em Perspectiva”, com que o Sindicato dos Jornalistas de SC comemorou seus 50 anos, contei alguns episódios relacionados ao jornal O Estado. Pra ajudar a provocar os colegas mais jovens, republico aqui trechos desse artigo. Um pequeno fragmento que já mostra o jeitão O Estado (ou seria o jeitão Comelli?) de ser. Sem grandes planos, procurando a profissionalização, mas também não indo muito adiante nisso, com altos e baixos geralmente coincidentes com o ânimo (ou desânimo) de seu presidente. Que não foi, com certeza, o único culpado, mas como o legendário capitão de navios postos a pique, abraçou-se ao mastro e ali ficou, até o final:

(…)
O lançamento do “Jornal de Santa Catarina”, em Blumenau, em 1971, foi um terremoto jornalístico cuja onda de choque chegou a Florianópolis com toda a força. Não só porque Nestor Fedrizzi (jornalista gaúcho responsável, com João Aveline, pelo sucesso da “Última Hora” em Porto Alegre) levou para Blumenau jornalistas da melhor qualidade, uma rotina jornalística profissional e nova tecnologia de impressão, mas também porque, antes mesmo do lançamento, começou a montar uma grande sucursal na capital.

Ayrton Kanitz lembra que, ao chegar a Florianópolis em 1970, trazido de São Paulo por Nestor Fedrizzi, com a tarefa de montar a sucursal do Santa (como é chamado o jornal de Blumenau) foi muito bem recebido por Adolfo Zigelli, um radialista de prestígio que embora apaixonado por Florianópolis e defensor das tradições locais, não hostilizou os recém-chegados e os ajudou de inúmeras formas, mesmo antes de tornar-se colunista do jornal.

O Santa foi lançado em 22 de setembro de 1971, composto a frio e impresso em rotativa off-set. Todos os demais jornais tinham composição a quente (com linotipos) ou manual (com tipos móveis) e impressão direta plana ou no máximo rotoplana (matriz plana e entintador rotativo). E um projeto editorial moderno e competitivo.

O jornal “O Estado” foi, de certa forma, surpreendido pela iniciativa do Santa. José Matusalém Comelli conta que a modernização de “O Estado” estava sendo pensada e planejada, mas ainda não tinha sido feito qualquer processo de compra ou importação de equipamentos, procedimentos excessivamente burocratizados e que, em geral, demorava mais de um ano.

Mesmo assim, oito meses depois, em maio de 1972, o jornal “O Estado” estreava sua nova sede, na rua Felipe Schmidt, com equipamentos semelhantes aos do concorrente de Blumenau. Um jornal totalmente renovado, gráfica e editorialmente. Para fazê-lo, trouxe parte da equipe que lançara o Santa, acrescentando alguns jornalistas gaúchos recém-chegados e poucos locais.

“O Estado”, na verdade, foi beneficiado pelo acaso. Em meados de 1971, Jorge Daux (então proprietário da rede de cinemas da capital) procurou Comelli para apresentá-lo a um deputado paranaense que estava vendendo o equipamento que “O Estado” precisava. O amigo de Daux, do grupo de apoio do então governador paranaense Haroldo Leon Peres, importara todo o maquinário para instalar um jornal em Maringá. As máquinas tinham acabado de chegar e, enquanto ainda estavam nos portos de Santos e Paranaguá, o governador deixou o cargo (Peres renunciou em setembro de 1971, após sete meses de mandato, num episódio até hoje obscuro). Diante disso, o dono do jornal achou melhor não lançá-lo e saiu em busca de compradores para as máquinas. Portanto, havia todo um sistema de composição a frio IBM e uma rotativa off-set Goss, com todos os demais equipamentos complementares à venda, em portos brasileiros. Praticamente pronta entrega. Foi por isso que, em tempo recorde, “O Estado” conseguiu renovar-se, surpreendendo a todos.

(…)

Em 1972, Florianópolis estava “cheia” de jornalistas gaúchos, na sucursal do Santa e no jornal “O Estado”. E não eram quaisquer jornalistas: Ayrton Kanitz, JB Scalco, Elaine Borges, Mário Medaglia, Jorge Escosteguy, Nei Duclós, Virson Olderbaun, por exemplo, poderiam, como de fato alguns fizeram, trabalhar em qualquer lugar do mundo. Não era um fato isolado, porque as redações dos principais veículos, no Rio e em São Paulo também estavam “cheias” de gaúchos talentosos.

Em março de 1972, com 19 anos, eu estava entre os jornalistas catarinenses que compunham a redação, na nova etapa de “O Estado”. Naturalmente, os postos principais nas principais editorias eram ocupados pelos “gaúchos”. Eles eram os jornalistas experientes. Nós éramos os iniciantes. Ocupava uma vaga de redator no Caderno 2, editado pelo Paulo da Costa Ramos.

