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Jornalismo

A mesa de bar como local de trabalho

No século passado, principalmente no final da década de 60, na década de 70 e começo dos 80, o exercício do jornalismo se dava, principalmente, em grandes redações. Mesmo em cidades pequenas, como Florianópolis, as redações eram maiores que hoje. E, com a censura e a auto-censura, nem tudo era publicado nos jornais. E, às vezes, era publicado de forma tão enigmática e cifrada, que praticamente ninguém entendia. Ao final do expediente, era comum a turma sair do trabalho e ir a algum bar para trocar informações, comentar o que tinha sido proibido no dia e ouvir os mais experientes.

Nas cidades maiores, com vários jornais, como Porto Alegre, São Paulo, Rio e Brasília, o bar era uma oportunidade importante de conhecer colegas de outras redações, saber mais coisas tanto do noticiário quanto do ofício e se colocar no mercado de trabalho, como participante de uma ciranda: a vaga aberta num jornal era em geral preenchida por um colega da roda de conversa, que ao sair de onde estava, abria outra vaga, que era ocupada por um terceiro amigo e assim por diante.

Abro parênteses para explicar que estou chamando de “bar” porque parece mais simples, mas aqueles estabelecimentos, geralmente conhecidos como sujinho, pé sujo (em casos extremos, cu sujo) e outros apelidos carinhosos, seriam todos fechados se a vigilância sanitária fosse atuante. Ou se quisesse bulir com um monte de jornalista. Os sanduíches tinham sua crocância acentuada por delicadas asas de barata. As bebidas mais sofisticadas eram Drurys e/ou OldEight, e a mais consumida era mesmo a cerveja gelada, tomada em copos americanos cuja higiene era garantida por uma rápida passada sob o fio de água que escorria permanentemente da torneira quebrada na pia. Que, por sua vez vivia abarrotada de louças esperando para serem lavadas no dia em que a água voltasse, que a torneira fosse trocada, ou quando o proprietário resolvesse mandar o ajudante de cozinha, que ficava fumando na calçada o tempo todo, trabalhar.

Pois bem, mais ou menos nessa época, o Pasquim, jornal ipanemense de sátira, humor e auto-promoção, fazia aquelas famosas entrevistas de repórter preguiçoso: liga o gravador e vai conversando, depois entrega a fita para o estagiário e manda degravar. No fim, publica o resultado. É a tal pingue-pongue, entrevista de perguntas e respostas. No caso deles deu certo porque pegaram personagens que eram muito conhecidos, falavam bastante e não tinham medo da milicada que vigiava nossos passos. Leila Diniz, Ibrahim Sued, o recém retornado Gabeira, eram cercados por alguns jornalistas e o bate-papo acabava sempre rendendo uma leitura interessante.

Ontem, trabalhando com um olho no InDesign, outro no Phtoshop, outro no e-mail, as orelhas num estação de rádio tocando músicas do meu tempo e espiando, no cantinho da tela, o tuíter, tive uma idéia. O parto foi rápido e indolor e logo coloquei a recém-nascida no tuíter:

Mesa de bar, gravador, um(a) personagem interessante e jornalistas/tuiteiros/avulsos. De vez em quando. Pra gerar entrevistas tipo Pasquim.

E, em seguida, um complemento, pro pessoal entender melhor que se tratava de uma proposta jogada ao vento:

Resultado da entrevista seria publicado em blogs, fatiado em tuítes, renderia vários dias. Que tal?

Pronto. Foi suficiente. Logo vários tuiteiros começaram a se apresentar, a se candidatar para participar, a contribuir com sugestões.

Até o @Meneghim_ND, editor do Notícias do Dia, se entusiasmou e já ofereceu espaço no jornal. E quando a @neiducca perguntou o nome da coisa, sugeri “Mesa de bar”.

ESTATUTO DA GAFIEIRA

Claro que joguei a idéia para o alto e saí fora, porque não tenho, neste final de ano, tempo para tocar mais um projeto. Mas quero explicar aqui, um pouco mais detalhamente, como imagino que um negócio desse pode funcionar. É a minha visão, que certamente não será a única nem a melhor.

