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Caraminholas

O crime de vender mais barato

Tenho ouvido colegas debaterem, principalmente no rádio, aquele problema criado pelas filas de consumidores diante do posto que vende gasolina mais barata na avenida Mauro Ramos. E acho que estão com um enfoque enviesado.

Vejam bem: temos uma das gasolinas mais caras do mundo. E a maioria dos postos age como se estivesse firmemente atada a um cartel, onde até os milésimos de centavos do preço de venda são iguais. Daí, um dono de posto resolve ser capitalista e oferece o produto a um preço menor. Com isso, gera movimento e aumenta seu giro. Certamente, não está tendo prejuízo. Nenhum comerciante razoavelmente organizado que tem filas à porta, perde dinheiro.

E aí, em vez da grita ser contra os demais donos de postos, que mantém seus preços nas alturas e nem tentam atrair consumidores com alguma promoção semelhante, criticam o posto barateiro por atravancar o trânsito.

Vocês já pararam para pensar um pouco na insanidade desse argumento? Se o dono de carro fica na fila por vários minutos, se arriscando a uma multa, é porque está, silenciosamente, protestando contra os insensíveis mercenários que cobram preços maiores. Deveríamos lutar para que a livre concorrência levasse à redução de preços. Deveríamos condenar os cartéis. Mas, em vez disso, xingamos o dono do posto porque as filas atrapalham o trânsito.

Tem alguma coisa muito errada numa sociedade capitalista que demoniza o comerciante que vende mais barato. Que procura encontrar defeito no produto (“de qual é a bandeira? será que não é combustível adulterado? deve sonegar impostos”) e martela até conseguir seu objetivo, que é também o do cartel: fazer com que ele ou ela se enquadre e pare de vender mais barato.

E essa pressão contra o preço baixo ocorre em vários locais. Já vi isso se passar em outras cidades. Numa delas, durante meses, todo dia, mas todo dia mesmo, o dono do posto recebia a visita de algum fiscal. Do município, do estado, federal. Sempre instigados pelo cartel, que abarrotou as mesas dos órgãos fiscalizadores com denúncias. Até que um dia, pegaram uma irregularidade: a gasolina aditivada, que estava no mesmo preço da gasolina comum, não tinha um ingrediente que deveria ter. E todos comemoraram. Tinham conseguido derrotar o infiel, lascando-lhe uma multa exemplar e fechando o posto por alguns dias.

Essa cruzada contra o preço baixo é, naturalmente, um ponto de honra do cartel (eles negam, mas basta correr alguns postos para ver que o preço, que está liberado, com certeza é acertado entre eles). Nós, consumidores, deveríamos estimular a concorrência. E alguns até fazem isso, enfrentando a fila para prestigiar quem faz a coisa certa. Mas aí, formadores de opinião acham que é insuportável que as filas atrapalhem o trânsito. E entram no jogo do cartel. Talvez ingenuamente, talvez de propósito. Talvez sem pensar.

Se mais dois ou três postos também baixassem o preço do combustível, a fila diminuiria. Essa é a solução razoável: estimular a que mais postos rompam com os ditames do cartel e entrem na verdadeira concorrência capitalista, atraindo os consumidores. Para que o florianopolitano não precise perder tempo, arriscar-se e atrapalhar o trânsito, mas continue pagando mais barato.

Discussão

Comentários estão desativados para este post.

  1. É bem por aí tio! E o referido posto sempre teve preços mais baixos e nem por isso tem prejuízo, pois se tive, já teria fechado faz tempo!!!

    Posted by Eduardo | novembro 4, 2010, 08:50
  2. Ave César! Sábias e sensatas palavras.

    Posted by Luiza | novembro 4, 2010, 09:01
  3. Ele vende mais barato porque é comprovadamente sonegador. Já foi multado várias vezes. Concorre em deslealdade com os outros postos, que pagam impostos (nem todos, claro). E o problema das filas sobre a pista de rolamento está no Código de Trânsito – é infração grave interromper o tráfego de veículos. Questão de cidadania. É minha opinião, com todo respeito à sua. Abraços fraternais

    Posted by Carlos Damião | novembro 4, 2010, 09:42
  4. Cesar,

    É meio simplista teu comentário! Na verdade o que não pode é o preço baixo da gasolina vendido por um posto, atravancar o transito de toda a cidade.

    O importante é discutir o papel da Br-Petrobrás.

    A criação das empresas de economia mista, caso da Petrobrás, é ocupar um espaço que as empresas não privadas não tem interesse de participar, ou praticam preços inadequados, objetivando tb o lucro dos seus acionistas.