O choque cultural e profissional era ao mesmo tempo assustador e estimulante. O Jorge Escosteguy (falecido em 1996), grande jornalista que depois tornou-se nacionalmente conhecido e respeitado, era uma esfinge arrogante aos olhos curiosos dos locais. Ele desenhava e diagramava as páginas que editava, traduzia os telegramas das agências internacionais, trabalhava sem descanso e sem levar a sério aquele bando de provincianos que circundava o grande centro do saber. Tinha vindo diretamente de Porto Alegre, sem ter passado pelo Santa.

E eu, sem maiores responsabilidades do que dar texto final a matérias culturais, muitas delas traduzidas de revistas estrangeiras, achava tudo muito divertido. E ainda me pagavam para participar daquela festa.

Mas o melhor estava por vir. Em outubro de 1972, de repente, literalmente de uma hora para a outra, os “gaúchos” foram embora. No meio da tarde nós, os remanescentes e inexperientes catarinas, fomos chamados a assumir todas as funções do jornal que tinham ficado desguarnecidas. Tivemos que arrebentar a caixa preta a marretadas. Aprender a fazer tudo o que ainda não tínhamos aprendido, para poder manter o jornal circulando.

Tomamo-nos de brios e ninguém mais falou em ir pra casa, jantar, descansar. Eu, pelo menos, fiquei dois dias inteiros no jornal. A primeira edição que fizemos chegou às bancas perto do meio-dia (não lembro se antes ou depois), mas chegou. A segunda, um pouco mais cedo. Provamos, para nós mesmos e para o mundo, que éramos capazes de baixar um jornal, mesmo sem os “gaúchos”.

A gota d’água que provocou a saída daquela turma, vista a esta distância, parece mesmo apenas uma gota (uma discussão menor sobre funções e atribuições). Mas a conjuntura na qual o incidente ocorreu era mais ampla. Havia um conflito latente sobre como conduzir o jornal “O Estado”: de um lado, os jornalistas que tinham sido criados num ambiente empresarial mais profissional (Porto Alegre, àquela altura, tinha cinco ou seis jornais, alguns de grande qualidade jornalística) e do outro os dirigentes do jornal, responsáveis pela implantação de uma mudança que, embora radical, tinha menos de um ano de vida. Parecia que o ritmo dos locais que estavam se esforçando para modernizar a imprensa provinciana e de quem tinha vindo de fora com o mesmo objetivo não estava sintonizado, favorecendo os atritos.

(…)

Discussão

Comentários estão desativados para este post.

  1. César

    Eu era pequeno e peguei muito pouco d’O Estado. Me lembro apenas da última propaganda que dizia as notícias e tinha um vendedor gritando o nome do jornal, em meados da década de 90. Pois bem.

    Minha pergunta se refere ao tipo de jornal que era O Estado. Como era seu posicionamento, sua visão. Como era escrito o jornal? Se assemelharia ao DC, a Folha? O pessoal daquela época, penso eu, teria muito mais desenvoltura que os de hoje. Digo que os que escrevem hoje, não consigo imaginá-los fazendo nome, como o pessoal das antigas conseguiram fazer. Posso estar errado, mas não existe mais aquela “pegada” de quem escrevia antigamente. Não sei se só eu penso assim. Não consigo encontrar referências de jornalistas, não só no estado, mas no país, que possam servir de referência no futuro. Seria saudosismo ou estou correto?

    Posted by Gabriel | março 21, 2011, 14:13
  2. Oi Cesar,

    Também estou acompanhando a folia armada no território do FB em torno de reencontros de equipes de OE. Passei por lá entre 1977 e 1987. Claro que foram anos marcantes, principalmente porque foi meu primeiro emprego.
    Mas toda essa movimentação saudosista ainda não me é tão forte quanto o sentimento de frustração com os administradores daquela empresa, que colaboraram e muito para um panorama de monopólio regionalizado na mídia catarinense de agora.

    Posted by marcos heise | março 21, 2011, 14:29
  3. Esse livro que citas e do qual participas, Cesar, deve ser bem legal. Mas mais legal ainda seria um só de causos d’O Estado. Exemplos? Aquela da calota de fusca OVNI da Barra da Lagoa que quase foi pra capa; aquela do reporter famoso que inseria piadinhas no texto que mandava à redação contando com a eficiência da revisão para retirá-las. Um dia a coisa falhou, escapou, se não me engano, numa legenda, uma anedota sobre a vida sexual do então governador. Dizem que foi o único período em sua história que O Estado foi – empurrado para – oposição.
    Um livro desse venderia de montão. No mínimo uns 50 exemplares :-).
    Já dei essa idéia pra tantos oestadianos, mas ninguém me dá bola.

    Posted by Edu | março 23, 2011, 14:31

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