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Jornalismo

Ideli X Prates. E nós com isso?

Não resisto. Tenho que me meter nessa história. Como vocês sabem, o Prates, comentarista que a RBS acha o máximo, em uma de suas catilinárias chamou o governo Lula de “governo espúrio”. E aí a eterna líder do governo no Senado, Ideli Salvatti, em campanha para algum cargo no governo Dilma, aproveitou a deixa, “montou num porco”, como se diz na terra do Prates e da RBS e foi para a tribuna produzir catilinárias de teor semelhante, mas em sentido inverso.

espúrio segundo o dicionário Priberam online:

adj.
1. Diz-se do filho que não tem pai certo ou que não pode ser perfilhado. 2. Fig. Adulterado; que não está como o autor o fez. 3. Imundo; espurco. 4. Estranho à boa linguagem. 5. Ant. Despojado, privado. 6. Med. Diz-se da doença a que faltam os sintomas característicos.

espúrio segundo o Michaelis online:

es.pú.rio
adj (lat spuriu) 1 Adulterino, bastardo. 2 Incestuoso. 3 Não genuíno; simulado, falso. 4 Degenerado. 5 Apócrifo, suposto. 6 Estranho à boa linguagem. 7 Diz-se do filho de pessoas legalmente impedidas de casar-se entre si. 8 Eletrôn Diz-se do dado indesejado ou inesperado, ou de um erro num sinal, normalmente causado por ruído. Antôn (acepção 7): legítimo.

E por que seria espúrio, na acepção do Prates, o governo que aí está?

Ora, porque ofereceria maior e mais fácil acesso a automóveis do que a livros. Foi o que entendi. E gente que mora mal e não tem educação pode ter carro, graças ao governo degenerado, imundo, estranho à boa linguagem (misturar definições de dicionários sempre produz frases surrealistas).

O que notei em alguns dos discursos do Prates (de quem, devo confessar, não sou ouvinte assíduo), é que ele pega um núcleo óbvio e até bem razoável e o circunda com uma adjetivação intensa, pronunciando tudo com um tom indignado que soa teatral. O objetivo, imagino, é causar impacto. Dar ao argumento foros de ultimato.

Impossível ser contra a idéia de que há excesso de veículos, manobrados por gente sem preparo. E que muitos morrem bestamente, por erros primários e absoluta falta de cuidado, responsabilidade e habilidade. Claro, esses descerebrados motorizados (pra entrar no clima) habitam todos os patamares econômicos. Há imbecis ricos, remediados e pobres. E aí está o outro mote a que a senadora Ideli (e os senadores que a apartearam), se apegou para bater no Prates: ele teria dado a exclusividade da imbecilidade aos “miseráveis”.

O governo Lula, do qual a senadora Ideli sempre foi legítima representante e agora, em campanha por um carguinho federal, ainda mais, faz essa distinção: existem os pobres, a quem o governo ajuda como nunca nessepaís, e os ricos (a zelite), que são os inimigos a combater em certas horas (E a agradar em outras, mas isso não vem ao caso agora).

Pois bem, se os áulicos do governo podem falar mal dos ricos, por que não poderia alguém falar mal dos pobres? Segundo a Constituição brasileira, existe liberdade de expressão. Sem ressalvas. Portanto, por menos que a gente concorde com o Prates e sua forma de se expressar, ele tem todo o direito de dizer o que pensa sobre qualquer assunto. Assim como a senadora e seus pares, que podem falar o que bem entenderem. Ela, além da proteção constitucional, ainda tem uma segurança extraordinária, que é a imunidade parlamentar.

Portanto, é do jogo que exista o debate, a contestação, a contra-argumentação. Mesmo que usando palavras duras de lado a lado. É assim que a democracia vive e respira: com todos dizendo o que pensam.

O fato do Prates dizer coisas que eu não gostaria de ouvir, de uma forma que considero inadequada, ofendendo alguma das minhas sensibilidades não justifica, porém, o caminho que a senadora e alguns de seus colegas parecem querer tomar: pedir a cabeça do Prates, pressionar a RBS para que o cale, impedir, de alguma forma, que ele continue falando.