    A criação da Petrobras foi por justo motivo. Hoje ela vende a gasolina mais cara.

    Todavia com o passar dos anos, ela – Petrobrás, bem como o Banco do Brasil, tem como único objetivo, o lucro dos seus acionistas..

    O compromisso social dessas empresas desapareceu. Fciou o compromisso com o lucro. Vide seus balanços.

    Posted by Pedro de Souza | novembro 4, 2010, 09:43
  5. Acho que outra forma de protesto, para quem pode fazer, é usar os seus veículos de forma controlada. Talvez caminhar até a padaria, dar/rachar carona aos amigos de trabalho, utilizar transporte público.

    Não é a solução perfeita, mas ajuda a diminuir a demanda.

    Gostei do post. Parabéns.

    Posted by Helton Marinho | novembro 4, 2010, 10:01
  6. Até que enfim um lampejo de racionalidade nessa encrenca do posto! Esses colunistas de última página ficam descendo o pau no proprietário por ele fazer o correto: vender produto mais barato ao consumidor. O cara faz a coisa certa e recebe críticas por algo que não é de sua responsabilidade: a falta de civilidade dos motoristas, que trancam uma das pistas da Mauro Ramos, e a costumeira omissão de nossos agentes de trânsito. Acho improvável que o baixo preço tenha a ver com adulteração ou sonegação, pois esse deve ser o posto mais fiscalizado da cidade. Sugiro à turma do contra que arrume outras bandeiras mais importantes para lutar, como por exemplo o fato de termos um prefeito com mandato espúrio e um governador indiciado por crimes contra a administração pública.

    Posted by Carlos | novembro 4, 2010, 10:03
  7. Sou cliente do posto São Cristovão, essa que fica ao lado da Fátima e que todo mundo reclama por causa da fila. Prefiro reclamar dos preços altos também. Aliás, tem fila também naquele posto perto do Sesc da Prainha (é ou era do Carioni) e desse ninguém reclama. Por quê? E sobre o que o Damião diz, que o preço baixo é fruto de sonegação, como explicar a temporada de preços baixos que até os postos com preços mais caros, como o Angeloni, por exemplo, participam? É temporada de sonegação? Explicar preço da gasolina aqui em Florianópolis é uma ciência…

    Posted by Alexandre Gonçalves | novembro 4, 2010, 11:02
  8. Primeiro, se ele é comprovadamente sonegador, deveria ter o estabelecimento fechado e estar na cadeia, não é? Se não está, então presumo que a sua promoção não é ilegal. Quanto ao fechamento da via pública, por um acaso ele põe barreiras na rua para parar o trânsito? Além disso, parece-me uma situação gerada por um alto fluxo de veículos, assim como acontece nas entradas da Avenida Beira-mar. Só como exemplo: alguém pensou em multar o pessoal que pára na pista da esquerda para fazer a conversão na Praça Celso Ramos? Claro que não, porque seria despropositado. Por isso, entendo que ambos são argumentos furados para ir contra o referido posto.

    Posted by Fernando Silva | novembro 4, 2010, 13:40
  9. Caro César: o que ninguém se deu conta ainda é que o tal posto não tem bandeira. Como pode isso? Quem fiscaliza? Nunca botei gasolina naquele posto porque não sei a procedência do produto. Pra mim só isso é uma irregularidade monumental. Sempre que passo por lá procuro alguma identificação e té hoje necas.

    Posted by Mário Medaglia | novembro 4, 2010, 17:57
  10. Medaglia, mesmo os postos “com bandeira” podem comprar combustível de várias distribuidoras. E todo posto tem, em lugar visível a informação da distribuidora que está comprando naquela semana (assim como, no supermercado, tem a informação do frigorífico que está fornecendo naquele dia a carne vendida a granel). Quem fiscaliza é a mesma agência que fiscaliza os “com bandeira”. O que chamas de “bandeira”, em muitos casos, é apenas a identificação da rede (Gallo, Mimo, Ipiranga, etc), que nem sempre garante muita coisa, além do fato de, como em toda rede, terem que pagar royalties pela franquia. Mas, é claro, quem confia na “marca” não se importa de pagar um pouco mais.

