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Caraminholas

Resmungos malhumorados de final de semana

Como costumavam dizer os Mutantes, ando meio desligado, já nem sinto meus pés no chão. Afinal, esse mundo tá virado num alho e não sei se adianta muito gastar tempo precioso resmungando neste blog de esquina, encostado num balcão sebento, sorvendo o café amargo e mal passado do desencanto com o cerumano.

Notei ontem que a cidade começa a se preparar para o Natal e, pouco tempo depois, vi o Mário Cavalazzi subindo a Felipe Schmidt, a pé, com as mãos nos bolsos (dele), aparentemente caminhando despreocupado como qualquer florianopolitano no final de mais um dia de trabalho. E pensei em quanta injustiça o mundo tem cometido com esse moço. Dão-lhe tarefas árduas e, quando as executa e a coisa dá errado, deixam-no ao relento, sofrendo toda sorte de maledicências.

O que custava o governador LHS, que deu a idéia de contratar o tenor Bocelli, ter se solidarizado com o Cavalazzi e na hora em que o show gorou, também pedir demissão? O que custava o prefeito Dário, que achou ótimo alugar a árvore high-tech bem cara, bem cara, assumir junto com o subordinado as dores pela injustiça de terem visto irrrgularidades no negócio e igualmente pedir demissão? Teria sido um gesto nobre, de grande significado humano, que daria, ao Cavalazzi, o necessário suporte moral.

É isso que tem estragado nossa cidade, nosso estado e nosso país: a falta de solidariedade. São muito amigos na hora do sucesso, mas na hora do revés, encolhem-se todos, escondem-se atrás daquela frase lapidar: “não tenho nada com isso”.

Vejam outro caso, o dessa moça Erenice, braço direito da Dilma. Assim que os esquemas de captação de dinheiro tornaram-se públicos, preferiram amputar o braço, para imediatamente afastá-lo do resto do corpo que, como se tem divulgado, estaria completamente são. Que coisa feia… No fundo parece um gesto nobre e corajoso (afinal, amputar voluntariamente o braço direito não é como cortar as unhas ou perder, por acidente, o mindinho), mas tenho a impressão que teríamos uma lição mais eloquente de amizade e companheirismo, se a Dilma fosse solidária e também saísse de cena, mantendo seu braço direito como sempre esteve, firmemente preso ao corpo.

Mas todas essas reflexões são inúteis. O Brasil será, cada vez mais, tomado pelo pragmatismo amoral dos novos ricos iletrados. Como as fortunas não se originaram do trabalho, mas do “serviço público de resultados” em cargos de diversos tipos (dos sindicatos aos governos, passando pelos legislativos e judiciários), nem tiveram tempo de ilustrar-se para entender as misérias e mistérios do cerumano. Ou mesmo para compreender os raros momentos de glória da humanidade. E rastejam todos, achando que a lama é o habitat natural e inevitável.

RETRATO EM BRANCO E PRETO

Essa história do prêmio Jabuti para o Chico Buarque é uma boa síntese desse momento lindo:

“Ora, anteontem, o que aconteceu em São Paulo? A CBL atribuiu o prémio Jabuti de Ficção a Chico Buarque, que tinha ficado em segundo lugar na categoria «romance». Se tivesse ficado em primeiro na categoria contos e crónicas, ainda se admitia — mas não; Chico tinha ficado em segundo lugar numa das categorias de ficção (na categoria de não-ficção ganhou Maria Rita Kehl, a psicanalista que escrevia no Estadão, com O Tempo e o Cão). Mas há este pormenor: Buarque recebeu o prémio enquanto parte da plateia se levantava, em coro, gritando «Dilma! Dilma! Dilma!» Que bom, que bom, é Chico, é Chico. Esta gente é de outra estirpe.”

Para ler a íntegra do post de onde retirei o parágrafo acima, clique aqui. O link leva ao blog do escritor português Francisco J. Viegas. Pouco depois desse fiasco, a Portugal Telecom, que tem enormes interesses negociais no Brasil, deu grande alegria ao governo brasileiro, ao premiar um livro do Chico no certame que patrocina. Ó, que coincidência. Aí, claro, os governistas trataram de criticar a opinião do Viegas, como que a justificar a farsa do Jabuti: se ele é premiado no Prêmio Portugal Telecom, por que não deveria ser no Jabuti, mesmo que para isso seja necessário alterar a ordem dos fatores?

Viegas voltou ao assunto com novo post, aqui.

Discussão

Comentários estão desativados para este post.

  1. Ô César…
    O Mário Cavallazzi também não teve nada a ver com a Árvore nem com o no-show do Bocelli !
    Aliás, dizem que o Mario Cavallazzi não tem nada a perder, pois nem tem bens para penhorar…
    Quem está respondendo por tudo é o Alú, que como Secreário Adjunto foi quem assinou os contratos…
    Como sempre, a culpa é do mordomo !

    Posted by Carlos | novembro 13, 2010, 00:38

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