O argumento de que o Prates deve ser calado porque teria dito coisas impróprias “numa concessão pública” soa, para mim, como se a senadora estivesse entendendo “concessão pública” como propriedade governamental. Não é. Essa é uma idéia distorcida que atinge seu ápice nos períodos eleitorais, quando a Justiça Eleitoral exerce um papel censório feio e perigoso sobre o que se diz nas tais “concessões públicas”. Há uma diferença abissal entre “público” e “governamental”.

Quanto às pressões, já vimos esse filme, aqui mesmo em Santa Catarina: o governo não gosta do que algum jornalista diz e o secretário de comunicação, ou outra pessoa encarregada desse serviço sujo, vai ao patrão do jornalista, “conversar”. O resultado: ou o cara baixa a bola, ou dança. Raramente, e bota raramente nisso, o patrão tem coragem de colocar o emissário porta afora, entendendo como ofensa o que realmente é.

O fato de alguém dizer coisas com as quais não concordo, de uma forma que considero desagradável, não é suficiente, numa democracia, para que seja proibido de se expressar (sim, sim, ressalvadas situações tipificadas como bandidagem verbal ou escrita).

Discursos como os do Prates podem até causar indignação, provocar respostas, mas não deveriam espantar. Há coisas semelhantes nos vários lados do espectro político. Gente que defende o MST, gente que defende a extinção de partidos políticos, gente que defende o socialismo moreno de Chavez, gente que acha Obama excessivamente esquerdista, um perigo para o mundo livre… tem de tudo nesse mundo de Deus.

Por isso, se alguém achar que deve “combater” o Prates, que o faça. Sem, contudo, tentar silenciá-lo pela força. Porque, por incrível que possa parecer aos menos cultos, ele pode, sim, chamar o governo de espúrio, sem medo de sofrer qualquer represália ou processo. E o governo que não entender isso (ou não aceitar a pluralidade de opiniões), corre o risco de dar-lhe razão.

Discussão

Comentários estão desativados para este post.

  1. Clap, clap, clap (barulho de aplauso, explico aos menos onomatopaicos). Apenas complemento a sua frase: “Por isso, se alguém achar que deve ‘combater’ o Prates, que o faça”, mas o faça com argumentos e usando as ferramentas do debate. O resto é censura.
    Forte abraço.

    Posted by Giancarlo | novembro 19, 2010, 10:00
  2. Só gostaria de ressalvar que ao mesmo tempo que existem pessoas que querem que os políticos se calem, sejam punidos etc, também existirão pessoas que querem que jornalistas se calem, sejam punidos etc.

    Jornalistas, vocês não são deus.

    Posted by Sakae | novembro 19, 2010, 10:16
  3. E pra colocar meu comentário acima num contexto, quero dizer que admiro demais o Prates.

    Embora não concorde da maneira com que ele argumente, sou da opinião de que ele deve ser livre para falar o que bem entender na televisão, assim como a Ideli deve ser livre para falar o que bem entender na bancada.

    Posted by Sakae | novembro 19, 2010, 10:18
  4. Tem coisas que não podem privar de escrever em apenas 148 caracteres. Parabéns por se meter aqui no blog

    Posted by Fabio | novembro 19, 2010, 11:49
  5. Em outros sites, vi pessoas afirmarem que o Prates é fascista e defensor do “american way of life”. Afora a confusão de fascismo com liberalismo (antagônicos, por sinal), porque ele criticou o excesso de carros, os maiores símbolos do tal “american way of life”? Creio que o comentário dele foi uma provocação, ainda que de muito mau gosto, à procura desenfreada por frivolidades em detrimento de coisas mais importantes para um futuro consolidado (um lugar para morar, uma família estável, filhos bem educados, etc). Por mim, ele tem todo o direito de falar o que quiser. Nos dias em que vejo que sua argumentação no Jornal do Almoço está “fora da casinha”, basta-me trocar para o Hélio Costa, ou outro programa qualquer. Simples, não é? Mas parece que o brasileiro tem vocação autoritária: se eu nao gosto do sujeito, à guilhotina com ele! Parecem a Rainha de Copas em Alice: cortem-lhe as cabeças!