A idéia surgiu como uma forma de abastecer blogs com conteúdo de qualidade e permitir a tuiteiros assunto para alguns dias. Um troço independente, de baixo custo e, principalmente, sem compromissos com veículos comerciais. Não poderia ser muito formal, mas também não pode ser totalmente anárquico.

Imaginei um pequeno grupo que ficaria encarregado de coletar as sugestões de um grupo maior e viabilizar os convites, o local e a existência de mecanismos de gravação. Que pode ser só áudio ou áudio e vídeo. Se alguém quiser, pode transmitir ao vivo, por streaming, pode colocar no you tube, pode publicar no blog, comentar no tuíter. O compromisso seria apenas citar que o Mesa de Bar é uma iniciativa de jornalistas independentes para tentar melhorar o nível da informação que circula na rede e, naturalmente, não poderia ter uso comercial.

Claro que alguém pode querer editar a entrevista e publicar só os “melhores momentos”, mas eu tenho a impressão que fará mais sucesso a publicação da íntegra. Para isso, claro, além de uma seleção cuidadosa do(a) entrevistado(a), não pode ter mala entrevistando. Fazer pergunta não é defender tese. Entrevistar não é forma de virar celebridade.

Um critério inicial para selecionar os(as) convidados(as) poderia ser aquela pergunta simples e florianopolitana, feita a várias pessoas, de vários estamentos sociais e profissões: “sabe o fulano?” Se a resposta for “sei”, o fulano é suficientemente conhecido para entrar na lista. Se muita gente responder não, aí o cara precisa ser espetacular, pra justificar o convite e, consequentemente, a fama que advirá da entrevista.

Os entrevistadores, que não podem ser muitos, podem receber sugestões de perguntas por todos os meios disponíveis. E se o público reclamar muito, a troca será inevitável.

Mais ou menos assim. Mas, como disse, não tenho tempo nem pra me coçar, quanto mais pra me meter nesse enrosco. Mas gostaria de poder participar, ali por março ou abril do ano que vem, de algum Mesa de Bar, entrevistando a Rosane Porto, ou o Içuriti Pereira, ou o Miguel Orofino, ou a Bruna Lombardi, ou a Bruna Surfistinha, o que for que estiver programado para o semestre.

Bom feriadão pra vocês também.

Discussão

Comentários estão desativados para este post.

  1. César, excelente! Abraços, Hélio

    Posted by Hélio A. Schuch | novembro 13, 2010, 12:55
  2. Caraglio. BUT, o professor Cesar é mais democrático que a idéia lançada no maisbarulho de blogueiros entrevistando. Entrevistando desconhecidos, as células desse corpo social. Os espetaculares midiáticos são safos e as vezes não rendem `apesar` da qualidade dos entrevistadores. E Cesar, correr com as malas… são muitas… vai faltar lugar pra tantos deuses…

    Posted by LesPaul | novembro 13, 2010, 14:51
  3. Professor Cesar,você está cada vez melhor…

    Bom feriado!

    Posted by Suely de Aguiar | novembro 14, 2010, 00:18
  4. Cesar, o entrevistado tem que ser, no mínimo, tão importante quanto a mesa de um bar. Afinal, a mesa de bar está para a humanidade, como a pia de água benta está para o fiel. Abraço – Paulo

    Posted by paulo stodieck | novembro 15, 2010, 21:17
  5. Excelente ideia. Já pensei em fazer isso tempos atrás, com desconhecidos. Ir aonde ninguém vai. Sabia que no meio das casas de massagem da galeria jaqueline existe um sebo? Pois é, porque não entrevistas o dono do mesmo? Aliás César, porque nao entrevistá-lo? Eu e mais uns 4, 5 numa mesa, de tarde, cerveja, petiscos, perguntando para você como era, como foi a vida em Fln tempos atrás, as redações, o cotidiano ou qualquer outra coisa, com ou sem sentido. Não sou jornalista mas gostaria muito de me envolver num projeto assim.

    Posted by Gabriel | novembro 18, 2010, 01:16

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