    Posted by Cesar Valente | novembro 4, 2010, 18:42
  11. Creio que é procedente a sua colocação de que devemos nos posicionar conscientemente perante o preço dos combustíveis em Floripa, quem sabe com boicotes em massa durante dias, quem sabe estimulando o uso racional dos meios de transporte e até mesmo do automóvel, visto que o manezinho só tem pernas “prá bonito”, como se diz, pois até para ir na esquina cuspir ele vai de carro, se satisfaz como nenhum outro com o status do carro. Mas discordo da defesa dos motoristas que param sobre a via para quererem abastecer a um menor preço, todos, sem exceção, deveriam ser multados. Há ainda a constatação de que muitos que ali param seus carros, pelo modelo e ano que hostentam, tem condições de abastecer a preços diferenciados, mas como vivem de fachada, seus carrões custam tanto que se veem obrigados a mendigar combustível mais barato para poderem aparecer. Creio que dentro das alternativas mais eficazes para pressionar a queda do preço dos combustíveis seja mesmo o boicote, e para isso, uma ação conjunta de blogs como o seu podem dar início a um movimento desta natureza, pois se todos deixarem de consumir em conjunto, ou os postos abaixam seus preços, ou quebram. Fica aí a sugestão, pois a outra, de o florianopolitano deixar o carro em casa, isso nem em sonho aconteceria, é um pessoal tão atrelado à cultura do carro que deveria nascer com rodas!

    Posted by Haylor Delambre Jacques Dias | novembro 4, 2010, 18:47
  12. Quando uma grande rede de supermercados colocou um posto ali no começo da presidente Kennedy, jogou os preços lá embaixo e também tinha muita fila.

    Dizem por aí que foram chamados para “conversar” sobre o preço baixo. Uma, duas, três vezes, até que, finalmente, a “promoção” acabou e os postos em volta que tinham também abaixado o preço, pela queda do movimento, voltaram todos ao mesmo valor.

    Claro, não há cartel, é tudo coincidência…hehe

    Posted by Marcos | novembro 4, 2010, 18:50
  13. Deixando de lado a discussão do transtorno causado no trânsito, o raciocínio que vc fez bate com a lógica. Criticar quem vende mais barato é igual a dar uma bronca no garçon que não te atende rápido porque os outros empregados não compareceram para trabalhar…

    Posted by paulo stodieck | novembro 4, 2010, 19:38
  14. É fácil falar em deixar o carro em casa onde existe transporte coletivo eficiente. Em Florianópolis isto soa como uma heresia. Só quem nunca andou de ônibus pode imaginar um despropósito deste tamanho. Nem os amarelinhos chamados de “executivos” dão conta do recado. Pelo contrário, além de caros são demorados.

    Posted by Mário Medaglia | novembro 4, 2010, 20:43
  15. Mario, nosso transporte público é um lixo mesmo, quase empurra todos a usarem o carro, mas eu concordo com o Haylor quando diz que o povo exagera no uso do carro.

    Para citar o meu exemplo: vou a pé para o trabalho todos os dias, cerca de 20/25 minutos de caminhada. Pelo menos três colegas moram mais perto do que eu e utilizam o carro.

    Exemplo simples e individual, mas que me permite pensar que se repita por toda a cidade.

    Posted by Marcos | novembro 4, 2010, 23:33
  16. A única certeza é que não é ele quem para o trânsito, e sim seus clientes. Como ele não é autoridade de trânsito, não é dele a responsabilidade de gerí-lo!

    Posted by lfh | novembro 4, 2010, 23:34
  17. Parabens Cesar !

    O seu comentário sobre a venda de combustível mais barato pelo referido posto foi excelente, racional e merecedor do mais alto elogio.
    Realmente não dá para entender como alguma pessoa é contra esta prática.
    Quer dizer, para entender dá. Os que não entendem ou que são contrário devem estar com algum parafuso solto. Não presisa dizer onde. Ou ,quem sabe, são cobra mandada por algum concorrente.

    Com certeza, racional não está sendo a turma do contra.

    Concordo plenamente com você e parabens.

    Posted by Leoberto | novembro 5, 2010, 11:27
  18. O brasileiro é muito trouxa mesmo, garanto se todo mundo deixasse um dia por semana o carro em casa e fosse trabalhar a pé ou transporte público estaria sobrando gasolina nas bombas. 70% das rotas diárias dos carros é de casa para o trabalho. Brasileiro gosta mesmo é de sofrer…..

    Posted by Antonio Carlos | novembro 5, 2010, 12:47
  19. Parece-me claro que o proprietário do posto da Avenida Mauro Ramos não é o culpado pelas filas, em função de vender gasolina por um preço mais baixo. Os verdadeiros culpados pelo problema do tráfego na Avenida são os proprietários dos demais postos, que vendem gasolina mais cara e pelo mesmo preço.

    Posted by Guilherme Bossle | novembro 5, 2010, 15:52

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