    Posted by Fernando Silva | novembro 19, 2010, 13:36
  6. Realmente, o que está acontencendo no Brasil nos últimos 2 anos é assustador. Estão tirando o Prates para cristo agora. Um dos motivos é claramente o fato de ele ser gaúcho. Veja a coluna do Cacau hoje por exemplo. Eu discordo com o Prates em muitas situações, mas é claro que ele está correto em muitos casos. Pessoas gastando mais do que tem, comprando caros em 6 mil prestações. É triste o que está acontecendo, você não pode ter mais uma opinião contrária a nada no Brasil sem ser acusado de ser nazista. A situação piorou muito nos últimos tempos, e tenho muito medo do que está por vim.

    Posted by Rafael | novembro 19, 2010, 15:45
  7. Por exemplo… os ecoPINÓQUIOS a todo custo querem porque querem impedir-me de usar esta minha singela contribuição à língua portuguesa e ao desenvolvimento náutico brasileiro…

    Tem tudo a ver uma coisa com a outra, mas são 18:20 de uma sexta-feira e não preciso dizer mais nada.

    Não cansam, os ecoPINÓQUIOS, de pedir censura contra mim nas redes sociais (e mesmo do lado de cá del – ops!)!!!

    Quebra tudo, Prates!!!

    Só por defenderes obstinadamente, diariamente, a BOA leitura, sou teu fã (quase) incondicional!!!

    Outro dia peguei minha filha de 8 anos lendo uma revista… Mérito do Prates?! Tá, era uma destas publicações teens e tinha o Justin Bieber na capa, mas e daí?, tudo tem seu tempo…

    Só a idéia de censurar que parece ser uma constante.

    Posted by Ernesto São Thiago | novembro 19, 2010, 18:35
  8. É interessante o debate que este Prates proporciona. Longe das câmeras ele é outra pessoa, um cara simpático até. Uma vez para um trabalho de jornalismo resolvemos entrevistar ele e o meu colega que ia fazer a entrevista errou o nome do Prates já de inicio. Pensei que ele iria se revoltar com a incompetência do estudante, mas ele fez uma piada, corrigiu e a entrevista transcorreu normalmente. O homem não virou a fera do Jornal do Almoço.
    O problema é que o personagem Prates, o “formador de opinião”, é um fã assumido da Ditadura Militar, uma fase que foi superada no Brasil. Uma fase que acabou com a ajuda da pressão popular, do povo que queria de volta a democracia que foi surrupiada por meio das armas. A liberdade de expressão em uma ditadura é rara, mas mesmo assim este sujeito sempre dá a entender que a volta dos militares ao poder seria a solução.
    Ele representa uma grande parcela da população, é óbvio. São vários os senhores, donos de blogs inclusive, que vibram quando Prates elogia este passado recente do Brasil. São homens que adoram ver homens de farda ditando as regras.
    Prates pode falar a vontade. O direito dele de se expressar deve ser garantido de todas as formas. Só é impressionante que em pleno 2010 ele tenha tanto espaço em uma empresa do tamanho e alcance da RBS. Ou, na verdade, nem é tão impressionante assim. Talvez ele seja um dos representantes dos reais valores da rede de comunicação onde trabalha.
    Eu quando consigo olhar ele falando (ou o escuto no rádio) vejo o retrato de um passado que em breve se apagará de vez.

    Posted by ccanasnafita.blogspot.com | novembro 19, 2010, 23:43
  9. hehehe viva a democracia brasileira!!

    Posted by Marisis Kallfelz | novembro 20, 2010, 00:38
  10. so pra complementar
    como estamos numa democracia vou ver uns filminhos americanos i love the american way of life!

    Posted by Marisis Kallfelz | novembro 20, 2010, 00:40
  11. O Prates so fala com esta agressvidade porque esta numa mídia poderosa (RBS), se estivesse em outro canal seria considerado um idiota, inclusive por voces. Se não quer que pobre compre carro, quando trocar o seu por um 2011, poe o velho no desmanche.

    Posted by antonio | novembro 20, 2010, 07:24
  12. Passou dos limites!!!! esse Prates não é só um cara insuportável, e sim uma pessoa desequilibrada pois ao invés de fazer um simples comentário sobre a reportagem expôs todo seu ódio contra os pobres, ofendeu, humilhou e desrespeitou pessoas que não tem nada haver.
    O QUE É MELHOR COMPRAR UM CARRO E SAIR, OU FICAR EM CASA ASSISTINDO ISSO?

    Posted by almir | novembro 21, 2010, 18:23
  13. Lamentável a reação dessa quase ex senadora ideli. Dá a impressão de que o PT é dono dos pobres. Talvez queira o PT da senadora, aumentar o número de pobres, para poder ampliar o bolsa familia, e ampliar os votos nas eleições.

    Posted by Belmiro | novembro 21, 2010, 20:45
  14. O despeito do ex-petismo de caneta e lápis faz coisa….faz até pirueta prá explicar o fenômeno Prates….kkkkkk !!!!

    Posted by Center Half | novembro 22, 2010, 12:29
  15. O Prates é um dos poucos corajosos a falar a verdade doa a quem doer. Vida longa a ele.

    Posted by Ditados e Girias | novembro 22, 2010, 13:57
  16. O Prates não fez apenas um comentário típico dos seus, que aliás eu sempre acho idiota e reacionário. Pois bem, ele ofendeu as pessoas, querido blogueiro. Pessoas estas que com mta luta moram “numa gaiola que hoje chamam de apartamento” (eu moro em uma, seu Prates), “nunca leu um livro na vida, mas tem um carro”. E daí? É exigido a leitura de no mínimo um livro p/ o teste do Detran? tem que morar em casa própria? Que eu saiba não. E tem mais: porque ele não falou dos playboyzinhos desvairados que saem por aí fazendo rachas dpois de baladas, acabando por matar pessoas inocentes e a si mesmos? Porque não disse que cansamos de ver gente de “carrão” estacionando em local proibido, furando fila, fazendo merda no trânsito? Aliás, depois o Prates mostrou preocupação com o “batimento cardíaco acelerado”
    causado pelo endividamento do pobre que comprou seu carro. Ele não sabe que que os pobres são os que mais mantém o seu nome LIMPO p/ que sempre possam comprar parcelado?E graças a este “crédito fácil”, eu e milhares de pessoas mobiliamos nossas casas, compramos nossos carros e temos dignidade! Muito bem, pois é este “governo espúrio” que proporcionou a oportunidade para que estas pessoas, assim como eu, comprem seus carros e suas casas. Se é ou não é prioridade nas nossas vidas, NÓS É QUE DECIDIMOS, NÃO O PRATES!
    Não concordo que ele possa dizer “o que bem entende”. Se através disso ele propaga um preconceito irresponsável contra pessoas humildes que começam pela primeira vez na vida a terem dignidade, porque compraram seu carrinho.
    Agora os senhores de classe média e alta com seus “carrões” vão poder dizer mais uma vez que a culpa dos males da sociedade é nossa? Dos reles mortais assalariados que compram a prestação? ME POUPE!
    Mas, catarinense é assim, acha que pobre tem que se relegar a sua insignificância, “saber o seu lugar” e “ter prioridades”, primeiro trabalhar para patrões que pagam mal e andar de ônibus porque é “coisa de pobre”.
    Se, inclusive, todos usássemos e exigíssimos transporte público de qualidade (e aqui incluo pobres e ricos), não teríamos tantos acidentes, nem filas, nem stress, nem comentários idiotas deste Prates pra nos ocupar tempo e paciência.
    Não vou nem comentar a pérola sobre os casais que se odeiam e saem de carro para causar acidentes, essa vou só abstrair. Abraço!

    Posted by Binah Ire | novembro 25, 2010, 18:00

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